domingo, 2 de maio de 2021

 


 

Um dia - faz tempo - num show da Nana no Canecão, entre uma música e outra do repertório sempre maravilhoso, véspera de uma eleição com resultado bem danoso para o país, já previsto mas bem constatadinho depois, ela falou uma cretinice política. Ganhei logo uma advertência para não comprar nunca mais ingresso para show de ninguém reacionário...mas ela é um desses - raros - casos em que eu fecho os olhos para a má escolha ideológica por conta do talento. Fecho os olhos e abro os ouvidos, mas perdoar, mesmo que ninguém tenha me pedido perdão, não acho direito. Pensar mal traz consequências graves. Mas os artistas, geralmente tão afetados pelas más escolhas, até por isso costumam formar uma classe mais esclarecida. Nem sempre, e é de se lamentar, mas agradeço sempre, e nesse caso, a Dori Caymmi e Paulo César Pinheiro, pelo dom do talento e do sentimento. 


https://www.letras.mus.br/nana-caymmi/890093/?fbclid=IwAR0hwwtNmkXWGaxjaAOIWFSZtJQTSuSte3tVk8k-ixs92lE74XUWfxx5Noo 

 

Velho Piano 

 

Ah! O amor muda tanto 

Parece que o encanto 

O cotidiano desfaz 

Feito um verso jogado num canto 

De um velho piano

Que não toca mais 

E ele estende seu manto

Feito um soberano 

E vem como um santo 

Mas parte profano 

Parece um cigano Não volta jamais 

Ah! O amor causa espanto O amor é o engano que traz 

Desengano por trás 

E no entanto, todo ser humano 

Por ele faz plano demais 

Erra demais 

Ai, é o amor, barco tonto 

Num vasto oceano 

De riso e de pranto 

De gozo e de dano 

E como é mundano Não pára no cais 

E quando quer paz 

É tarde demais"

sábado, 9 de maio de 2020

Minha mãe




Pense numa pessoa que segue sempre uma linha reta, sem ser careta ou carola. Minha mãe.
Nasceu num paraíso na terra, que se dissolveu quando seus avós se foram. Teve pai até os quatorze anos. Febre reumatóide, que ele trouxe dos invernos em Liverpool, onde passou toda a vida escolar até voltar engenheiro.
Sua mãe também partiu jovem, poucos anos depois que eu nasci, uma avó sempre lembrada que eu mal conheci.
Minha mãe, criada em Santa Teresa, sem rebeldia e sem traumas, num colégio de freiras francesas, gostava de lá.
Rigor e disciplina ajudam muito quando a vida leva a pessoa num pé de vento. E a dela foi assim, um redemoinho, mas ela mesma nunca se abalou. Educava os filhos por formação, senso do dever, e vocação. Teve sete, nossa mãe!
Seguiu seu coração, que seguiu com ela até o fim, na alegria e na tristeza. Meu pai, um competente clínico alopata.
Mas ela se tratou sempre com a homeopatia.
Tinha uma fé cega, mas humana, nada muito espiritual, embora contasse com o reino dos céus. Carregava os filhos para a igreja com ela, aos domingos e nas inesquecíveis missas do Galo, à meia-noite, num tempo que não existe mais.
Viu seus netos - onze ao todo - irem nascendo e não sendo batizados. Lamentava. Planejou um batismo coletivo, quase subversivo, mas não contou com a cumplicidade da Igreja para isso. Desistiu. Deixou nas mãos de Deus, mas contou pela vida afora com a amizade fraterna de um belo representante dele, o Padre - aliás Dom - Hélder Câmara, para ela, o eterno "Padrezinho".
Seu coração, que já era grande, foi ficando ainda maior. Cercada de udenistas por todos os lados, seguiu por conta própria o caminho aberto pelos padres franciscanos da escola em que os filhos estudaram.
Difícil dizer se foi mais mãe do que avó, acumulou funções. E foi se revelando aos poucos, até o fim de sua vida na Terra.
Conhecer mesmo, nós a conhecemos aos oitenta anos, quando lançou um livro contanto sua infância de sonho, quando estudava numa pequena escola que seus avós construíram para os netos e para todas as crianças dos arredores, em seu retiro petropolitano. Nas anotações em um "álbum da avó", confessou um arrependimento: ter comemorado a morte de Getúlio Vargas. Cusiosa mesmo essa D. Mathilde, deixando anotada uma lembrança tardia como essa, que eu só li quando ela já não estava mais aqui. Discreta, silenciosa, quase humilde: surpreendente. Um dia, uma homeopata me disse: vou trocar seu remédio: você parecia que era de um jeito, agora estou achando que você é o oposto - não sei porque, lembrei ali da D. Mathilde. Mathilde com H, ela lembrava. Como lembrava do sobrenome La Rocque, que tirou quando se casou, mas não saiu de seu DNA.
Sempre às voltas com filhos e afazeres, e cuidando sempre das plantas e de quem estivesse à sua volta, a música e o cinema nunca deixaram de ocupar um lugar de honra para ela. Antenada, fugia, se fosse preciso, diante da possibilidade de um filme ou um show interessante.
Dia 20 de abril passado, ela teria feito 98 anos. Mas nos deixou aos 84, com a cabeça de sempre e sem nenhum aviso. Nos deixou, maneira de dizer, porque mesmo para uma pessoa de pouca fé, sua presença é quase palpável. Sua luz não nos deixa, não importa o tamanho da dificuldade que nos aparece. É ela que resolve. E que nos ensinou a seguir. A vida tropeça. A gente segue.

domingo, 3 de março de 2019

“Sabem do que são feitos os direitos, meus jovens?"


“Sabem do que são feitos os direitos, meus jovens?

Sentem o seu cheiro?

Os direitos são feitos de suor, de sangue, de carne humana apodrecida nos campos de batalha, queimada em fogueiras!

Quando abro a Constituição no artigo quinto, além dos signos, dos enunciados vertidos em linguagem jurídica, sinto cheiro de sangue velho!

Vejo cabeças rolando de guilhotinas, jovens mutilados, mulheres ardendo nas chamas das fogueiras!

Ouço o grito enlouquecido dos empalados.

Deparo-me com crianças famintas, enrijecidas por invernos rigorosos, falecidas às portas das fábricas com os estômagos vazios!

Sufoco-me nas chaminés dos Campos de concentração, expelindo cinzas humanas!

Vejo africanos convulsionando nos porões dos navios negreiros.

Ouço o gemido das mulheres indígenas violentadas.

Os direitos são feitos de fluido vital!

Pra se fazer o direito mais elementar, a liberdade,

gastou-se séculos e milhares de vidas foram tragadas, foram moídas na máquina de se fazer direitos, a revolução!

Tu achavas que os direitos foram feitos pelos janotas que têm assento nos parlamentos e tribunais?

Engana-te! O direito é feito com a carne do povo!

Quando se revoga um direito, desperdiça-se milhares de vidas …

Os governantes que usurpam direitos, como abutres, alimentam-se dos restos mortais de todos aqueles que morreram para se converterem em direitos!

Quando se concretiza um direito, meus jovens, eterniza-se essas milhares vidas!

Quando concretizamos direitos, damos um sentido à tragédia humana e à nossa própria existência!

O direito e a arte são as únicas evidências de que a odisseia terrena teve algum significado!”

Texto da Juíza Federal Raquel Domingues do Amaral.

terça-feira, 22 de janeiro de 2019

Lembrando Martin Luther King Jr


- Injustiça em algum lugar é uma ameaça à justiça em qualquer lugar.

- No final, você vai lembrar, não das palavras de nossos inimigos, mas do silêncio de nossos amigos.

- Começamos a morrer quando silenciamos sobre coisas que realmente importam.

- Nada no mundo é tão perigoso quanto ignorância sincera ou estupidez consciente.

- Inteligência e caráter - esse é o objetivo da educação de verdade.
-
Existe sempre alguma coisa boa no pior de nós e alguma coisa ruim no melhor de nós.
Quando descobrimos isso, somos menos inclinados a odiar os nossos inimigos.

- O amor é a única força capaz de transformar um inimigo em amigo.

segunda-feira, 12 de novembro de 2018

Momentos brasileiros



Imagem Museu Histórico RJ. Foto Vanda V. Castro.

Do livro "1822", de Laurentino Gomes:


Quem observasse o Brasil em 1822 teria razões de sobra para duvidar de sua viabilidade como nação independente e soberana. (...) Era uma população pobre e carente de tudo, que vivia à margem de qualquer oportunidade em uma economia agrária e rudimentar, dominada pelo latifúndio e pelo tráfico negreiro. O medo de uma rebelião dos cativos tirava o sono da minoria branca.

(...)

Frei Caneca, líder da Confederação do Equador de 1824 em Pernambuco, tinha um projeto razoável de Brasil, republicano e federalista, muito parecido com o dos Estados Unidos de hoje. Passou para a história oficial como um inconsequente porque perdeu. (...) Frei Caneca acabou seus dias diante de um pelotão de fuzilamento encostado no muro do Forte das Cinco Pontas, no Recife.

(...)

Em 1787, quando ainda era embaixador em Paris, Thomas Jefferson foi abordado pelo mineiro José Joaquim da Maia, o Vandek, estudante da Universidade de Montpellier. Queria ajuda dos Estados Unidos para fazer uma revolução no Brasil. Jefferson, que tinha outras preocupações mais urgentes, recusou, mas fez questão de reportar o caso ao Departamento de Estado americano. Vandek morreu no ano seguinte, antes de voltar ao Brasil.


Do livro "1889", de Laurentino Gomes:

O historiador Sérgio Buarque de Holanda fala numa "constituição não escrita", diferente da Constituição real, que ditava a política do imperador mais de acordo com as conveniências do jogo do poder do que na letra da lei.

(...)

"Entre nós, o que há de organizado é o Estado, não é a Nação", dizia, em 1887, o sergipano Tobias Barreto. (...) não é o povo, o qual permanece amorfo e dissolvido, sem outro liame entre si, a não ser a comunhão da língua, dos maus costumes e do servilismo". Visão parecida tinha o francês Louis Couty, professor estrangeiro da Escola Politécnica da Corte. Segundo ele, nas vésperas da Proclamação da República, faltava ao Brasil "um povo fortemente organizado, povo de trabalhadores e pequenos proprietários independentes (...) por si, sem um Estado-Maior constituído de comandantes de toda a espécie ou de coronéis da Guarda Nacional".

(...)

O abolicionismo de André Rebouças, Luís Gama, Joaquim Nabuco e José do Patrocínio era um movimento urbano, enquanto a escravidão permanecia como uma realidade rural. (...) Na campanha abolicionista havia, portanto, dois brasis em confronto. O primeiro, o dos defensores do fim da escravidão, era representado pelos advogados, professores, médicos, jornalistas e outras profissões urbanas - um país que frequentava escolas, atualizava-se pelos jornais, reunia-ae nos cafés para discutir as ideias e novidades do século XIX. O outro Brasil era o dos fazendeiros, ainda muito parecido com o da época da colônia - agrário, isolado, analfabeto, sem comunicações e conservador.

Os debates da época refletiam esse confronto. Em junho de 1884, o Imperial Instituto Baiano de Agricultura enviou uma petição à Câmara dos Deputadosna qual reclamava do movimento abolicionista. "A escravidão tendo entrado em nossos costumes, em nossos hábitos, em toda a nossa vida social e política, acha-se por tal forma a ela vinculada que extingui-la de momento será comprometer a vida nacional,perturbar sua economia interna, lançar esta na indigência, na senda do crime e no precipício de uma ruína incontável" alertava o documento. Parlamentares escravocratas ecoavam as reivindicações dos fazendeiros, evocando em seus discursos um cenário de catástrofe. "Os abolicionistas são salteadores; mas, para estes, tenho o meu revólver!", ameaçava Martinho de Campos, do Partido Liberal.

(...)

Em 1884, Ceará e Amazonas se tornaram as primeiras províncias a abolir a escravidão no Brasil - quatro anos antes da Lei Áurea. Um motivo é que nessas regiões, o trabalho cativo deixara de ser importante para a economia (...) ao contrário do que acontecia no sul do Brasil, especialmente no Vale do Paraíba, cujas fazendas de café dependiam totalmente dos cativos.

(...)
Escultura M. Oiveira, do antigo Cinema Palácio, RJ. Foto Vanda V. Castro.

Um episódio ocorrido em 1881 no porto de Fortaleza contribuiu para atrair as atenções para a luta contra a escravidão no Ceará. Foi o boicote ao embarque de cativos liderado pelo jangadeiro Francisco José do Nascimento, na época conhecido como "Chico da Matilde" e mais tarde rebatizado como "Dragão do Mar". Durante três dias, Nascimento e os colegas se recusavam a transportar para os navios um grupo de escravos vendidos para fazendeiros do sul do país. Em represália o jangadeiro foi demitido do cargo de prático da barra que ocupava na Capitania dos Portos do Ceará. A punição, no entanto, o promoveu de imediato à condição de herói do movimento abolicionista brasileiro.
Escultura M. Oliveira, do antigo Cinema Palácio, RJ. Foto Vanda V. Castro.

Em março de 1884, José do Patrocínio estava em Paris, fazendo propaganda do movimento abolicionista, quando recebeu a notícia de que, graças à luta do "Dragão do Mar" e seus jangadeiros, o presidente do Ceará, Sátiro Dias, acabara de anunciar o fim da escravidão na província. Alguns dias mais tarde, ao embarcar de volta para o Rio de Janeiro, trazia como troféu na bagagem uma cartinha do escritor Victor Hugo celebrando o feito cearense:

Uma província do Brasil acaba de declarar a escravidão abolida (...) esta notícia tem um alcance imenso. (...) O Brasil infligiu na escravidão um golpe decisivo. O Brasil tem um imperador, e este é mais do que um imperador, é um homem. Que continue. Nós lhe damos os parabéns e o homenageamos. Antes do final do século, a escravidão terá desaparecido da Terra. A liberdade é a lei humana.

(...)

"Vocês fizeram a República que não serviu para nada. Aqui agora, como antes, continuam mandando os Caiado". CAPITÃO FELICÍSSIMO DO ESPÍRITO SANTO CARDOSO, bisavô do presidente Fernando Henrique Cardoso, em telegrama enviado de Goiás ao filho, Joaquim Inácio, que ajudara a proclamar a República em 1889.

sábado, 20 de agosto de 2016

Olímpica, Estoica, Helênica e Inocente


Pulei da cama e fui até a beira da Lagoa, bem pertinho, para tentar fotografar ou apenas guardar na retina talvez a última imagem ao vivo da “nossa” olimpíada. Sabia da canoagem hoje, e que seria na Lagoa.
Já que as canoas não estavam lá, e eu não tinha me informado direito, acostumada a ver as competições aquáticas volta e meia na esquina, apelei para o guarda nacional que fica ali, devidamente camuflado e de metralhadora em punho.
Respondendo ao meu “bom dia, ele falou assim: “Veja bem, coração, eles hoje não saem daqui, na canoagem remam menos que no remo, o percurso é mais curto, então ficam só do lado de lá."

Aaahhh!Do outro lado, eu teria visto também o triatlo, que passaria logo ali, mas eu estava do lado de cá, precisava tomar café, e já estava satisfeita, tinha tentado. E que importância tem uma Olimpíada? Para muita gente, nenhuma. Especialmente se não moram ou não estão no Rio, é quase um pecado se alegrar com ela! Já li e ouvi mais de um paulista afirmando isso, as “olimpíadas tristes”, disse um deles, mostrando - entre outras coisas que não vou dizer - que eles não sabem que a felicidade é uma gota de orvalho numa pétala de flor, voa tão leve, tem a vida breve, e se você quer um pacote inteiro de felicidade, não vai ter, assim no atacado, ela não vem, não vem... vale comer pelas beiradas, saber aceitar as que estão a seu alcance! Vale brigar por ela, claro, mas vale mais até saber que uma coisa não anula outra, e que é essencial saber como brigar, e mais do que isso, saber porque se está brigando. E de preferência, nunca porque as uvas estão verdes!
Eles não sabem, bobinhos, que as Olimpíadas, além de terem sido acordadas num momento mais feliz desse país, além de já então inevitáveis, além de ser um evento que independe do golpe que estamos sofrendo, e que não têm que pagar por isso, elas têm o seu lado alegre, trazem, também, alegria. A cidade se mostrou adequada para elas, que tem que acontecer em algum lugar, e foi aqui. Muita coisa boa vai ficar, sim, e o que foi feito de maldade, foi feito porque as pessoas que decidem às vezes são más e não fomos fortes o suficiente para evitá-las antes. E quem foi? Onde? E o evento aqui foi muito útil para espalhar pelo mundo, de muitas formas, corajosas e criativas, denúncias sobre o golpe de estado em curso no país.
O Rio não tem culpa, pelo contrário. Brasília, por exemplo, tem culpa, o golpe é que fica muito longe. Se a capital fosse aqui, já teria sido desmoralizado. Vai daí que quando ouço ou leio um discurso que me parece mal colocado, tenho logo vontade de responder. Bobagem. As pessoas não estão falando comigo, não querem resposta, querem ter razão. Elas estão falando com elas, para elas, no máximo, para agradar quem já pensa como elas. Isso sim, é triste. As Olimpíadas, não.

sexta-feira, 13 de maio de 2016

O QUINTAL


Quando a gente nasce num quintal, vai conhecendo as possibilidades: colher umas frutas, plantar bananas, plantar bananeiras pra se distrair, nada de muito grande nem espalhafatoso, quintal não é latifúndio, criar gado, um bifinho, isso não é para o bico de quem nasce num quintal. Planta umas ervinhas, planta boldo que faz bem pro fígado, capim-cidreira, alecrim, quem tem um canteirinho assim pode até dar uma de curandeiro. Já um cirurgião, muita especialização, num quintal, não pode ser. Quintal tem limite. Tem muro, mesmo que nem sempre seja de concreto. Quando você cresce, é curioso, é sonhador, resolve olhar além do muro. A mãe puxa logo a gente pela blusa, vem pra dentro e pra baixo, o que é isso, meu filho, subir aí faz mal, é perigoso, desce daí. Mas você insiste, quer ver o mundo! E quintal tem mosquito, caramujo, lama, atoleiro, berne, verme, carrapicho, carrapato, micuim. E o quintal do vizinho não é sempre mais bonitinho? E não é que ele é? E grande! Verdinho!
Peraí, o meu poderia ser assim, eu sei fazer ele ficar bonito assim! Não poderia?
Usou o tempo certo do verbo, poderia, poderia, poderia, mas não é, e não será. Botou o nariz pra fora, pode vir bala, gás venenoso, uma bota enorme de um ser estranho muito maior do que você, perigos horríveis, que não só te proíbem de conquistar o quintal alheio, mas quando você se faz notar corre o risco de perder o seu! Um susto, um espanto!

Mesmo assim, tenho minha liberdade. De ir e vir - dentro do quintal. Ela não morre, se o espírito é livre! Nem que seja até num espaço menor, que caiba direitinho dentro da nossa cabeça. Liberdade ainda que tardia, ainda que seja para finalmente subir para o éter, as amarras acabam por se soltar um dia.
O céu ficou até um pouco azul depois da chuva, será que vai voltar a chover? Será que o sol vai abrir? São as atribulações de quem vive num quintal, é no que a gente pode pensar sem correr um grande risco de cair do muro, cair da cama quando sonha. Quem sonha logo percebe que pode ter pesadelo. Cair e se machucar. A mãe não avisou?

segunda-feira, 23 de novembro de 2015

Essencial, imortal e infinito


O que arde cura, o que aperta, segura - por que agora esse pensamento saído de um tempo em que se acreditava em certezas, e se havia sofrimento, maior era a garantia?

Como também já houve o tempo da taquigrafia, da datilografia, do mimeógrafo, e por que não, da máquina de escrever, embora não esteja assim tão extinta quanto estão os dinossauros. Eles não andam mais por aqui mas deles ainda conservamos muitos ossos, e também há quem se dedique a eles com devoção.
O que podemos considerar que seguramos e nos é assegurado num mundo mutante e na corda bamba, que passa celerado assustando tanto o passado? mas que conserva seus dinossauros e dinossauros humanos ainda movidos à devoção?

O ritmo e as mudanças podem até assustar, mas são, deveras, razão para assombro, pois que ao longo do tempo a humanidade evoluiu e muito, até no sentimento humanitário. Se hoje nos chocamos com aberrações que deveriam ter sido extintas em algum lugar do passado, é porque a evolução é o padrão, e é o que se espera da humanidade, sempre. A evolução e o passado não se estranham, já que estão sempre consequentemente ligados.

Tenho me voltado demais para o passado, desenterrando histórias de avós e bisavôs, e não foi nem ideia minha, portanto se existem pessoas querendo saber de bisavôs e de seus feitos, se em nome da História se olha para trás, a celeridade, a ousadia, a impessoalidade, o descompromisso, as desamarras, a inconstância, a fila que anda, anda, anda, não teriam também sua cota de dias contados? Será que o mundo, que não sabe mais o que fazer com o seu lixo, tanto lixo, reserva um bom lugar para uma quimera?
Quisera. Quem dera.

quinta-feira, 17 de setembro de 2015

Notícias


Quando eu ainda buscava ideias de pautas, mais de uma vez, por motivações variadas, sugeri um programa em torno da felicidade – o que é - se existe - onde ou como encontrá-la, podemos viver sem ela ? ( "risos" para um formato que, pela longa permanência no ar, virou motivo de troça, para usar uma palavra de outro tempo).

Numa dessas vezes fui motivada pela resenha de um livro que argumentava justamente que a felicidade não é mais possível no mundo atual, já que ninguém é uma ilha e recebemos notícias de tragédias, tristezas e males vindos de todos os lados do planeta. Impossível ser indiferente ao que acontece na Síria, Irã, Iraque, em quase toda a África, se eterniza no Afeganistão, no Vietnã um pouco mais atrás, atrocidades sem nome e sem data, dentro e fora do mapa.
“Você parece carregar as dores do mundo” ouvi de um terapeuta e fiquei até hoje sem entender, porque a terapia foi curta e também porque como não sentir dor vendo crianças vivendo na rua, o que tinha sido o meu comentário ali. Então não é comigo? É comigo, sim, é com todos, muito mais até com os que não sentem que é com eles, mas o que fazer? Não ver? Não ler? Não fazer, já que uma gota não transforma um mar?
Comecei a separar: o que me interessa é o que é possível transformar com a mobilização que uma notícia tem o poder de provocar. Não é pouco, mas a cobertura dos fatos é feita seletivamente, e muito frequentemente, de maneira arbitraria. Vai ficando difícil, quase impossível encontrar isenção e honestidade no que se noticia, como é impossível achar um equilíbrio entre boas e más notícias. É mesmo desequilibrada a cobertura midiática.

Viciada em notícia desde criança, quando meu pai chegava com O Globo, para os quadrinhos que eu e meus irmãos seguiam, o Jornal do Brasil para todo o resto, O Cruzeiro quando atraía mais do que a televisão, que eu não via, outro dia, sem nenhum motivo aparente, me veio uma lembrança esquecida, da primeira redação em que trabalhei: logo que entrei no jornal fui escalada para selecionar notícias que importassem e que coubessem em pequenas frases, que eu deveria mandar para uma empresa que tinha um contrato com o jornal e as exibia, passando numa faixa luminosa, emolduradas pelo morro do Pão de Açúcar, uma cena que me chamava a atenção desde criança. Como pude esquecer?
Era por volta desse tempo que Caetano, o dos bons tempos, perguntava: “Quem lê tanta notícia?”.
As notícias andam mentindo muito, e eu não gosto de me enganar, por isso estou me voltando contra o tempo, o relógio, a atualidade, tenho agora mais prazer com coisas atemporais, incluindo aí as memórias que guardo, bem fora da ordem. E falando de mim posso estar falando de muita gente, mesmo não esquecendo de quem precisa ou insiste em lidar com as últimas notícias, mas em tempos de infelicidade quase plena, o caminho pode ser seguir o clichê: olhar para as pequenas coisas, e deixar o mundo um pouco de lado.
Uma biografia de Saint-Exupéry – quinhentas e tantas páginas, em inglês, com letrinha pequena, rende que é uma beleza, leio aos poucos para, a cada volta, mergulhar nas suas aventuras, hora no deserto, hora no ar, em Paris, na África ou na América do Sul. Nas asas da Aeropostale, que voaram antes que as da Panair – e essa é outra história boa de ler.
Um pensamento do escritor acima me pareceu particularmente atual – ele falava de um momento, na década de 30, na Europa, em que o mundo estava virando um lugar cada vez menos hospitaleiro:
“O essencial é continuar vivo. Não podemos esquecer disso, mas hoje os viventes são obrigados a se defender como se estivessem sendo ameaçados o tempo todo”.
Vivemos muitas batalhas e ataques por aqui. As guerras, as ameaças, mudam de endereço, mudam de padrão e muitas vezes se repetem sem que muita gente se dê conta. A culpa é toda das notícias, que não dão conta de nos contarem o essencial.

sábado, 24 de janeiro de 2015

O afeto que se encerra


Uma jovem amiga - amiga por tabela, mas nem por isso menos querida, me surpreende dizendo que quer conversar comigo sobre...casamento!

Abri um dia o livro Mentes Inquietas, e fechei na primeira página para nunca mais abrir porque ali descobri que a minha não sossega nem quando durmo. Talvez um terço, se não mais desse tempo infernal em que a minha trabalha, eu tenha dedicado a esse espinhoso e insolúvel problema que persegue democraticamente casados e descasados, por isso posso dizer que minha amiga procura uma fórmula que ainda não foi inventada, nem nunca será, desconfio.

Casamento foi um jeito legal de organizar a sociedade, de dar um rumo e um cunho nobre aos nossos instintos selvagens, depois que saímos das cavernas e nos agrupamos em sociedades que se pretendiam civilizadas. Só isso? Os humanos não tiveram que ser inteiramente domados para isso - embora muitos necessitem, sim, de chibatadas por comportamentos inaceitáveis em qualquer espécie, seja humana ou irracional. Essa solução partiu da exploração de instintos autênticos em inúmeras espécies animais, de escolha, exclusividade, necessidade de proteção da prole. Procriar é um projeto a dois, a não ser que, no momento da partida, se decida e explicite o contrário. Caso contrário, decidir sozinho nesse campo é deslealdade das mais deploráveis. Porque o resultado de uma gravidez não é nada descartável, é fonte de alegria e problemas enquanto dura a vida.

Somos desiguais, os iguais se procuram, as desigualdades interessam e estimulam, variam os motivos que norteiam as escolhas. Uma vez feitas, elas carregam, sim, princípios mais aprimorados de humanidade, como a lealdade. Que pode ser confundida e mal comparada com sinceridade, mas é coisa bem diferente. Sinceridade de sentimentos é básica e fundamental. Já sinceridade tipo confessionário, como as doutrinadas em instituições religiosas, é coisa traiçoeira. Trair também é um verbo que se conjuga de várias maneiras. A traição que era prevista e punida em antigos códigos penais pode machucar mas não necessariamente condenar. Até porque os códigos entre casais também variam. O que é e sempre será condenável não é esse tipo de traição, mas deslealdade. Enganar não é apenas trair, é puxar o tapete, é dissimular, é desrespeitar, é não pensar no outro quando são duas as pessoas envolvidas. Muitas vezes isso acontece porque uma pessoa vai se distanciando tanto da outra, embolando tanto o meio de campo enquanto se supunha entre quatro paredes, que perde a noção do limite, despejando enfim no outro a tal sinceridade quase que para se redimir.
Melhor não falar de coisas negativas, é positivo o raciocínio desenvolvido aqui como é saudável a dúvida levantada pela minha amiga. Mesmo que ela olhe com muita suspeita o meu marco de quatro décadas ainda do primeiro casamento, incompreensão natural para quem não viveu o suficiente para entender o emaranhado das vidas compartilhadas por um longo tempo, a cobrança é pertinente e sincera da parte dela, na sua busca por explicações.
Como se sente um sobrevivente? Aliviado por ter sobrevivido, junto com o que acumulou e guardou, podendo conviver em paz com a maior parte das suas lembranças? Arrependido por não ter pulado do barco antes, por conta do peso que o tempo vai depositando nos ombros? Em nome de quê carregar tanto?
Sendo resultado de escolhas ou o rumo que a vida apresenta, quando caminha você nunca tem controle absoluto do resultado, já que adivinhar não vale, mas acredito que está no bom caminho quem procura se conhecer, pensar nas preferências e escolhas pessoais, aceitando principalmente que não se pode ter tudo, ou que não é decente ter tudo, ou alguém vai ficar sem...
Casamentos duram cada vez menos, isso é certo, então, se tem ao seu lado uma pessoa legal, e os dois querem filhos, talvez seja melhor agora começar cedo, para ter alguém que te ajude a empurrar o carrinho e dividir com você o tempo mais maravilhoso que pode haver, que é ver nascer e crescer a vida mais nobre, forte e encantadora que pode existir sobre a Terra. Por outro lado, não é mais seguro ir se conhecendo com o tempo, já que não existe mais muito pudor nesses tempos à la fakebook, e estão à mão todas as ferramentas para a dissimulação em massa? São tantas as tentações vazias de qualquer conteúdo, e tão grande a tentação de escolher conteúdo zero... É tão mais fácil agora apagar o passado, com um click se fica livre de muito entulho que antes se acumulava na gaveta, as fotos que guardo da minha avó vinham num encarte de papelão, com o nome e endereço do fotógrafo impresso em letra caprichada, hoje somem num segundo e você está a salvo de ser apunhalado por uma memória esquecida num canto de armário.

"O correr da vida embrulha tudo; a vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem. Ser capaz de ficar alegre e mais alegre no meio da alegria, e ainda mais alegre no meio da tristeza..."Guimarães Rosa se aplica aqui, como em qualquer lugar.
Sonhar não custa nada, ou custa caro, pode custar uma vida, por isso é bom sonhar com pelo menos um pé no chão.
Enganar não é o que se quer, acredito, mas se enganar a si mesmo é bastante frequente. Existem traços determinantes que o ser humano não escolhe ao nascer, alguns já vem mais aperfeiçoados - o tal do DNA - mas todo mundo pode se aprimorar. Quem quer, quem deseja sinceramente evoluir caminha na direção de se aprimorar, de buscar respostas e soluções, de pensar no outro, e não apenas seguir seus instintos e exercer suas vontades, comportamento que pode ser mais marcadamente masculino mas está longe de ser inerente ao gênero. Fácil como preencher um cheque ou passar o cartão. É que o sexo masculino dominou a sociedade por séculos, ainda é privilegiado no mercado profissional e conserva mais os traços de tempos truculentos, apenas isso.
O que é determinante no comportamento das pessoas, penso que é mesmo o caráter e a sensibilidade, resultados não só do DNA do indivíduo mas da criação que teve. Aí a coisa vem se complicando mesmo, em tempos já mais permissivos mas em gerações que ainda foram educadas essencialmente pela mães. Educar é tarefa árdua e nobre, mas acho que exercida com mais indigência quando se educava filhos homens. Por que será? Mães machistas? Mães intimidadas ou deslumbradas com seus filhos? Vaidade para mim é pecado mortal, sem essa de capital, carece de correção e não de compreensão e até louvor. Particularmente no sexo masculino. Vem disfarçada de pecado venial, mas é veneno, explosivo, passar muito, muito longe! Vaidade em excesso prioriza lixo, o que é substancial e verdadeiro vai para o fim da fila nas escolhas de um vaidoso. De novo, deixemos o que é negativo, é pra frente que se anda, buscar soluções para uma vida saudável e verdadeira é o que se deseja.

O Xis da questão é: sexo e casamento. Sexo e casamentos longos, e no meu tempo o desejo não passava tão rápido quando parece passar agora. Havia mais persistência e porque não dizer, imaginação! De novo vem aí o problema de criação, pessoas criadas cheias de vontades, mãos passadas na cabeça para não traumatizar, foram ficando mais fraquinhas - é preciso esquecer um pouquinho Freud, sem trauma não se cria!
O verbo encerrar é abrangente e antagônico, o sentido da frase do título pode tanto ser o de guardar, guardar com zelo e carinho, quanto o de terminar.
Terminar é triste, mas pode ser muito saudável e até estimulante quando passa a inevitável tristeza por quase tudo que se encerra. Mas existem muitas maneiras de se fazer uma só coisa, e aí lembro de novo o caráter e o sentimento, o afeto que se é capaz de ter, e de cultivar.
Pode haver afeto, sinceridade e decência até numa situação do que convencionalmente se chama de traição. É humano e frequente se enganar, e com isso, ferir os outros involuntariamente. A atitude aí, para não falar novamente em caráter, varia da coragem de cada um. Despreparo é sim, problema de criação. Segurar uma barra sozinho, sem se escorar no outro, ou até pior, culpar o outro quando se engana, ou quando escolhe dar um passo individual e como não dizer, egoísta, demanda coragem e caráter, sim, artigos que estão se tornando mais raros e voláteis até do que casamentos longos.
Em nome de quê se limita ou norteia o desejo hoje, sem o freio das religiões, que tinham muito mais peso no passado, sem o exercício de poder de quem é o mantenedor, antes das mulheres conseguirem um pouco mais de igualdade no campo profissional, sem o medo do inferno?
Numa sociedade organizada, cada um tem sua função, distribuição justa é a que é ajustada entre as partes.
Bom, o que não tem remédio pede uma solução caseira e individual... a gente fica com a que melhor se ajusta. Uma terapeuta me disse para dar notas à importância que cada coisa tem na vida, e seguir as prioridades. Não se pode, repito para mim e para quem quiser ouvir, ter tudo. Se a gente quer tudo, acaba às vezes perdendo o que não escolheria.

Na falta de solução, a gente recorre aos artistas. Gil afirma que o verdadeiro amor é vão, e eu acredito nele. Chico orienta a enviar os amores não amados para a posta restante. Não é o que se deseja, mas como talento e beleza abastecem o coração... mesmo assim, eu diria: acredite na arte, mas nem sempre nos artistas. O ser humano também pode ser muito vão.
Relações humanas não têm bula ou solução, mas têm uma estrela guia: afeto. Procure, cultive e respeite o afeto! E conjugue o verbo encerrar da maneira mais sublime: carregue no peito todo o afeto que conseguir. E fuja, passe a léguas de distância de quem pode até pensar que tem algum, mas não tem o suficiente para suprir um ser humano decente.

sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

Desacertos da língua portuguesa


Experimente procurar o significado de cachorrada - a descrição mais leve que vai encontrar é "ato ou atitude de mau gosto de uma pessoa para com outra". É daí pra baixo. Canalhice, indignidade, ato vil. E uma das maiores injustiças dessa língua. Só quem conhece cachorros entende a expressão "fidelidade canina". Tem ser mais fiel do que um cachorro? Mais amigo? sempre pronto para um agrado, incapaz de uma deslealdade.

Palhaçada, outro caso: um termo que já foi muito mais usado em tempos idos, mas me foi lembrado recentemente e tenho o impulso de usar muitas vezes, mas logo me corrijo, palhaços de verdade merecem respeito e admiração, fazem rir e não chorar, não nos atrapalham como os palhaços amadores.
A história desse país é uma história de desrespeito com a terrra, as gentes, e com a língua não pode ser diferente.
Grande parte das mães que educam os peitos varonis por aqui, por exemplo, já deveriam há muito ter sofrido um recall, levando junto seus rebentos.

A era da comunicação, com toda a contribuição do universo virtual, parece ter desagregado o valor das palavras, das letras, da língua, justo a base de toda a comunicação entre seres humanos.

Entrei na vida como burguesa, virei uma espécie de operária, e quando me aposentei aí mesmo é que comecei a trabalhar como gente grande. Seria feliz se terminasse meus dias como escrava das letras. Tenho muitas saudades do tempo em que podia ser mais assídua nesse blog, saudades mesmo de um teclado. A vida faz da gente gato e sapato. Gatos, não defendo, porque não conheço, e não consigo esconder meu desconforto com seres muito bonitos. Beleza física costuma produzir em cabeças sem muito cérebro, muita vaidade e pouco esforço mental. Que me perdoem as exceções da regra, que certamente hão de existir, mas essa combinação não costuma dar em nada que preste - que me perdoem os gatos e seus ferrenhos defensores.

Voltando à vaca fria - outra expressão animal e dela desconheço totalmente a origem, só sei o significado - língua não é coisa para amadores, nem para estrangeiros, que dificilmente destrincham totalmente uma língua que não é a sua apenas com estudo e sem vivência.

Viver também não é coisa para amadores. Amadores fazem muita besteira. Escrevem sem pensar, escrevem sem ler, só percebem o que fizeram depois do leite derramado.

Mas voltando novamente à vaca fria, trabalharia de sol à sol se tivesse apenas que lidar com a língua. Escrever é registrar o pensamento - quem escreve bem, geralmente pensa bem, principalmente quando relê, reescreve, repensa.

Com a vida meio de cabeça para baixo, pensar na língua ajuda a por as idéias em ordem, mesmo que seja para desorganizar tudo em seguida: a portuguesa não é a mais rica nem a mais sintética, nem a mais moderna. É a nossa, e gostaria de conhecer outras com a mesma intimidade. Ler em outras línguas aguça o sentido para a nossa, pela descoberta das semelhanças, as raízes comuns, além de nos defender das más traduções. Nunca esqueci a primeira vez em que pisei num país sem ter nenhuma pista do que falavam. Mesmo conseguindo, com a ajuda de línguas mais universais, me comunicar, não compreender o que te dizem produz uma sensação muito estranha, principalmente sendo mulher, e num país árabe. Estranha não quer dizer ruim, muitas vezes é o contrário - há descompromisso e uma certa liberdade quando as coisas do mundo fogem do nosso controle. Um dia ainda espero perder até o controle remoto da televisão.

Havia um tempo em que mandava cartões de Natal. Depois, passei a responder aos que recebia. Hoje, quase não recebo, e não respondo. O mundo virtual ficou rápido, ligeiro e menos pessoal, e sem dúvida a língua é uma das vítimas disso. Mas ficam aqui os votos de Feliz Natal a quem por aqui passar.

segunda-feira, 1 de setembro de 2014

Além do jardim


O Brasil é o país do futebol, e isso fica mais claro no período de eleições, quando as torcidas ficam ainda mais cegas, as pessoas ficam menos transigentes e muito, muito mais passionais. Sentido não faz, mas alguém discorda? Não tenho ligação nem sou filiada a partido nenhum. Gosto também de mudar de ideia, mas para a presidência votei sempre no PT, e não acho que tenha perdido meus votos, mesmo considerando os desacertos. É também a escolha de quem procura ficha limpa, e compreende que não é o regime que não é democrático, é o país, e isso não se muda em uma década. Esperava que fizessem mais? Esperava. Mesmo assim, o PT transformou esse país. E se o que se procura é realmente um pouco mais de justiça social, o Brasil já foi muitíssimo pior, num passado muito recente para estar sendo esquecido. Permitindo que o povo tivesse visibilidade, passasse a existir, fez mais pela saúde do povo do que se tivesse coalhado esse país de hospitais e postos de saúde.

Não tive nenhum lucro direto com governo nenhum, e muito menos com esse, aliás pelo contrário, posso dizer com certeza. O preconceito é bruto do lado de cá do túnel, é um partido estigmatizado, amigos se afastam, você deixa de ser "um deles". Mas não sou cega, e procuro ser justa, o país todo lucrou, aliás, quem mais lucrou é quem faz a campanha mais cerrada contra o PT. Vai entender.

Se já compartilhei na minha diminuta rede postagens sobre a Marina é porque acho que pode interessar até a quem pensa em votar nela, mas pode querer, como eu, mais informações sobre a nova Marina, porque ela está mesmo muito mudada. Aliás, ela muda muito, ninguém pode negar, e isso sim pode ser de assustar numa candidata. Chega falando em escolhas e se anuncia como nova, mas nova como, se escolheu se cercar do que a gente já conhece de outros tristes carnavais, estão aqui há quinhentos anos e não nos servem. A quem servem? Mas papel, teclado e microfone aceitam tudo.

Todo mundo sabe ou deveria saber que sem o apoio do Congresso ninguém aprova nada, não consegue governar, e eu me contento com o que é possível, e para conseguir algum a renovação, não basta querer, alianças tenebrosas são inevitáveis, e às vezes nem assim, não se consegue e pronto. É impossível agradar a todos, e acertar sempre. Não acho que ninguém esteja parado, mas aqui se mistura muito os poderes dos três poderes, e a culpa acaba sendo sempre toda da presidência. É, no entanto, situação completamente diferente quando o seu núcleo mais próximo é formado por gente que mete medo pelo que fez no passado e até pelo que anuncia agora, mas ah, a gente torce, e acredita, e se ilude mesmo, tipo me engana que eu gosto.

Ideologia, essa não muda. E falta de generosidade também é coisa nossa. Como assim, todo mundo pode ter acesso ao que a gente já nasceu tendo?? O mundo não comporta, mas comporta desigualdade.

Odeio baixaria, detesto ver ofensas irresponsáveis e gratuitas, mas mesmo sem querer passamos a última década sendo martelados por muita informação desse tipo, e evidentemente isso eu não compartilho. Ninguém precisa ler o que não quer, mas a verdade é que o Brasil, além de passar por uma revolução, não foi para o buraco, como já tinha ido antes mais de uma vez. E olha que o mundo sacudiu pra valer. Ninguém teria feito melhor.

Pode ser que prefiram agora mudar, ver para crer, mas ainda não acredito, porque nesse momento, e pelo que já constatamos em eleições passadas, as pesquisas também têm suas torcidas. Depois se ajeitam, embora muitas vezes tenham sido completamente desmoralizadas pelas urnas. Mas falta de memória também está nos nossos atributos mais recorrentes. Quem viver verá.

domingo, 10 de agosto de 2014

Retrato em 3X4, ou em 8.511 km


Vivi um tempo em que muitas pessoas iam presas e muitas vezes não voltavam. Algumas nem chegavam a ser presas, e morriam também. Simplesmente desapareciam. Tive desde muito cedo total conhecimento disso. Adolescente, presenciei várias prisões. Acordei um dia com um homem de metralhadora na mão no quarto onde eu dormia. Não era a mim que procuravam, mas sempre levavam quem queriam. Metade da minha turma de faculdade foi presa. Alguns colegas de colégio também, e pelo menos dois nunca voltaram, e isso apenas no meu pequeno círculo de amizades. Nunca esqueci um olho, numa fresta de porta, se despedindo de um irmão - ele tinha me levado junto, nunca mais viu essa irmã. Um horror que me volta de vez em quando, e quando vejo falarem em ditadura se referindo aos tempos de hoje, me vem aquela frase da Bíblia: Pai, perdoa-lhes, eles não sabem o que fazem. São novos, ou eram inocentes então, ou já estão desmemoriados, não sei. Naquele tempo, nada disso saía no jornal, ninguém virava musa de coisa nenhuma, ou exposta, ou perseguida, o que seja. Simplesmente não se sabia das pessoas que sumiam. Lembro também de um Gip-gip do Ivan Lessa, no Pasquim: "a cada 15 anos o brasileiro esquece o que aconteceu nos últimos 15 anos." O período varia, mas é uma verdade.

Não é questão de nos conformarmos com o que não é de se conformar só porque já foi muito, muito pior, mas quem conhece duas realidades tem a honesta obrigação de enxergar as diferenças e não aceitar comparações disparatadas, mesmo que metafóricas. Metáfora, assim como ironia, não imprime, uma das minhas primeiras lições de jornalismo.

Minha mãe teve muitos filhos, mas arranjava tempo para trabalhar com umas freirinhas heroicas, suas antigas professoras, que visitavam presos, que muitas vezes, não tinham recebido nem comida naquele dia. Ela não falava muito, não sobrava tempo, e fui conhecer claustrofobia muito depois, mas os horrores das prisões já me abalavam muito cedo. Morei na roça, e nunca quis ter um passarinho preso, nem um cachorro fechado dentro de casa. Fiz ali uma reserva de liberdade, andando sozinha pela mata ao longo da linha do trem, catando framboesas, ou de bicicleta pelas estradinhas, às vezes na garupa do meu irmão mais velho.

O mundo está explodindo em vários lugares, guerras se perpetuam, e um dia parece que vai mesmo explodir a Terra inteira. Tenho filha, vou ter neta, espero que elas não vejam isso. Mas como o mundo é muito complexo para mim, e desisti de carregá-lo nos ombros, faço minhas escolhas. Sou pela lei, e por conta do que expus acima, não conheço regime melhor que o democrático, mesmo que muito imperfeito, mesmo que do lado de baixo do Equador. A ditadura, que já tiveram a vilania de classificar como branda, foi muito, muito ruim para o país e para muita gente. Mas muita gente também nem tomava conhecimento dela quando as piores coisas aconteciam. Alguns nem acreditavam que tortura existisse, ouvi isso na minha própria família.

Fui obrigada, como disse, desde muito cedo, a ter os pés no chão. Ganhar no grito, querer virar a mesa, para mim, é querer ditadura. Faço minha pequena parte, voto com consciência, não acho graça em voto útil, mas acho que votar com inteligência é melhor do que votar com ilusão. Taí uma coisa que a vida que levei me impede de ter nessa hora: ilusão. No entanto, vou morrer tendo esperança de ver as coisas melhorarem, porque tenho visto. Não é muito fácil, não está nas manchetes, dá trabalho, parece muito pouco, mas faz diferença, e dá para se informar razoavelmente quando a gente quer e procura. E escolher o que nos agride menos.

Muita, mas muita coisa mudou. E estamos carecas de saber que esse país não é biscoito, não é preciso ter um engenho para ir até a morte só para não repartir a rapadura. Aqui se mata, e muito, e por muito pouco. Existem alianças necessárias para governar, mesmo tendo que tampar o nariz para ir em frente. E existem candidatos (as) que se pintam como melhores, mesmo sem ser, mesmo sem ter a menor chance, e acabam atrapalhando, só atrapalhando, em benefício apenas de sua própria notoriedade, quem sabe para um outro cargo menos exigente na próxima eleição. É comum isso acontecer, mas quanto mais atrapalham, mais alianças forçam, e o governo acaba resultando pior, quem não viu isso? Ameaçar uma virada de mesa pode ser contundente e estimulante, mas nesse departamento eu não consigo ser romântica.

Não gosto de privilégios, e num mundo tão desigual, fiz minhas escolhas: em primeiro lugar, quero que todo mundo coma. Não passei fome, mas como não consigo nem dormir com fome, deve ser horrível não ter nem a perspectiva de ter o que comer. É preferível que não se transforme o país em terra arrasada para produzir alimentos para todos, e através do lucro de poucos, mas quem tem fome tem pressa, será possível matar meia dúzia de dragões que por aqui habitam desde sempre, desengatilhar trocentas armadilhas e continuar vivo? Alguém falava ou fazia alguma coisa em prol da agricultura familiar há quinze anos? Disso eu não lembro, porque não acontecia. Lembro de apagões, privatizações, muitas, compra de eleições, racionamentos, e o que era ainda pior, muita, muita insegurança e desesperança. E desrespeito, vindo de quem deveria respeitar o povo, e por uma atitude injustificada e estúpida de superioridade fora de lugar, não apenas por ignorância.

Não temos por aqui avós incansáveis, temos e tivemos desde sempre a prática odiosa da tortura por esse imenso Portugal, de povo tido como bonzinho, e elas ainda foram aprimoradas na nossa época mais negra, quem não sabe? Gostamos de ser franceses, mas somos mesmo casca grossa, não prestamos, de perto ninguém por aqui é mesmo normal, melhor desfocar um pouco o olhar, ou olhar de bem longe, quem sabe do lado de lá do Atlântico. Guimarães Rosa diz que a vida quer de nós coragem, concordo, mas acho que ainda exige uma grande dose de sagrada e verdadeira paciência, sem ironia, paciência mesmo, para com essa nossa longa noite de amadores.

quinta-feira, 17 de outubro de 2013

Biografar ou não biografar


Parece que o Chico Buarque errou. Esqueceu que foi entrevistado em 1992, quem sabe até não exclusivamente sobre Roberto Carlos, parece que foi uma longa entrevista, deve ter falado de muita coisa. Deve ter dado muitas entrevistas nessas duas décadas, mesmo sendo um dos artistas menos oferecidos que se conhece. Tudo bem, meus olhos devem ser benevolentes e ele não deveria ter desmentido o entrevistador sem ter certeza. Tomara que se retrate, mas eu, que sou mais nova que ele, já estou meio esquecida, portanto mesmo não achando certo, compreendo. Sei que ele acertou tanto, mas tanto na vida, que eu não faria desse episódio um cavalo de batalha. Artistas verdadeiros são seres esquisitos, costumam pecar por excesso de humanidade - errar não é humano? - melhor seria manter muito mais proximidade com suas artes do que com suas vidas, talvez por isso suas biografias sejam tão temidas por eles próprios e suas famílias. Eles se conhecem. Sabem das suas glórias, do talento que os faz particulares e de suas fraquezas, iguais às dos que não vivem sob um facho de luz. E conhecem, também, a mediocridade alheia. Acabei semana passada de ler 1808, não deixa de ser uma biografia de D.João VI e sua turma, e comecei a ler uma biografia de Nat King Cole que tenho guardada há tempos, e tenho uma do Cole Porter na fila. Gosto de história, e de biografias. Pelé, que é o Pelé, foi execrado por uma frase em uma entrevista. Tomara que esse assunto seja bem resolvido, mas sugiro deixar os artistas em paz, e continuar enriquecendo a vida com suas artes. E olha que já tive vontade de quebrar os CDs do Caetano, e não foi agora. Não quebrei, e não quebrarei.

Não defenderia censura. Também não pretendo concordar em nada com a Paula Lavigne, mas a próxima crítica que me aparecer contra o Chico, vai me fazer desistir de desejar biografias de quem não quer ser biografado. E de pensar sobre o desejo e o direito de guardar para si a própria vida. Até que ponto o interesse de alguns, mesmo que muitos, pode agredir quem quer preservar sua privacidade? Não quero saber da vida do Chico. E quero continuar admirando ele. E diante da enxurrada de críticas, e até de gente que acordou só agora para defender liberdades, quando ele já brigava por elas, não consigo deixar de lembrar, com tristeza, do Tom Jobim dizendo que fazer sucesso no Brasil é pecado mortal.

sábado, 14 de setembro de 2013

Reino Vegetal

Cuido de um jardim, insuspeito jardim para quem passa a apenas vinte centímetros dele, do outro lado do muro que beira a calçada que o separa da rua. O que faz pensar que é possível não saber o que se passa mesmo muito próximo, a um palmo da gente.
Num pequeno jardim - que pode ser muito alto para quem vem de baixo, ou muito baixo para quem vem de cima - orquídeas convivem com furtivas lagartixas, que dizem ter sangue frio, mas felizmente não morreram com o veneno das baratas, que não eram bem vindas, embora ali não causassem asco, já que naquele ambiente não eram de todo estranhas. Uma pequena quantidade de veneno foi necessária para manter esse pequeno quadrado harmonioso, e ele só mata animais de sangue frio, menos mal, mas isso foi motivo de grande preocupação pois poderei admitir ali a visita de um animal grande e peludo, mesmo depois de passar a vida a ignorar cachorros. O que me leva a registrar que é possível adquirir gosto e hábitos totalmente inexistentes, ou camuflados por décadas.

Além do veneno, sou aqui a única distribuidora de regas e adubos, adulando especialmente a pitangueira e o limoeiro, mas sobrando para as íris, as trialis, samambaias e avencas que brotam nas pedras, trevos e pelos- de-urso, a violeta, gerânios, aspargus e a romã. Plantada num vasinho ao pé da escada tem uma perfeita árvore-da-felicidade, mesmo que a gente saiba perfeitamente que felicidade não dá em árvore, assim como amor-perfeito, nem sempre se consegue no jardim. Reino nesse reino? Claro que não! As palmeiras são altas e continuam crescendo voltadas para o céu, indiferentes a qualquer tentativa de transferência ou redução de seu espaço, desconhecendo o que está mais embaixo. Estão ali para todo o sempre, com suas raízes imperativas. As lágrimas-de-cristo também vão para onde querem. Aceitam alguma condução, mas simplesmente secam quando a direção que se escolhe para elas não as satisfaz.

Tendo sido batizada com o mesmo nome de uma família de orquídeas, achei que poderia ter um dia um jardim totalmente florido. Pois sim. O reino vegetal é comandado pelo astro rei, o sol. É para ele que as flores fazem graça, ignorando os desejos e a mão de quem as cultiva.
Uma mangueira é uma árvore admirável, inspiração verde e rosa para tanta beleza criada em seu nome, mas frondosa, faz sombra no jardinzinho ao lado. No entanto, o cuidado com o jardim inspirou um trato na espaçosa vizinha, que, agora cuidada, voltou a produzir mangas, e recentemente podada, permite agora a passagem de generosos raios de sol matinal.
Um ato, um gesto, um feito qualquer pode mudar totalmente o clima e o rumo de um espaço, e até de muita gente, ao mesmo tempo em que pode também ser totalmente ignorado por uma multidão, porque o mundo é vasto e complexo, varia conforme o de ponto de vista. Distâncias foram sendo diminuídas a cada dia por balão, avião, satélite, fibra ótica, mas quanto mais coisa aparece no mundo, mais desconhecimento se cria. Pois hoje mesmo ouvi na feira que “a vida é fácil, o ser humano é que comprica”. Pura verdade, mas se nem as plantas seguem um manual, e se a gente não sabe o que se passa na terra um palmo debaixo delas, se um caramujinho pequeno pode fazer um grande estrago, como saber dirigir, agir, escolher, decidir, administrar, decifrar coisas tão complexas como um cérebro ou um coração? Quem manda é o sol, a rega, a razão, o caminho que se abre ou se fecha, porque dependendo da hora em que a gente olha, pode estar meio sombreado, pode ter passado a entrada e a gente não vê.
Explicação sempre existe para tudo nesse mundo, já certeza nunca se tem completamente. Como é que aparecem folhas de amendoeira no chão do jardim secreto, se a amendoeira fica lá na outra esquina? Pergunte ao vento. Saber? Quem sabe a lua sabe, ela está sempre lá no lugar dela, mesmo quando a gente não vê. Mas se quem sabe não conta, a gente segue na mesma, e hoje, anotado na agenda, só tenho o nascimento da primeira flor do limoeiro.

sábado, 16 de março de 2013

Deitando na rede




Tem coisa melhor do que rede?
Nossa língua tem beleza como todas as outras, mas não tão é rica assim, a toda hora a gente sente falta de mais uma palavra.
Penso na rede mais nova, net, web, internet, essa aqui onde tanta gente labuta por ofício, por lazer ou desejo de se congregar com o mundo, com os seus pares.
Não se pode chamar essa rede de novidade, ela já nem mais engatinha, mas é ainda jovem, muito jovem, tanto que recebe gente nova todo dia.
Em outro tempo, a gente dizia, se referindo ao jornalismo impresso, que papel aceita tudo. Era uma sábia advertência para que os leitores mantivessem uma certa distância do que estavam lendo, mas mesmo assim até hoje se cai na armadilha sempre armada, vem com cara de verdade o que se vê impresso. Até quando sabe que quem imprime não é de confiança, e a gente identifica claramente muitas imprecisões ou distorções, mesmo assim tende a acreditar na página seguinte quando lê sobre o que não conhece, especialmente se o que lê vai de encontro ao que se quer acreditar, porque a gente pode ler noventa e nove opiniões contrárias mas tende a ficar com a única que nos interessa.
A rede é ainda mais democrática do que um jornal, aceita tudo mesmo, já que é muito mais aberta do que uma redação, não precisa de um emprego nem de um diploma, basta ter um teclado à mão, não é preciso nem ter um computador, coisa que muito mais gente já tem, mas basta ter uns trocados e entrar numa lan house, num cyber café. Deveria haver sempre um dicionário à mão de quem tecla, doeria menos ler o que a gente lê nessa rede, mas nada é perfeito, nem democracia.
Democracia é bom demais, mas como tudo, tem suas regras, ou anarquismo teria dado mais certo. A rede, democrática, também tem as suas, a gente vai aprendendo. Delícia das delícias escrever sem editor, escrever o que se quer. Mas seria sábio também lembrar e adaptar aqui um velho ditado: quem escreve o que quer, lê também o que não quer.
A rede é também rápida, quase instantânea, mas da mesma forma que televisão carrega cor e som mas não tem cheiro, a rapidez da rede nos leva a ser sucintos, cada vez mais, tudo curtinho e rápido, pouco ou nenhum tempo se gasta para pensar antes de escrever ou clicar. Além disso, cada cabeça uma sentença, o que se escreve não é igual ao que se lê, mesmo se tratando da mesmíssima coisa. Existe aí um hiato, e como não se pode ler pensamentos, adivinhar sentimentos, uma frase digitada também não traz junto o jeito, o sorriso, o calor com que é dita ao vivo, em carne e osso. Interpretações podem ser desastrosas.
O sucesso da rede pode ser inversamente proporcional ao fracasso fora do mundo virtual. Quem se expõe sabe: está exposto a qualquer tipo de interpretação, mesmo que escreva direitinho, tim-tim por tim-tim, quem lê pode não estar no mesmo espírito, não ter a mesma formação, a mesma intenção, a mesma cabeça, que o ser humano é complexo!
Blogueiros experientes sabem disso. Muitos não permitem comentários, da mesma maneira que muitos leitores preferem comentar ao vivo, não se sentem à vontade para se expor por escrito. A rede tem suas armadilhas, que podem ser implacáveis. A privacidade e a solidão do teclado muitas vezes induz a uma sinceridade muitas vezes inconveniente, e que pode custar muito caro. Liberdade de expressão são palavras ao vento, liberdade é coisa cara demais para ficar dando sopa por aqui. Tudo tem preço. Um pouco mais de sinceridade pode custar seu emprego, por exemplo, porque mesmo que o seu chefe não leia, pode ter certeza que sempre haverá um colega interessado em contar, geralmente interessado no seu lugar, ou apenas em agradar. Cuidado nunca é demais, melhor ter do que perceber tarde demais.
Blogueiros experientes também conhecem o que talvez seja o primeiro mandamento de quem escreve ou clica – e clicar o que nos chega é muito mais fácil do que alinhavar, concretizar e compartilhar um pensamento: estou falando de humildade, e da disposição de exercer plenamente o que muito poucos assumiriam ser contra, mas nem todos entendem ou aceitam, que é respeitar democraticamente, o pensamento do outro. Falar é muito, muito mais fácil que ouvir. E muito mais arriscado também. Não dá para ser autoritário, não dá para se levar demais a sério, ser dono da verdade, ingorar o sentimento alheio. É claro que existe sempre a opção de escolher o que se lê, de não ouvir, mas é preciso ser mesmo aventureiro para militar nessa rede, a trançadinha de algodão é muito mais confortável do que ficar aqui ao relento, no sereno!

sábado, 16 de fevereiro de 2013

Pragas



Não conheci meu bisavô materno, mas sei que costumava dizer: “as pessoas se dividem entre burros de carga e carga de burros”. Outro dia vi um quadrinho assim: “quem não trabalha, dá trabalho”, e foi o que me remeteu à lembrança da frase dele. Acho que a humanidade foi ficando mais diversificada, mas li outro dia na rede: “não adianta ensinar a quem está determinado a não aprender”. Ah, as vontades...e as frases anônimas que registramos, algumas mais reflexivas, algumas bem simples, mesmo assim cheias de sabedoria, porque a sabedoria popular pode até ser simplória muitas vezes, mas vem da realidade, da vida, e não de atitude, por isso encontra eco e explica muita coisa que nos intriga.
Por vários anos, escrevi muito por aqui. Faz tempo que não escrevo quase. As ideias até vêm, mas a memória deixa ir... Para se comunicar é preciso ter vontade, ou ter isso como ofício e obrigação, e em ambos os casos, seria ideal haver sempre alguma serventia no que se quer dizer.
Trabalhei tanto tempo com televisão que não posso deixar de analisar o meio em que vivi, e de que vivi, e - sem deixar de considerar as honrosas exceções de praxe - vejo o veículo justamente como o túmulo da comunicação, porque a televisão está mais para autoritária do que para interativa, por mais que se anuncie assim, mas muito pelo contrário, faz as pessoas passivas, e mais grave, hipnotisa e aprisiona os telespectadores, sem deixar tempo para praticarem o saudável exercício de pensar, ao contrário da leitura. É um veículo que só redime sua existência quando presta informação necessária e de qualidade, mesmo assim deveria ficar um tempo em silêncio para nos deixar refletir...mas longe de mim querer voltar à comunicação com tambores, desinventando o que consideram ser mais sensacional que a roda, ou ficar aqui sugerindo o impossível, e até risível, de tão ingênuo...melhor deixar para quem quiser a análise desse veículo, não é no que penso nesse exato momento. Na verdade, sempre que ligo o seu botão, o pensamento viaja em outra direção, e acabo desligando. A última vez que fiz isso, uma astróloga falava de signos, e mesmo não sabendo bem o que há de ciência nisso, adoro acreditar nos astros, e ao ouvir que a marca dos aquarianos é o apreço pela liberdade, e sua necessidade de espaço, inclusive físico, e apesar de sociável, tem um espaço seu quase intransponível, sei que ela poderia estar falando de metade da humanidade, mas achei que era comigo mesmo, fiquei satisfeita e desliguei.
Já a internet é bem interativa, e fica ainda mais evidente por aqui a importância da educação e de uma escolaridade básica.
Fui cuidar do meu micro-jardim. Ali, observo que qualquer bichinho que fica parado, vem um predador e acaba com ele. Mas o que fazem as minhocas, e aqui tem muitas, que não acabam com as lesmas? Bom, elas cuidam da terra, e a terra é muito mais importante, é básica e fundamental para as flores, os frutos, tudo que as lesmas estragam um pouco mas felizmente não conseguem exterminar. Insetos e invertebrados sempre existiram, e se não fazem parte da cadeia alimentar, estão entre as sete pragas do Egito, que eu acho que devem estar mais para dezessete, ou setenta, não importa, assim caminha a humanidade, viver é se mover, e nos seres racionais, caminhar para frente, se aprimorar, evoluir. Se não, vira praga!