
Comecei a escrever decidida a organizar as idéias, e meti na cabeça que só conseguiria botar as coisas no lugar quando arrumasse a casa. Felizes dos que conseguem funcionar no caos, abstrair é um dom que eu não tenho.
Arrumações demandam tempo e persistência, e às vezes é preciso mais fôlego e coragem para abrir e esvaziar uma gaveta do que para cruzar um rio amazônico à noite num barco sem lanterna.
Ufa. Era mais ou menos o meu caso. Hoje, guardo uma lanterna na gaveta.
Sigo sem atropelos, sem rumo certo, e sem ver o fim do túnel, mas sigo.
Guardo datas, vou marcar meus progressos em luas – celebrando a primeira lua cheia do ano novo chinês, festa no Oriente, e bonita de chamar atenção, de tanto que anda iluminando as noites por aqui. A cada lua cheia, espero ter feito algum.
O armário de receitas tento agora reduzir, como se apura um caldo ou se reduz um vinho no molho. A moda muda até nos pratos, o nível aceitavel de colesterol baixou, a ciência e o paladar vão me ajudando na triagem. Já não sei por que guardei tudo isso, se uma boa fatia de pão integral e uma lata de sardinhas para mim é um banquete.
Adolescente, quando adultos davam palpites sobre o meu futuro, eu reagia pensando: quero uma casa pequena, em cima de uma pizzaria, perto de uma padaria. E só.
Consegui bem mais do que minhas pueris pretensões, gacias a la vida, e lamento ter que dispensar a pizza por ter outras prioridades no momento.
Com o tempo, passei a colar e anotar em cadernos as receitas “definitivas”. Essa é uma delas. Vale sozinha uma refeição, fresca e saudável, só poderia mesmo ser o carro-chefe de Nice, cidade tão boa quanto sua famosa salada.

Salada Niçoise
Molho Vinagrete:
3 dentes de alho, bem amassados
¼ xícara de vinagre de vinho tinto
Sal - e pimenta, se quiser (eu evito pimenta do reino)
½ xícara de azeite extra virgem
Bata tudo junto, deixando para juntar o azeite no final, bata mais e reserve.
Salada:
500 gr de atum – fresco ou, se enlatado, compre o sólido, em água
2 colheres de sopa de azeite
Sal
350 gramas de batatinhas novas, de preferência, as de casca vermelha
350 de vagens - aparadas, sem os fios, melhor usar a tipo macarrão
1 pé de alface - romana ou americana, ou mesmo chicória, em pedaços
1 cebola roxa bem pequena, fatiada bem fina
½ pimentão vermelho, fatiado bem fino
2 ovos cozidos e fatiados
4 tomates pequenos, cortados em 4 ou 8 pedaços, ao comprido
½ xícara de azeitonas pretas pequenas
Um punhado de temperos verdes, ou cheiros, pode ser salsinha e cebolinha-francesa (ciboullette)
Deixe o atum no azeite e no sal enquanto prepara a salada.
Ferva as batatinhas em água e sal, até cozinhar (veja se estão macias espetando um garfo). Escorra e esfrie. Ferva as vagens, escorra em água fria e deixe esfriar. Corte a batata em rodelas e as vagens no tamanho de uma garfada (corte enviesado). Misture com um quarto da vinagrete.
Arrume a salada numa saladeira – de preferência, de vidro, na ordem:
folhas, batatas, vagem, cebola, pimentão, tomates, atum, azeitonas e temperos verdes.
Regue com o molho restante, misture um pouco e sirva logo.
***
De quebra, já que é dia de São Valentim, festejado pelos namorados do lado de cima do mundo, a letra da música de uma das cenas mais românticas do cinema, do filme Picnic (Joshua Logan, 1955).
Moonglow
Will Hudson / Edgar DeLange / Irving Mills
It must have been moonglow, way up in the blue
It must have been moonglow that led me straight to you
I still hear you sayin', "Dear one, hold me fast"
And I keep on prayin', "Oh Lord, please let this last"
We seemed to float right through the air
Heavenly songs seemed to come from everywhere
And now when there's moonglow, way up in the blue
I'll always remember, that moonglow gave me you