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sábado, 5 de fevereiro de 2011

Crônica da casa assassinada









A menina de um aninho ficava na janela, encantada com o cachorro no jardim da casa, um pastor chamado Lobo. Com passar dos anos, o Lobo morreu, e foi substituído pelo grandalhão e muito peludo Aikito, que também teve o seu tempo, e a casa e seus donos viram os filhos saírem, os netos chegarem, as visitas, os aniversários, as correrias. A senhora viu a morte da amiga – sozinha e já centenária, da casa vizinha, viu também a morte do marido, mas foi dali retirada antes, não pelos seus próprios passos, já em uma cadeira de rodas, e não verá o fim da casa e das plantas de que cuidava com carinho, nem o fim das suas adoradas árvores. Um oiti, um ipê, um jasmim-do-cabo, com sorte alguma sobrará para lembrar a casa que havia ali. Os herdeiros têm metas e têm pressa, duas casas somadas resultam em um prédio e uma herança maior, uma sozinha é apenas uma casa, testemunha de um tempo que não cabe mais na cidade. E por acaso a casa, que agora desmorona, não foi testemunha da derrubada das outras, que deram lugar a prédios como o que um dia abrigou uma menina na janela?
Agora, resta o pó. E não é ao pó que retornaremos?
Antes disso, a perspectiva de novos e mais barulhentos vizinhos, já que mais numerosos, mais carros rolarão pela rua de paralelepípedos que um dia foi só de casas, e que desembocava numa lagoa, passando por uma fonte.
Saudade.

Saudade, essa palavra que tanto envaidece a língua portugesa, não é, no entanto, a minha preferida. Outras línguas dispensaram o seu peso, e se fosse eu a dona da língua, preferiria substituí-la, e ao peso que ela carrega, pela vida, pelo curso da vida.

(O título Crônica da Casa Assassinada, é de um livro do escritor mineiro Lúcio Cardoso, publicado em 1973).

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

Casa – vide bula


A geografia já restringe a cidade, espremida entre o mar e a montanha. Aliada à cultura de que todo mundo tem que estar sempre por cima da carne seca, isto é, perto ou não muito longe da praia, a cidade fica ainda mais restrita. Se você não gosta de túnel, e tudo o que pretende atravessar é o Túnel Velho ou o Túnel Novo, fica bem complexa a tarefa de achar um apartamento no Rio.
Primeiro mandamento: cuidado com o corretor! Pela lógica, em qualquer negociação, procura-se o profissional do ramo. Não aqui, com o perdão das bem vindas exceções de praxe, mas elas são raras mesmo. A maioria é mero atravessador e em terra de pouca formação e honestidade duvidosa, prepare-se para ser assediado com ofertas disparatadas do que você nem sonhou em solicitar. Você esclarece bem, fala português claro, mas no dia seguinte te oferecem a mesma coisa que você recusou na véspera, no mesmo bairro que você não quer, e explicam: “é que esse baixou de preço!” Sem chance de entenderem que o que você NÃO quer não interessa se é barato ou caro... e que esse argumento só serve para você desconfiar e fugir, já que nada cai de preço, há muito tempo, nessa cidade, onde olimpíada, copa do mundo, aumento do teto do fundo de garantia, economia aquecida, novela (já que existem, que fiquem para sempre no Leblon!), tudo junto virou uma espécie de sputnik inflacionário para elevar o preço dos imóveis cariocas às alturas. Isso, com o auxílio indispensável – no mal sentido - dos corretores de imóveis. Parece que todos assistiram a uma só aula, porque todos repetem “o mercado está louco, mas estão vendendo feito água”.
Tudo isso acabou atraindo duas categorias para o ramo: advogados e porteiros. Alguns escritórios de advocacia abraçaram o ramo da corretagem. Seria de se esperar que pelo menos a situação legal dos imóveis estivesse assim garantida, mas o que muda é apenas o jargão, os problemas continuam os mesmos, papéis na maior desordem, você espera e perde dinheiro do mesmo jeito.
Porteiros costumam ter as informações em primeira mão, e no final ficam felizes só com uma gratificação. Estão enfrentando a revolta dos corretores, que em vez de ir para os jornais reclamar da concorrência, deveriam é brigar para melhorar o nível da categoria e prestar melhor serviço, porque os melhores apartamentos geralmente não chegam através deles.
A música popular, que para mim é voz de Deus, diz que ninguém tem nada de bom sem sofrer. Aqui, cai como uma luva. Se você é exigente, vai penar. Nessa longa estrada, minha preferência fica com os porteiros. Certeza de achar o que quer, nunca se tem mesmo na vida, mas encontrei gente da melhor qualidade, informação de sobra e até sabedoria. E diversão garantida. Começam assim: “eu sou só um simples porteiro, mas se eu fosse comprar, perguntaria...” e com dois dedos de prosa vão desfiando os podres do prédio. E não enrolam: “madame, aqui, pode desistir, esse prédio é todo de um político, aquele é de um delegado, e não vendem não, vai passando de uma geração para outra, tudo usos e frutos, sabe como é?”
Nesses dias de calor, vendo uma barata sair do jardim em direção à candidata ao imóvel anunciado no prédio, prestes a presenciar uma vexaminosa subida no sofá da portaria, o porteiro perguntou impassível: “é caso de matar?”
Pela reação dele, tinha visto a bichinha nascer, crescer...Achei o prédio meio mal cuidado e perguntei se ele trabalhava lá havia muito tempo. Ele pensou, perguntou: hoje é dezenove do mês?
Diante da resposta afirmativa, completou: “vinte e três anos”.
Acabam amenizando a procura.