terça-feira, 20 de outubro de 2009

Também é cultura











Paredes do subway, em NY. Muitas foram restauradas, conservando o desenho tradicional que identifica as estações. Outras ganharam cara nova, retratando cenas da cidade, os habitantes que circulam por ali, profissionais, passantes, suas artes, seus tipos mais comuns e frequentes estão ali representados. Nova York está no primeiro mundo, não é ascendente nem candidata a nada. A cidade pode ser dura, mas a cultura - talvez mais na teoria que na prática, mas é um bom princípio, e mesmo que para consumo interno, o que eu gostaria de ver por aqui - não é a da simulação ou exclusão. Pelo menos nas paredes do metrô, não finge que é chique.
E fica assim muito mais chique.

domingo, 4 de outubro de 2009

Pegadas

Andei lidando nas últimas semanas com uma modesta herança mais concreta que a genética, e igualmente trabalhosa, um pequeno apartamento onde passei um curto - mas cheio de lembranças - período na infância, transição entre a casa da minha avó paterna, no Posto Seis, e a mudança para Itaipava.
A casa de Copacabana, onde morei até os cinco anos, que ficava a duas quadras da praia do Arpoador, tinha dois andares, quintal, cachorros, papagaio e ainda galinhas que meu pai, embora médico, insistia em tentar criar. Para horror da vizinhança e de toda a família, posso imaginar.

Esse apartamento da Rua dos Oitis, na Gávea, fica num predinho onde um dia foi a casa da avó materna. Avó abençoada, deixou ali sua boa energia.
Em Itaipava, ganhei o presente de poder explorar o mundo numa pequena bicicleta, sem medo ou vigilância, mas a primeira lembrança eram os canteiros das casas simples da vizinhança, como era a nossa, cheios de plantas mituradas sem muita ordem. Além do gosto pela liberdade, vem daí o gosto pelas pitangueiras, árvore bonitinha que só.
Volto à Rua dos Oitis, e ao apartamento que é quase um karma. Fazia quinze anos que não entrava lá, precisava ser novamente alugado, não é só meu, mas a incumbência de cuidar dele é, há décadas, já que sou a única a morar por aqui.
Consertar o que se estragou é sempre mais difícil do que começar do novo, mas é preciso, e em vez de chorar as pitangas, entre pedreiros e bombeiros, a surpresa de encontrar pelo caminho um pouco da infância pela janela: uma nesga da antiga vista dos sinos da Igreja de Nossa Senhora da Conceição da Gávea, que eu lembrava de ver quando era pequena.

Sendo felicidade um luxo que nem sempre se pode ter, aprendi a sair atrás das sensações agradáveis. A caminhada pelo Jardim Botânico ali ao lado, a tapioca na feira de sexta-feira, bem em frente ao Braseiro da Gávea. A pracinha onde eu brinquei acabou sendo a mesma onde minha filha tomava os primeiros banhos de sol, depois de tantas mudanças, não por escolha mas por puro acaso.
A Rua das Acácias, na outra esquina, é cheia de oitis. Já a Rua dos Oitis, é cheia de acácias. E na rua ao lado... pitangueiras.
Um pote de mel comprado no mercado próximo trazia de brinde uma promessa: um vasinho de fibra de côco e duas sementes de... pitanga! Serão mais duas pitangueiras no jardim provisório da minha janela, à espera de uma varanda, ao lado de muitas pimenteiras zelando pelo sucesso dos sonhos. E pelas minhas contas, em seis anos já tenho um outro programa diferente para fazer: geléia de pitangas.

sábado, 3 de outubro de 2009

Degenerar


Li Leite Derramado, do Chico Buarque, num susto só, de ver que não existe ali nada que não me seja familiar, de entreouvir ou conhecer de perto mesmo.
Se alguma coisa ali soar falso, alguma tinta parecer carregada, deve ser menos por licença poética e mais porque quanto mais nobres se acham as famílias, menor a disposição de revelar seus intestinos, e a verdade acaba meio dissimulada. Quem lida com o poder costuma ficar mais à vontade para escolher a sua verdade, ou para não dar a mínima para ela.
O sentimento com a minha herança genética foi sempre uma mistura estranha de orgulho (justificado, em alguns casos), de tristeza, e de conflito, em proporções que não sei precisar.
Família é sempre família, a palavra já vem com sua dose de carinho, existem piores, existem melhores, certamente pior é não tê-la, e existe também até hoje a determinação de me libertar do que não me pertence por escolha, nesse legado sempre acidental.
Graças ao desvio de rota que meus pais tomaram, não seguindo o curso que podia se esperar que traçassem, parece que fui salva. Não confesso que vivi, sinto mais é que sobrevivi, mas não reclamo nem um pouco da conta. Sucesso e fracasso tem sempre facetas que oscilam entre o bem e o mal.
O descompasso com boa parte da família, provocado pelas diferenças que meus pais criaram, mais por atabalhoamento do que por escolha, mais por não saber lidar com o que no fundo não gostavam, do que propriamente por rebeldia, acabaram por me aguçar os sentidos para reconhecer onde existia menos pose e mais afeto.
Aceito bem a teoria de que “sem trauma não se cria”. E lembrando de Luiz XV, acho que depois do dilúvio é que há vida.

Andou há tempos circulando na internet, atribuído a Clarice Lispector, um texto que afirmava que a salvação é pelo risco. O texto não é dela, e a salvação não é pelo risco, a salvação é pelo trabalho, eu penso. Trabalho, talento e arte, isso sim merece tratamento nobre, e é o que melhora a raça.
Da mesma forma que acho que a função do mundo virtual é nos conectar melhor com o real, é o trabalho que dá ao lucro dimensões mais humanas, e dá sentido ao proveito e ao lazer.

domingo, 20 de setembro de 2009

Em movimento


Vinte anos atrás, os filmes dele eram aguardados e imperdíveis. Era assim no ano de 1978, que eu passei em Nova York, e lembro do quanto eu ri quando descobri que Annie Hall tinha se chamado no Brasil Noivo Neurótico, Noiva Nervosa. A moda muda, a vida muda, nem tudo resiste bem à repetição, mas eu não diria que seus filmes deixaram de me agradar, mesmo que não seja para mim um grande cineasta. Peguei no videoclube Vicky Cristina Barcelona, de Woody Allen, já que não tinham ainda Whatever Works, o que eu queria ver. Fazia tempo que não via um filme do diretor mais identificado com Nova York, pelo menos com o East Side da ilha de Manhattan... mas gostei desse Woody Allen versão Almodóvar - esse sim, certamente um dos meus diretores mais queridos, mais surpreendente, mais à flor da pele, mais colorido. Mais humano, menos burguês.
Passeando distraída pela Broadway com a Lulu, minha filha* e muito boa companheira de viagem, não apenas pela ligação afetiva mas pelos interesses comuns, sei que foi muito bom ver, atrás dos cones que protegiam a entrada de um prédio, o diretor que parece fazer parte da paisagem da cidade. Não dava para parar, a produção implorava para que as pessoas continuassem circulando normalmente, e eu sou sempre solidária com a produção, mas deu para tirar rápidas fotos.
Não vi o filme, mas pela data deviam estar filmando Igual a tudo na vida (Anything else). Tinha esquecido o fato, uma arrumação nas fotografias me lembrou, e checarei breve.
Ficou muito caro filmar em Nova York, por isso ele interrompeu com quatro filmes feitos fora da cidade o que na sua filmografia era uma tradição. Whatever Works marca sua volta a Nova York, embora seja uma novaiorque bem mais ao sul, situado em Chinatown.
Acho que foi numa entrevista na tv que ouvi uma crítica ao fato de não ter em seus filmes nenhum ator negro. Não sei se é verdade. Quando acontece, a pós-produção os transforma em uma caixa de correio, dizia a cáustica e irônica crítica.
Li uma declaração sua de que Obama será um grande presidente, que vai reverter o desastre Bush. As fotos estão aqui para provar o flagrante, mas essa é uma postagem sem muitas certezas, igual a quase tudo na vida.




* e estilista, da marca e do site
Luluca

Fim de tarde na Lagoa - fauna




quinta-feira, 17 de setembro de 2009

Alegria




Não cura tudo, eu sei, e sei que depressão é mais embaixo, mas quando não estou muito animada, saio à procura de um lugar bonito. Não preciso ir longe, no Rio é até covardia. Covardia também é o que os cariocas, meus conterrâneos, deixaram e deixam fazer com essa cidade, não lutando por ela e não encostando na parede cada prefeito ou governador que por aqui passam, dando sua contribuição para ela chegar ao ponto que chegou. Mesmo sabendo que foram eleitos, acho que o Rio não merece. Um dia melhora, com uma ajudinha mais de cima, está até melhorando. Passar uns dias numa cidade do primeiro mundo, como Nova York, onde as pessoas costumam se tratar com cortesia e educação, faz notar aos mais atentos como é antipática a gente da Zona Sul do Rio de Janeiro. Posso falar porque sou carioca, e de um modo geral não tenho muitas queixas, costumo receber alguma gentileza em troca de um gesto simpático, mas noto que somos uma gente muito defendida. Arrogante? Egoísta? Acuada? Não é para amenizar, mas já amenizando, digo que não é só no Rio, em cada grande cidade brasileira, em suas áreas mais ricas, acontece o mesmo.
Costumo, por gosto e necessidade, fazer uma visita familiar em Petrópolis regularmente. Outro dia resolvi tentar ir de metrô até perto da rodoviária e depois pegar um ônibus. Sou aventureira. Acho bom ir lendo na viagem, e pegar uma estrada mesmo sem o conforto do carro. Em dúvida sobre a estação mais próxima, me informei no metrô com a senhora sentada ao meu lado. Como ela me sugeriu uma alternativa melhor, por um caminho que eu não conhecia, insistiu em saltar comigo, fora do ponto dela, para melhor me orientar. Pura gentileza carioca, ainda dos velhos tempos. O Rio resiste. E a minha busca pela sintonia com o título ali no alto da página também.

domingo, 13 de setembro de 2009

Desmedidas

Marco Zero em NY oito anos depois dos ataques de 11 de setembro continua ferida aberta, dizem as notícias lembrando a data.


Eu estava em Tóquio em 2001, quando vi pela tv o que aconteceu. Estava em Nova York em 2002, quando a memória da tragédia estava ainda bem fresca.


Todo tipo de lembranças e homenagens penduradas expunham as dores pelo que se passou ali.


O equivalente ao nosso churrasquinho de gato é alimentado pela romaria diária.


Uma fila ordeira e sem trégua ao fundo, uma turista e o aviso para não atravessar.

Esse brusco e inesperado desequilíbrio de forças no mundo não foi a primeira tragédia registrada nessa data, quando surgiu até uma listas de acontecimentos sombrios envolvendo o número onze. O 11 de setembro no Chile de 1973 certamente não teve tanto espaço na mídia mundial, e muito menos na parte sul do continente americano, num período especialmente negro da América Latina. Mais de três décadas entre um fato e outro, e no entanto eles têm uma raiz comum.
Parece mentira, mas enquanto escrevo, uma festa corre solta no prédio ao lado, coisa comum nessa cidade, apesar de um cenográfico e pirotécnico “choque de ordem”, e a música que entra altíssima pela janela parece encomendada para esse texto – “Apesar de você, amanhã há de ser outro dia...” Não posso reclamar dessa vez, a música me lembrou o quanto caminhamos.
Os dramas, as dores e desacertos não podem ser medidos pelo espetáculo que produzem.
Pode ter um adolescente de coração partido na festa ao lado e o seu drama é mais punjente do que todas as desgraças do mundo, são medidas pessoais. Alargar as medidas, nem todo mundo que cresce consegue. Com mais idade, a gente não sofre menos, só acaba aprendendo alguma coisa sobre dimensionar, relativizar, anular, ajeitar, fingir, ignorar, sobreviver em vez de viver como um dia sonhou. Frustração e falta de sonhos tem a ver com muitos dos descompassos do mundo, mas a ambição e a insensibilidade que regem os caminhos tristes que a humanidade toma é o homem no seu estado mais tosco, primitivo no pior sentido. Mesmo transbordando de gente, e até por isso, as soluções são também pessoais e devem ser intransferíveis. Cada um que trate de cuidar da sua cota para fazer a humanidade caminhar de um jeito mais justo e alegre.

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

Esquerda


Está ali em cima o aviso, aqui é ao sabor do vento. Mesmo inconstante, vento tem direção. Temor não é da falta de rumo, mas falta de vento para soprar a vela, falta de vontades. Medo de perder o fio da meada, o fio de Ariadne que orienta no labirinto dessa vida, onde sei que sempre vivi com o coração na mão.
Linhas tortas, fatal atração, fácil a explicação: o inesperado tem mais graça que o esperado, o sonho é melhor que a realidade, cabeça no ar é muito melhor que pé no chão.
Vendaval pode trazer esperança de arrumar melhor o que está mal arrumado. O caos pode levar a um novo caminho, mas no olho do furacão é só o caos mesmo. Nada se move, vácuo, falta de ar.
Sentei tentando escrever sobre uma viagem. Meio perdida, pensando em como recomeçar, achei no bolso do casaco duas mensagens que me vieram dentro do biscoito chinês, junto com a conta do Ivy’s Cafe. É um bom chinês, pequeno e de vida ainda curta, mas já com história. Há apenas seis meses se estabeleceu no Upper West Side, expulso do East Village por um aluguel que subiu muito. Foi aberto por uma ex-bancária de Taiwan, que imigrou há 25 anos. O primeiro era ainda menor, mas acabou sendo escolhido pela comitiva do presidente da China, Jiang Zemin, para alimentar seu grupo de 130 pessoas por dez dias, hospedadas no Waldorf Astoria, hotel tradicional mas certamente sem tradição em comida chinesa. Tiveram que dormir pouco e praticamente morar no restaurante durante esse período em que serviram 3.900 refeições.
Ivy Lin é a proprietária, gerente e chef. Solteira, não teve e não tem vida fácil, mas tem seu restaurante e o orgulho de ter servido às três maiores autoridades chinesas.
O que os biscoitos me reservaram dessa vez foi muito diferente do que nas anteriores – isso, só alguém que tenha estado nesse espaço desde o começo poderá entender e julgar:
- “Sua vida amorosa vai ser feliz e harmoniosa”, disse o primeiro.
No segundo, um lembrete:
- “Não é importante apenas juntar anos na sua vida, mas juntar vida aos seus anos”.
As mensagens do biscoito chinês são como o vento, sem nenhuma garantia, mas Ms. Lin tem um bom fornecedor de biscoitos.
Romântica incurável, guardei as duas mensagens no bolso onde encontrei.

segunda-feira, 20 de julho de 2009

NY


Além do pequeno espaço que ocupamos no Universo, seja por escolha ou circunstância, temos ainda os lugares que o nosso espírito ocupa.
Viajo fácil. Tenho minhas preferências, mas acabo gostando de quase todos os lugares por onde passei. Eles não são iguais, mesmo os que parecem se equivaler. Não está nas ruas, na língua falada, ou na geografia a diferença.
Desconfio que isso seja um lugar comum: o tempo que leva pode variar de pessoa para pessoa, mas Nova York é uma cidade que acaba capturando um pedaço do nosso coração. É uma cidade que parece oferecer a todos uma experiência particular, mesmo sendo habitada e visitada por vários milhões.
A cidade não contribui só com o cenário, sua arquitetura monumental, o contorno dos rios. É movida à energia dos sonhos, do trabalho, das asperezas da vida e do suor de tanta de gente, da mistura de talentos aportados ali até hoje e desde sempre.
Antes de pegar o avião pela primeira vez, ela me foi pintada com cores terrivelmente sombrias. Custei a perceber que era porque fazia parte de um país que representava tudo de ruim para um Brasil sob tortura e ditadura.
Entendi menos ainda ao sentir os ares de liberdade que sopravam na cidade, os filmes de protesto que podia ver ali, tão diferente do país sufocante que eu deixei no início dos anos 70. Comparado com o meu, conheci um país explícito, escancarado, que falava – talvez não tão abertamente quanto hoje - de seus problemas e dos problemas do mundo.
Mas Nova York sempre teve vida própria. Ali podia haver, como houve, um desfile da estilista Zuzu Angel com estampas de protesto pelo filho desaparecido, e promovido pela Embaixada do Brasil! Tudo era confuso para uma pessoa começando a viver, mas já com percepção para ir guardando peças que só se encaixaram anos depois. E anos depois, a própria Zuzu desapareceu, no Brasil, num país com muito menos satisfações e explicações.
Não foi um mar de rosas a minha primeira temporada novaiorquina, mesmo contando com acolhimento familiar, e entre um apuro e outro, naquele momento eu fui um pouco mais feliz ali. Era eu comigo mesma, desbravando o mundo. Ventos de liberdade me levavam de bicicleta pela Ilha de Manhattan. Não podia imaginar que voltaria tantas vezes.
A experiência de trabalhar, por duas vezes, foi tão difícil quanto estimulante. Na primeira, andar muito à pé numa cidade feita para isso. Andava cinquenta quadras sem sentir. Na segunda, descartando maiores apuros, ficaram na lembrança os pequenos prazeres, donuts e um café quente no ar frio da janela do trem.
Quando chegava na estação atrasada, tinha que comprar o ticket dentro do trem, e ouvir sermão do fiscal - era mais caro do que no guichê da plataforma: “Por que pagar mais caro pela mesma coisa? A hora de sair de casa tem que incluir o tempo de comprar o bilhete!” Tudo diferente no país rico em que qualquer níquel tem valor, e controlam até o que você faz com o seu dinheiro.
NY para mim sempre ultrapassou os meus limites.
Fui feliz ali todas as vezes, mas nunca em paz. Dilema, descoberta, prazer, atração, desolação, frustração, tristeza, deslumbramento. Mas sem ideologia, sem lenço e sem documento, julgando apenas pelo sentimento, um quase paraíso.

Hoje, liguei o rádio e ri, porque o Lulu Santos cantava: “não vá para Nova York, amor, não vá...”.
Pois eu vou. Atrás de uma filha, coisa que mãe só não faz se não tiver mesmo jeito. Além da filha, uns panos e uns pratos, espero trazer na bagagem uma nova camiseta para dormir já atualizada, I Love New York com o skyline mais famoso do mundo, mas sem as torres gêmeas.
Quando você tem dentro do peito mais de um lugar, não sendo milionário ou caixeiro viajante, está perdido para sempre. Não sei se é o coração da gente, mas será que existe algum lugar no mundo onde não falte um pedaço?