segunda-feira, 30 de março de 2009

Procuras


- “Oi vadia!”
- “Oi cachorra!”
Quando duas moças se cumprimentam assim, conforme entreouvido por aí, alguma coisa está mudada. Mas pode ser que nem tanto quanto parece. Cariocas têm uma informalidade e um humor meio peculiares, que podem atiçar a imaginação além da conta.

- “Minha mãe dizia: nada de moça de segunda a quinta. E os dias “nobres” ficam para a farra? Nada disso!”
Aí, acho que os tempos mudaram, sim, a “farra” a que essa mãe se refere perdeu um pouco o sentido hoje. Mas não todo.
- “Rachar a conta no restaurante? E na primeira vez? Se acontece comigo, vai ser uma vez só. Se não pode, não convida".
- "Rachar motel?? Jamais! Mas conheço quem racha. Estão mesmo folgados.”
- “O cara liga e diz: Vem pra cá! Você pega o seu carrinho, ou pega um taxi! E vai para a casa dele! F - - - delivery! Se você pensar, valemos menos que uma prostituta. Ele tem todas as facilidades e não tem que pagar. Sou formada, tenho MBA, emprego. Não é complicado isso?”.
Céus...
Outra pessoa da turma comentou: "Vivemos numa sociedade falocrata". Não ajudou muito a constatação. Mas serviu para me lembrar que alguns meninos que eu conhecia eram acordados pelas mães todas as manhãs com café na cama. Pode dar certo?
A conversa (não o cumprimento acima!) é entre moças novas, bonitas, saradas, formadas, batalhadoras, da zona sul do Rio de Janeiro. Não sei o que dizer nem o que pensar, a única coisa que me ocorre é que pessoas são únicas, gente não é gado, e belos encontros acontecem e acontecerão. Talvez o problema seja mais demográfico do que de qualquer outra natureza.
Pensei também que eu não teria a menor chance nesse mundo, em nenhuma fase ou idade.
A conversa estava boa, mas voltei a me concentrar no pilates. Meia hora de bicicleta antes, e as indispensáveis caminhadas na Lagoa. É bom fazer alguma coisa por nós. Sem pressão, apenas seguindo um caminho bom. Depois de uma temporada de suco verde, a dieta da sopa...e quem sabe um tal regime japonês. Se os índios contam as luas, por aqui contamos os verões. O seguinte não vai ser igual a esse que passou.
Suspeito que cuidando do corpo – e ele responde! - a cabeça melhora. São difíceis os encontros. Estar de bem conosco já garante a metade.
Abri uma revista e li a Dilma falando sobre “ficar”, e pensando na filha:
- “... nós mulheres estamos danadas...porque esse negócio de ficar não funciona bem para as mulheres...a gente precisa de uma certa sedução, de corte, do processo da conquista. Não pode ser aquele sincericídio horroroso que há no ficar”.
É.
Não acho que o passado era mais feliz, acho só que a vida com regras mais definidas era mais simples.
Minha torcida aqui pelas meninas.

segunda-feira, 23 de março de 2009

O país dos milionários


“Slumdog Millionaire/ Quem Quer Ser Um Milionário”, ou cão de favela milionário, traduzindo ao pé da letra, não lota os cinemas indianos. No início das sessões, como é hábito no país, o público se levanta e canta o hino nacional. O filme, que ganhou oito Oscar, é discutido na Índia em programas de televisão, mas lá ele perde porque fere o orgulho nacional da classe média ascendente indiana.
E tem o mesmo destino de um livro muito bom, que é um best seller mundial. “O Tigre Branco”, de Aravind Adiga, conseguiu ganhar o Booker Prize em Londres, foi traduzido para mais de 30 línguas, mas na Índia não só foi arrasado pela crítica como é um fracasso de vendas.
Como corda em casa de enforcado, é fácil de entender que o terceiro mundo seja muito sensível aos seus problemas. Não se trata disso, aqui. Indignação e ofensa por ver suas desigualdades e injustiças expostas, em vez de querer discuti-las, é a incompreensível contribuição para a perpetuação delas – avareza e egoísmo são comportamentos conhecidos, o que não quer dizer compreensíveis ou aceitáveis.
A verdade é que houve na Índia, em 2000, um milionário como o do filme.
Harshvardhan Nawathe, conhecido pelo apelido de Harsh em seu país, como conta uma matéria do Der Spiegel, é o personagem de verdade do filme. Ele foi o primeiro e único até hoje a vencer a versão indiana do nosso “Show do Milhão”. Ele não era como as crianças da favela, sua família era bem modesta mas cuidou dele.
Reconhecido nas ruas e muito mais popular do que o filme “de Hollywood” por lá, ouvia do pai policial, que trabalhava no combate à corrupção, muitas histórias de fraudes, evasão fiscal e também a leitura do “Mahabharata”, o épico heróico ancestral da Índia. Sua mãe o convenceu a se candidatar porque quando assistiu o programa viu que ele sabia todas as respostas. Ganhou 10 milhões de rúpias, quase 200 mil dólares, assistido por 350 milhões de pessoas, um terço da população indiana.
Durante um ano ele recebeu cartas, pedidos de autógrafos, de doações, de casamento. O pai já estava aposentado há sete anos, mas mesmo assim corriam histórias de que teria subornado o apresentador, que esteve envolvido em um escândalo de impostos na época.
O menino foi usado, assediado, transformado em marca, era muito educado para recusar as propostas, ficou num primeiro momento seduzido com a fama, mas não perdeu a cabeça. Até hoje existem oito shopping centers em Mumbai com o seu nome. Passou por uma depressão, mudou-se para Edimburgo, onde conseguiu um MBA com louvor, pediu à mãe – bem ao estilo indiano - que encontrasse uma mulher que soubesse lidar com o mundo de Bollywood mas não se deixasse levar por ele. Casou-se com uma ex-atriz de novela, cuida de um filhinho de quatro meses, trabalha com crianças de uma favela de Mumbai, como gerente de uma ONG indiana que garante professores, livros, aulas de informática, até que as crianças se formem.
No momento está empenhado em conseguir doadores para que a fundação aceite mais oito mil crianças em seu programa de apoio. Vive uma vida discreta, cuidando da família e do trabalho.
Talvez sua história tenha inspirado o livro “Rupees! Rupees!”, no qual o filme é baseado. Ele não sabe, porque o autor, um diplomata indiano, nunca fez contato com ele. Nem o diretor do filme.
De qualquer forma, acho que a vida se saiu aqui ainda melhor do que a arte.

terça-feira, 17 de março de 2009

O papel da mídia


Não é o de embrulhar peixe.
Como passei minha vida profissional sempre em alguma redação, posso dizer que até hoje não existe ( mesmo para as pessoas de boa fé ) clareza, definição e certeza suficiente sobre o limite entre cobrir ou não cobrir, ser afoito ou ser furado, brigar por audiência sem atrapalhar, prejudicar, invadir ou até acabar com a vida de quem está, em última análise, nos ajudando a ganhar a nossa.
São muitas as questões, e muito, muito poucas as discussões. Existem certamente no meio acadêmico, em sites e blogs, em alguns sindicatos, talvez, e onde mais seja será sempre em escala muito menor do que entre a massa que exerce o ofício de falar ou escrever para muitos leitores.
O Brasil está longe de estar pronto, é um país apenas remexido. Formação mais acurada se dá em áreas mais técnicas, onde ela é absolutamente essencial. Fora disso, estamos sempre meio atrasadinhos, o que é agravado pela cultura, tão arraigada, de desconfiar de transformações significativas. São bem aceitas por aqui novidades aparentes, que retardam mudanças radicais. O país parece sempre em movimento, mas a moda muda sem mudar na essência. Todos aceitam que precisamos mudar, mas que há pouca esperança de que isso aconteça. Os problemas são sempre os mesmos, as pessoas são todas farinha do mesmo saco - disseminar a crença de que por aqui nada muda é o melhor caminho para se deixar tudo como está.
O curioso é que passamos por uma mudança bem radical nas duas últimas eleições. Não é pouca coisa, em um país de eternas capitanias hereditárias, eleger um ex-operário.
Como não é qualquer país do primeiro mundo que elege um presidente negro. Mas lá, a comemoração se dá mesmo por quem não espera grandes mudanças, mas é capaz de ver a última eleição americana como um marco histórico e redentor de muitas injustiças do passado e do presente. Aqui, mesmo quem teme grandes mudanças, há de concordar que o Brasil é um país de grandes desigualdades, e que seria melhor para todos que elas fossem menores. Mas nunca vi por aqui o sentimento de que só o fato de elegermos por duas vezes um ex-operário merece comemoração porque já é em si um fato histórico, digno, sim, de ser comemorado, independente de ser ou não ideal, de se gostar do eleito. Falo do fato em si.
Estou falando, repito, de pessoas de boa fé. As de má fé sabemos o que querem.
Acho que nos falta grandeza. Sem perceber, somos dominados pela cultura da “farinha pouca, meu pirão primeiro?” Ou levantamos, sem pensar ou reagir, a bandeira de quem pensa assim? Por que se reage com mais indignação contra erros de Português do que contra denúncias de corrupção pesada com dinheiro público, que poderia estar sendo usado na saúde, por exemplo? Menos dinheiro na saúde não pode ser responsável por falta de assistência e morte?
Parar para pensar - jornalistas trabalham com a cabeça, mas parece que a sombra do período autoritário não se foi quando passamos a eleger presidentes.
Posso não ter sabedoria suficiente, mas esperança não me falta. Já que lembrei um ditado, prefiro ficar com o “água mole em pedra dura, tanto bate...”. O problema é o tempo que leva, e o que se perde nessa estrada, mas tenho esperança de ver minha profissão encarada com mais cuidado, mais seriedade, mais questionamentos, e uma melhor compreensão do seu alcance. O Brasil vendeu mais carros, mais computadores, mais eletrodomésticos nos últimos anos. Vendeu mais jornais? Subiu a audiência dos jornais de televisão? Isso precisa nos preocupar, e sinceramente. Porque escolhas erradas, insinceras ou desconectadas podem resultar numa perda assim como a da galinha dos ovos de ouro.

sexta-feira, 13 de março de 2009

Flora brasiliensis


O Rio tem mais um ipê, plantado hoje pelo príncipe Charles no Jardim Botânico.
O da foto é particular, espremido nos fundos de vários prédios - de vez em quando acontece, na janela da área, essa explosão amarela.
Não tenho jeito com a fauna, muita simpatia mas pouca intimidade com cachorros, não curto muito gato.
Isso um dia preocupou minha filha, que felizmente achou que a flora poderia ser minha redenção. Para ela, quem não gostava de bicho não tinha bom coração, mas já que eu gostava tanto de planta, calculou que isso poderia compensar.
Fui salva dessa vez. As mulheres más ficaram restritas aos filmes noir.
A gente quer comida, diversão e arte.
Respeito, igualdade, trabalho, educação.
Tudo de bom...e um mundo florido também.
Por que não?

domingo, 1 de março de 2009

No escuro


O filme “Call Northside 777”, de Henry Hathaway é de 1948.
O título no Brasil não conta: “Sublime Devoção” – esse tem a desculpa de ser de outro tempo, mas desde sempre, títulos que os filmes estrangeiros recebem aqui são uma história à parte. Títulos disparatados, ligeiramente ridículos ou, o que é pior, completamente reveladores, não devem ser surpresa para espectadores atentos. Já ouvi muitos casos risíveis de títulos em Portugal, mas não passam de mais piadas de português: "Psicose" em Portugal NÃO se chamou “O Filho que Era Mãe”! Chamou-se "Psico". Rimos, mas como é de praxe, não olhamos para o nosso umbigo.
Que tal “o Homem que Burlou a Máfia”("Charley Varrick" no original, EUA, 1973)? Será que é preciso ver o filme, depois de ler esse título? Esse não é piada. “Os Brutos Também Amam”, para “Shane”: mais um pouco e vira redação de escola.
Bom, voltando ao filme em questão, eu vi hoje um filme de sessenta anos atrás, diferente dos que de vez em quando vejo na tela aqui de casa. Reclamo da maioria dos filmes dessa época, especialmente dos filmes “noir”, que a wikipedia classifica como "filmes de um mundo cínico e antipático", e eu classifico como “filmes de mulher má”. Tem sempre uma mulher bem má na história, sórdida, pérfida, para desgraçar ou enlouquecer homens que podem não ser tão bons mas têm mais boa fé. Isso me deixa meio revoltada, independente dos filmes serem bons, como geralmente são. Pior do que as mulheres, só os jornalistas ficam, quando tem jornalista na parada. Está aí o clássico “The Front Page” que não me deixa mentir. Jornalista é pior do que mulher má, é desclassificado. Não sei o que o cinema americano tinha contra mulheres e jornalistas, mas existe uma quantidade enorme de filmes que não me deixam mentir.
Pois esse é um filme de jornalista bom. Quer dizer, não começava bom, era na verdade o menos bom da história – que eu não vou contar – mas a história era tão boa que ele foi melhorando, tão boa que parecia ficção – e é uma história real.
Bons tempos. Tempos em que os jornais dependiam das histórias que publicavam e do que os jornalistas escreviam para vender jornal. O dono do jornal consultava o jornalista sobre a história que ele ia escrever, ou estava escrevendo, o trabalho que ele estava assinando. A cidade inteira acompanhava, e a venda sustentava o jornal. Não era o anunciante que dava as cartas, não eram interesses misteriosos, desconhecidos e incompreendidos justamente por quem arregaça as mangas e faz o jornal. Evoluímos?
Às vezes a gente nem repara que o mundo está torcido e de cabeça para baixo. Ficção, realidade, o jeito é procurar na wikipedia para saber o que é o quê.

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

O melhor poema de todos os tempos


Esse me chegou com os bons votos de ano novo (estou eu aqui confirmando a lenda de que o ano carioca só começa quando o carnaval termina...)
Não foi a primeira vez que vi circular pela internet,
mas dessa vez me deu vontade de copiar aqui, depois de traduzir livremente:

Uma mulher deve ter:
Dinheiro suficiente, sob seu controle, para poder se mudar
e alugar um lugar só seu, mesmo que ela nunca precise ou queira.
Alguma coisa perfeita para vestir se o empregador,
ou a pessoa dos seus sonhos quiser vê-la dentro de uma hora
Uma juventude que fique satisfeita de deixar para trás,
Um passado saboroso o suficiente para esperar com prazer
a hora de contar na sua velhice.
Um jogo de chaves de parafuso, uma furadeira sem fio e
um sutiâ de renda preta
Uma amizade que sempre a faça rir...e uma com quem pode chorar
Um bom móvel que não pertenceu a ninguém da família
Oito conjuntos de pratos, cálices de vinho e a receita para uma refeição que fará seus convidados se sentirem honrados
Uma sensação de controle sobre o seu destino
Toda mulher deve saber
Como se apaixonar sem perder a si mesma.
Como deixar um emprego,
romper com o amante,
confrontar um amigo sem arruinar a amizade
Deve saber:
A hora de tentar com mais garra
e a hora de se retirar.
Deve saber que ela não pode mudar
O comprimento da sua perna,
O tamanho do seu quadril
Ou a natureza de seus pais
Deve saber que sua infância
Pode não ter sido perfeita... mas é passado.
O que ela deve e o que ela não deve fazer por amor
Ou mais ainda,
Como viver sozinha, mesmo que não goste.
Em quem ela pode confiar, em quem ela não pode
E porque ela não deve tomar isso pessoalmente.
Aonde ir,
Seja isso a mesa da cozinha de sua melhor amiga
Ou um charmoso chalé na montanha
quando sua alma precisa ser afagada
Precisa saber
O que pode e o que não pode conseguir
em um dia,
um mês,
um ano...

Mande para seis mulheres e terá muita sorte o ano todo
Ou no mínimo saberá
Que você é realmente amada pela amiga que te mandou isso
E que ela só deseja o melhor para você
e para a sua vida, e lembre:
bons amigos são como estrelas,
você nem sempre vê, mas sabe que estão lá!
Seja você mesma - e os outros já estarão garantidos.

"The best poem ever..." me foi enviado por uma querida amiga como sendo de Maya Angelou. Li que ele corre mundo desde 2007, quando foi publicado no blog da verdadeira autora, Pamela Satran.
Seja de quem for, o título não é nada modesto, mas acho que ela deve acreditar, como acredito, que os homens também poderiam fazer bom uso do que sugere ou deseja aqui. Só se dirige às mulheres porque costumam ser mais descuidadas com as coisas essenciais...

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

Brasíndia


A Índia está em nós desde a primeira aula de História do Brasil, desde as túnicas da adolescência, as viagens dos Beatles, seus panos e seus gurus sempre nos fizeram sonhar. Para ser honesta, minha admiração só passou disso quando comecei a pesquisar o país que iria visitar profissionalmente, e vi que o guia da Índia que eu tinha nas mãos era muito mais grosso do que o da China, e o do Japão, que eu tinha lido antes.
Gostar mesmo, eu gostava era da comida indiana que provei muitas vezes fora da Índia.
É impossível não reverenciar a cultura indiana, mas passei a olhar com desconfiança e a questionar muito a manutenção cega dessa cultura que os indianos tanto enaltecem, geralmente com um olho nos negócios, não seria injusto afirmar.
No meu primeiro contato, descobri a porção de Índia que temos no Brasil, mais precisamente, em Minas Gerais. Eram fortes os laços amarrados por Portugal, que dominou Goa até 1962.
Ouvi mais do que pude comprovar: teriam vindo de Goa todos os governadores gerais a que o estado de Minas foi subordinado. A mãe do Aleijadinho não seria uma escrava africana, seria na verdade, indiana. No período do Brasil colônia, só não vieram mais indianos para cá porque as mercadorias que vinham de lá tinham prioridade nos navios, valiam mais do que um punhado de escravos. Mesmo assim, vieram – e continuam vindo – muitos indianos para ficar ou negociar por aqui.
O comércio de ouro e pedras preciosas, declarado ou não, oficial ou oficioso, até hoje mantem essa união. Minas sempre teve ouro e pedras, os indianos sempre adoraram jóias. Existem joalheiros em Jaipur, na Índia, que ainda mantem esse comércio, atravessando gerações há séculos, desde os tempos do Império.
Ainda hoje a Índia é o país das compras, e com isso continua a atrair a atenção do mundo todo. Não só especiarias, mas outras maravilhas, lindezas e delicadezas a preços muito baixos. Já garantia não se encontra com tanta abundância, meu colar era de vidro e se quebrou, minha pulseira era pintada e desbotou. Não importa, durando ou não, tudo é lindo e é um presente para os olhos. O artesanato se mantém pela obrigação de se seguir a profissão do pai, a organização dos ofícios distribuídos entre as diferentes castas acabou preservando muita coisa que, fora da Índia, só em algum lugar do passado. Grande parte da Índia é, ainda, o passado. As levas de colonizadores parecem ter deixado esse karma por lá. E talvez não haja no mundo país mais avesso a mudanças do que a Índia.
Muitas civilizações antigas como o Egito, vivem em grande parte por conta de seu passado. Mas a Índia parece viver ainda no passado, e deve interessar à sua classe dominante que as cosisas se mantenham assim. Sob o olhar da justiça social, a Índia já não parece tão misteriosa. Todas as crenças parecem ter um fundo econômico por trás, que não ajuda nem um pouco os menos favorecidos. Se todos os animais são sagrados, não se come nenhum deles – bem, a população hindu não come. Se o mar era olhado com desconfiança, o sal e os peixes estavam a salvo dos hindus e à disposição do colonizador ou estrangeiro que não praticasse essa fé. O ponto de vista econômico não parece ser o mais humano nem o mais charmoso para se olhar pessoas e credos, mas à luz da economia as injustiças ficam mais claras, não se escondem atrás dos panos – que por mais bonitos e preciosos que sejam, servem para distrair nossa atenção de uma realidade assustadora. Os excluídos, os sem castas, são cerca de 170 milhões, quase a população brasileira, e significam 16% dos habitantes da Índia, quando os de castas mais altas somam apenas 8%. A maior parte da população está nas castas intermediárias, o que não quer dizer que vivam bem.
O boom econômico promoveu um princípio de mudança, criando muitas oportunidades de trabalho nas cidades grandes, significando um pouco de mobilidade no duro sistema de castas. O outro lado da moeda é a intolerância que isso provocou. Os dalits, ou oprimidos, quando voltam para suas cidades demonstrando alguma prosperidade, cotumam ser violentamente atacados. Os de castas mais altas esperam a mesma subserviência de sempre. Casamentos entre castas começaram a acontecer, mas ainda provocam reações fortíssimas e muitas vezes trágicas. É um sistema tão arraigado na cultura indiana que Gandhi, que tanto lutou pela liberdade na Índia, não lutou contra as castas, ele lutou a favor dos oprimidos mas aceitou manter esse sistema.
Forte preconceito aliado a grandes interesses econômicos, parece que já vimos esse filme em algum lugar...

Continuo gostando muito de comida indiana...especialmente fora da Índia.

domingo, 15 de fevereiro de 2009

Bloco da Maria - Crônica da Folia

Comissão de frente

Negócios de última hora

À espera do bloco

Decorando a festa

Orelhão folião

Lá vem ele

A turma da pesada

A turma da pesada - 2

Começando cedo

Princesas na passarela



Em guarda

Trio folião
Noiva resgatada

Já que é carnaval...

Dispersão

sábado, 14 de fevereiro de 2009

Moonglow


Comecei a escrever decidida a organizar as idéias, e meti na cabeça que só conseguiria botar as coisas no lugar quando arrumasse a casa. Felizes dos que conseguem funcionar no caos, abstrair é um dom que eu não tenho.
Arrumações demandam tempo e persistência, e às vezes é preciso mais fôlego e coragem para abrir e esvaziar uma gaveta do que para cruzar um rio amazônico à noite num barco sem lanterna.
Ufa. Era mais ou menos o meu caso. Hoje, guardo uma lanterna na gaveta.
Sigo sem atropelos, sem rumo certo, e sem ver o fim do túnel, mas sigo.
Guardo datas, vou marcar meus progressos em luas – celebrando a primeira lua cheia do ano novo chinês, festa no Oriente, e bonita de chamar atenção, de tanto que anda iluminando as noites por aqui. A cada lua cheia, espero ter feito algum.
O armário de receitas tento agora reduzir, como se apura um caldo ou se reduz um vinho no molho. A moda muda até nos pratos, o nível aceitavel de colesterol baixou, a ciência e o paladar vão me ajudando na triagem. Já não sei por que guardei tudo isso, se uma boa fatia de pão integral e uma lata de sardinhas para mim é um banquete.
Adolescente, quando adultos davam palpites sobre o meu futuro, eu reagia pensando: quero uma casa pequena, em cima de uma pizzaria, perto de uma padaria. E só.
Consegui bem mais do que minhas pueris pretensões, gacias a la vida, e lamento ter que dispensar a pizza por ter outras prioridades no momento.
Com o tempo, passei a colar e anotar em cadernos as receitas “definitivas”. Essa é uma delas. Vale sozinha uma refeição, fresca e saudável, só poderia mesmo ser o carro-chefe de Nice, cidade tão boa quanto sua famosa salada.

Salada Niçoise

Molho Vinagrete:
3 dentes de alho, bem amassados
¼ xícara de vinagre de vinho tinto
Sal - e pimenta, se quiser (eu evito pimenta do reino)
½ xícara de azeite extra virgem

Bata tudo junto, deixando para juntar o azeite no final, bata mais e reserve.

Salada:
500 gr de atum – fresco ou, se enlatado, compre o sólido, em água
2 colheres de sopa de azeite
Sal
350 gramas de batatinhas novas, de preferência, as de casca vermelha
350 de vagens - aparadas, sem os fios, melhor usar a tipo macarrão
1 pé de alface - romana ou americana, ou mesmo chicória, em pedaços
1 cebola roxa bem pequena, fatiada bem fina
½ pimentão vermelho, fatiado bem fino
2 ovos cozidos e fatiados
4 tomates pequenos, cortados em 4 ou 8 pedaços, ao comprido
½ xícara de azeitonas pretas pequenas
Um punhado de temperos verdes, ou cheiros, pode ser salsinha e cebolinha-francesa (ciboullette)

Deixe o atum no azeite e no sal enquanto prepara a salada.
Ferva as batatinhas em água e sal, até cozinhar (veja se estão macias espetando um garfo). Escorra e esfrie. Ferva as vagens, escorra em água fria e deixe esfriar. Corte a batata em rodelas e as vagens no tamanho de uma garfada (corte enviesado). Misture com um quarto da vinagrete.
Arrume a salada numa saladeira – de preferência, de vidro, na ordem:
folhas, batatas, vagem, cebola, pimentão, tomates, atum, azeitonas e temperos verdes.
Regue com o molho restante, misture um pouco e sirva logo.

***

De quebra, já que é dia de São Valentim, festejado pelos namorados do lado de cima do mundo, a letra da música de uma das cenas mais românticas do cinema, do filme Picnic (Joshua Logan, 1955).

Moonglow

Will Hudson / Edgar DeLange / Irving Mills

It must have been moonglow, way up in the blue
It must have been moonglow that led me straight to you
I still hear you sayin', "Dear one, hold me fast"
And I keep on prayin', "Oh Lord, please let this last"

We seemed to float right through the air
Heavenly songs seemed to come from everywhere

And now when there's moonglow, way up in the blue
I'll always remember, that moonglow gave me you

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

Fevereiro


Os nativos estão inquietos. Baticuns vem de todos os cantos da cidade, é o som do verão no Rio. Blocos de rua (re)surgiram e se multiplicaram, e no rastro da Banda de Ipanema vieram com nomes que não negam o espírito do chão que pisam: Simpatia é quase Amor, Bloco de Segunda (que sai da Cobal de Botafogo), Suvaco do Cristo (sai debaixo do próprio), Imprensa que eu Gamo, Spanta Nenén, Nem Muda nem sai de cima, Carmelitas, Rola Preguiçosa, Vem ni mim que eu sou Facinha, Azeitona sem Caroço, Empurra que pega, e por aí vai, ou vão.
Carioca é casa de branco em tupi-guarani, mas como bem disse Luiz Carlos da Vila,
“O samba corre
Nas veias dessa pátria - mãe gentil
É preciso altitude
De assumir a negritude
Pra ser muito mais Brasil.“

É possível não gostar, mas não é possível negar: o samba é pura alegria, que herdamos e acolhemos de quem não chegou aqui acolhido de braços abertos. Generosa herança, festa verdadeira, que aqui está no dna, não pode ser atestado apenas por um sambódromo (com o perdão da má palavra). E como nada é perfeito, serve também para provar que a maldade dessa gente que consegue manipular, corromper e explorar até a alegria do povo é uma arte. A sombria mistura com coisas nada alegres traz sempre um conflito com a tentadora Avenida.
De simplicidade e qualidade, outro Rosa, o Noel, sabia tudo:

"Essa gente, hoje em dia, que tem a mania de exibição
Não entende que o samba não tem tradução no idioma francês.
Tudo aquilo que o malandor pronuncia
Com voz macia é brasileiro, já passou de português."

Tentação existe para que se caia nela, folião merece sempre perdão, mas viva os blocos – de preferência, antes da fama, antes de superlotarem - e viva o samba, tocado por uma bateria, por um grupo de sambistas, ou batucado em uma caixa de fósforo.

"Sambista Perfeito
Arlindo Cruz

O sambista perfeito devia nascer com a luz de Candeia
Que animava o terreiro em noite de chuva ou de lua cheia
E ainda ser valente sem dar bofetão, cabeçada ou rasteira
Mas brigar pela arte, a parte melhor de Geraldo Pereira

Elegante do jeito Paulinho
Cativante do jeito Martinho
Ser malandro e contagiante do jeito Zeca Pagodinho

Orfeu intuitivo, senhor e cativo nas artes do amor
A vida aventureira e no bolso a carteira de trabalhador
Um lenço muito bem perfumado
O sapato de cromo engraxado
O sambista completo devia ser neto dos antigos bambas

Mente aberta no corpo fechado
Contra plágio, pedágio e muamba
O sambista perfeito devia ser feito à imagem do samba"

***

Valeu, Zumbi!