segunda-feira, 20 de julho de 2009

NY


Além do pequeno espaço que ocupamos no Universo, seja por escolha ou circunstância, temos ainda os lugares que o nosso espírito ocupa.
Viajo fácil. Tenho minhas preferências, mas acabo gostando de quase todos os lugares por onde passei. Eles não são iguais, mesmo os que parecem se equivaler. Não está nas ruas, na língua falada, ou na geografia a diferença.
Desconfio que isso seja um lugar comum: o tempo que leva pode variar de pessoa para pessoa, mas Nova York é uma cidade que acaba capturando um pedaço do nosso coração. É uma cidade que parece oferecer a todos uma experiência particular, mesmo sendo habitada e visitada por vários milhões.
A cidade não contribui só com o cenário, sua arquitetura monumental, o contorno dos rios. É movida à energia dos sonhos, do trabalho, das asperezas da vida e do suor de tanta de gente, da mistura de talentos aportados ali até hoje e desde sempre.
Antes de pegar o avião pela primeira vez, ela me foi pintada com cores terrivelmente sombrias. Custei a perceber que era porque fazia parte de um país que representava tudo de ruim para um Brasil sob tortura e ditadura.
Entendi menos ainda ao sentir os ares de liberdade que sopravam na cidade, os filmes de protesto que podia ver ali, tão diferente do país sufocante que eu deixei no início dos anos 70. Comparado com o meu, conheci um país explícito, escancarado, que falava – talvez não tão abertamente quanto hoje - de seus problemas e dos problemas do mundo.
Mas Nova York sempre teve vida própria. Ali podia haver, como houve, um desfile da estilista Zuzu Angel com estampas de protesto pelo filho desaparecido, e promovido pela Embaixada do Brasil! Tudo era confuso para uma pessoa começando a viver, mas já com percepção para ir guardando peças que só se encaixaram anos depois. E anos depois, a própria Zuzu desapareceu, no Brasil, num país com muito menos satisfações e explicações.
Não foi um mar de rosas a minha primeira temporada novaiorquina, mesmo contando com acolhimento familiar, e entre um apuro e outro, naquele momento eu fui um pouco mais feliz ali. Era eu comigo mesma, desbravando o mundo. Ventos de liberdade me levavam de bicicleta pela Ilha de Manhattan. Não podia imaginar que voltaria tantas vezes.
A experiência de trabalhar, por duas vezes, foi tão difícil quanto estimulante. Na primeira, andar muito à pé numa cidade feita para isso. Andava cinquenta quadras sem sentir. Na segunda, descartando maiores apuros, ficaram na lembrança os pequenos prazeres, donuts e um café quente no ar frio da janela do trem.
Quando chegava na estação atrasada, tinha que comprar o ticket dentro do trem, e ouvir sermão do fiscal - era mais caro do que no guichê da plataforma: “Por que pagar mais caro pela mesma coisa? A hora de sair de casa tem que incluir o tempo de comprar o bilhete!” Tudo diferente no país rico em que qualquer níquel tem valor, e controlam até o que você faz com o seu dinheiro.
NY para mim sempre ultrapassou os meus limites.
Fui feliz ali todas as vezes, mas nunca em paz. Dilema, descoberta, prazer, atração, desolação, frustração, tristeza, deslumbramento. Mas sem ideologia, sem lenço e sem documento, julgando apenas pelo sentimento, um quase paraíso.

Hoje, liguei o rádio e ri, porque o Lulu Santos cantava: “não vá para Nova York, amor, não vá...”.
Pois eu vou. Atrás de uma filha, coisa que mãe só não faz se não tiver mesmo jeito. Além da filha, uns panos e uns pratos, espero trazer na bagagem uma nova camiseta para dormir já atualizada, I Love New York com o skyline mais famoso do mundo, mas sem as torres gêmeas.
Quando você tem dentro do peito mais de um lugar, não sendo milionário ou caixeiro viajante, está perdido para sempre. Não sei se é o coração da gente, mas será que existe algum lugar no mundo onde não falte um pedaço?

domingo, 19 de julho de 2009

Só coração


Desde que Freud desnudou nosso inconsciente, perdemos um pouquinho do direito de sermos infelizes. A imposição da felicidade aumentou. Devemos ser sinceros, abertos, transparentes, positivos, verdadeiros. Especialmente as mulheres, depois que conseguiram falar - um pouquinho - mais alto.
Ingênuas, bobas e românticas saíram para sempre de moda.
Nunca tinha olhado minha mãe como romântica, até que soube que, com mais de oitenta, ela ficou zangada porque um amigo, bem velhinho, morreu. Ele tinha prometido se casar com ela, uma sobrinha me contou. Ela era viúva há mais de vinte anos e nunca soube que tenha tido um namorado durante esse tempo. Era romântica, eu é que era distraída, achava que ela era sonhadora demais, e nada pragmática, e isso me incomodava. Ela me perdoará. Rejeito desequilíbrio, mas rejeitar sonho acho que é pecado. Tudo foi sempre muito misturado e antagônico na minha família. Inteligência em alto grau e zero em inteligência emocional. Descobri que prefiro assim do que um equilíbrio perfeito, sem brilho nem graça. Olho a inteligência emocional com a mesma desconfiança que olho para a tal da autoestima; apenas novos nomes para velhos sentimentos e situações conhecidas.
Hoje, vários livros nos alertam: “Quando termina é porque acabou”. Até filme nos avisa para ter os pés no chão: “Ele não está tão a fim de você”. Não vou ver.
“A melhor vingança é ser feliz”. E daí? Autoajuda ajuda com certeza a quem escreve, publica e vende, já o público alvo, não sabemos se são por eles ajudados, sabemos que procuram ajuda e às vezes não precisam, precisam e às vezes não procuram. E que vivemos tempos em que precisamos pedir desculpas pelo vexame se um dia cometermos a imperdoável inconveniência de nos apaixonarmos.

domingo, 12 de julho de 2009

O coração, o céu e a terra


Não é um filme de guerra, mas nunca vi nenhum outro tão real e tocante sobre o Vietnam em guerra quanto Entre o Céu e a Terra (Heaven & Earth, Oliver Stone, 1993). É baseado em dois livros e na vida da vietnamita Le Ly Hayslip.
Não me lembro direito de Platoon, de 1986, do mesmo diretor, mas lembro de estar num ônibus em Nova York e de um senhor ao meu lado que falava muito, tinha estado na guerra e disse que Platoon era a descrição mais fiel do que ele tinha visto e vivido por lá. Se viu Heaven & Earth, deve ter se emocionado ainda mais.
Eu estava no meio de um texto falando sobre duas cidade, e do sentimento dividido quando você gosta muito de dois lugares, e não pode estar nos dois, quando vi esse filme, onde ele diz que as verdadeira batalhas e conquistas se passam é no coração das pessoas, e não aqui e ali. Não precisaria dizer mais nada, mas fez um belo e imperdível filme.

quinta-feira, 9 de julho de 2009

Mãe, olha o video!!


Divirtam-se com a homenagem, e de quebra,
com a cidade (que cidade...) no link abaixo.
(a mãe e sogra coruja prefere o casal no minuto 1'02!)



Colaboração: Luluca, from NY

sábado, 4 de julho de 2009

Gay Talese diz que imprensa matou Michael Jackson


O jornalista Gay Talese, convidado da Feira Literária Internacional de Paraty (Flip), afirmou que a imprensa matou Michael Jackson. "Acho que ele foi morto pela imprensa (...). Para mim, há cinco anos, Michael Jackson começou a ser envenenado pela imprensa", disse Talese.

Para o jornalista, a mídia cometeu abusos e noticiou como verdadeiras suposições sobre a vida do cantor. “Quero saber exatamente, em um texto compreensível, o que Michael Jackson fez. Simplesmente dizer que ele 'abusou' de alguém é pouco evidente. Lamento por Michael Jackson”.

Talese ainda reforçou sua opinião sobre o papel da mídia na morte do cantor. “A autópsia vai apontar ataque cardíaco ou qualquer outra versão oficial, mas ele vinha morrendo aos poucos há cinco anos, graças à humilhação imposta pelo desserviço de alguns jornalistas. Aqueles que noticiaram como verdadeiras as declarações de pessoas que teriam sido abusadas por Michael Jackson”, ressaltou Talese, conhecido como o “pai” do New Journalism.

As informações são do Estadão Online.
Site Comunique-se - Da Redação - 2/7/2009

29/06/2009 - 12:00

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Olhando a criança Michael Jackson
Por Villegagnon

Aparentemente as pessoas não perceberam a ligação do post com o acontecimento mais notável da semana: a morte de Michael Jackson.

A trágica vida do astro é o exemplo insuperável das consequências profundas de uma relação pai-filho degenerada.

Michael Jackson, durante toda a vida, lutou (de modo caótico, é evidente) contra o fantasma aterrorizante do pai. Esse homem de quem Michael, na infância, esperava proteção e afeto, mas que só lhe causou horror, medo e violência, foi uma sombra negra constante e determinante em sua vida.

Até mesmo a transformação física do cantor foi muito menos uma questão racial com implicações políticas (interpretação banal da maioria) do que uma profunda rejeição à figura paterna e a tudo que ele representava. A bizarra metamorfose foi fruto da imensa ojeriza que Michael Jackson sentia diante da possibilidade de se identificar ao pai. O problema não era uma rejeição à própria cor, mas uma rejeição absoluta, integral ao pai. Se o pai fosse louro, a transformação de Michael Jackson provavelmente teria sido inversa.

O evento da morte de Michael Jackson pode servir de gancho para que as pessoas façam uma reflexão mais profunda sobre a relação pais-filhos e sobre as relações adultos-criança de maneira geral. Que as pessoas entendam de que os adultos - epitomizados por pai e mãe - devem antes de tudo PROTEGER as crianças. E protegê-las não diz respeito apenas ao aspecto material, mas fundamentalmente ao aspecto afetivo, psicológico e moral.

A grande assimetria existencial entre adultos e criança traz embutido um imperativo, ao qual precisamos estar sempre atentos e com o qual devemos nos orientar: a proteção. Por isso, usar as crianças para sua própria satisfação (seja ela material, psicológica, egóica, erótica, ou qualquer outra) é uma covardia indesculpável.

Qualquer pessoa (pais e mães inclusos) incapaz de manifestar generosidade em relação às crianças ou que se relacione com elas primordialmente usando-as em benefício próprio, não têm a mínima moral para exigir um mundo melhor.

Por Ralf Rickli (pedagogo)
Acho que é NESTE contexto que devem ser lidas as palavras que Michael Jackson pronunciou na entrega do Grammy de 1993 (tradução minha de 61% do texto, contendo todas as idéias relevantes), e que - quando já se entendeu o real alcance de transformação social e história da mudança de nosso entendimento das crianças e de nosso trato com elas - talvez sejam um legado ainda mais importante que o artístico:

“… É bom ser lembrado como uma pessoa, e não uma personalidade. Como eu não leio tudo o que escrevem sobre mim, eu não tinha me dado conta de que o mundo me achava tão esquisito e bizarro. Mas se você cresce como eu cresci, na frente de cem milhões de pessoas desde os cinco anos, você é automaticamente diferente. ( … )

Minha infância foi tirada de mim por inteiro. Não havia Natal, não havia aniversários, não foi uma infância normal nem teve as alegrias de infância normais. Essas foram trocadas por trabalho duro, luta e dor - e mais tarde por sucesso material e profissional. Mas, como um preço terrível, aquela é uma parte da minha vida que eu não tenho como re-criar.

Hoje, apesar de tudo, eu me sinto como um instrumento da natureza quando crio a minha música. Fico pensando em que deleite a natureza deve sentir quando abrimos nossos corações e expressamos os talentos que Deus nos deu. Um som de aprovação rola através do universo, e o mundo inteiro se enche de magia. Maravilhamento preenche os nossos corações, pois tivemos um relance, por um instante, da ludicidade da vida.

E é por isso que eu gosto tanto de crianças e aprendo tanto de estar perto delas. Eu percebo que muitos dos problemas do nosso mundo hoje - da criminalidade urbana às guerras de grande escala e ao terrorismo, e às nossas prisões superlotadas - resultam do fato de crianças terem tido suas infâncias roubadas.

A magia, o encantamento, o mistério e a inocência de um coração de criança são as sementes da criatividade que irá curar o mundo. Eu realmente acredito nisso. O que nós precisamos aprender das crianças não é infantil. Estar com crianças nos conecta com a sabedoria mais profunda da vida, sabedoria que é onipresente e pede apenas para ser vivida. As crianças conhecem as soluções que jazem dentro dos nossos corações, esperando para serem reconhecidas.

Hoje eu quero agradecer a todas as crianças do mundo, inclusive as que estão em estado de doença e de carência - o quanto a dor de vocês me toca!”

http://colunistas.ig.com.br/luisnassif/2009/06/29/olhando-a-crianca-mickael-jackson/

quarta-feira, 1 de julho de 2009

We are the world, we are the people


Eu, como a maioria dos jornalistas da face dessa terra, passei a noite de quinta-feira e a última sexta às voltas com a morte do Michael Jackson. Arte é coisa de se admirar e respeitar, na medida da sensibilidade e do gosto de cada um. Li algumas críticas, felizmente poucas, à importância a que se deu ao fato.
Sou mais politizada do que me conviria ser, dedico mais tempo a leituras que me entristecem e preocupam mais do que as que me alegram. Temperamento, interesse pessoal. Cada um tem o seu.
Entendo que um político voltado para a assistência pública considere mais premente a necessidade de comida do que a de diversão e arte, a ordem está, evidentemente, certa.
Tudo bem que o Michael Jackson não seria conhecido apenas pelo seu talento, não fosse o marketing e o enorme interesse econômico em torno de tudo o que fazia. No entando, teria voado tão alto se não fosse o seu enorme talento? Quando vi um morador do morro Dona Marta - ou Santa Marta – dizer para as cameras, do alto da “Laje Michael Jackson”, onde o cantor gravou um trecho do clipe They don't care about us, que “infelizmente tinha que comunicar à sociedade que o cantor havia morrido”, como se fosse um membro da família, e ele seu porta-voz, acho que a falta de sensibilidade está em quem não consegue enxergar muito além do seu quadrado.
Não seria uma nova forma de escravidão exigir que os negros estejam condenados a levantar a bandeira da igualdade na frente até do impulso, da necessidade indiscutível que os artistas têm de transbordar a sua arte? Era um artista da alegria, da energia e da celebração, embora certamente não tenha tido para si a mesma cota do que irradiava. Era um ser atormentado, um freak sem tirar nem por, uma vítima da cobiça alheia e da mesma mídia que o idolatrava. Não deu conta nem da própria vida. Reacionário, não acredito que alguém tenha a coragem de acusá-lo de ter sido, a não ser por ignorância. As pessoas são o que são, não são o modelo em que alguns resolvem enquadrá-las. Cada um admira quem quiser. Eu quero – e voto pensando nisso - comida para todos. Mas idolatro a liberdade e cultuo a arte. E acho que escravidão já basta a que os ancestrais do Michael Jackson encararam. Ele já nasceu absolvido. Quem tem que se envergonhar e lutar contra ela somos nós, que até que um exame de DNA prove o contrário, somos prováveis descendentes de escravagistas.

segunda-feira, 15 de junho de 2009

No lucro


É preciso coragem, eu sei. Quem quiser que ria, ando mesmo pouco inspirada, posso estar ficando ainda mais boba com o tempo. O livro foi escrito em 1943 e deve ter sido mais moderno e original quando nasceu, mas recebi um trecho e achei tão lindinho que repito aqui. Como nem todo mundo leu, mas conhece a fama, pode ajudar a preencher uma falha em alguma cultura. E outro dia vi uma raposinha tão mansa e amigável, em pleno Parque Lage - coisas de uma cidade espremida entre o mar e a montanha - que pensei que O Pequeno Príncipe caiu em desgraça injustamente, foi vitimado pela preferência das misses, por ter agradado tanto. Eram tempos mais ingênuos, mas quem não tem um pouco de saudade de quando era mais ingênuo? Tempos de menos cobranças, e de menos...saudades.

“E foi então que apareceu a raposa:
- Boa dia, disse a raposa.
- Bom dia, respondeu o principezinho, que se voltou, mas não viu nada.
- Eu estou aqui, disse a voz, debaixo da macieira...
- Quem és tu? perguntou o principezinho. Tu és bem bonita...
- Sou uma raposa, disse a raposa.

- Vem brincar comigo, propôs o principezinho. Estou tão triste...
- Eu não posso brincar contigo, disse a raposa. Não me cativaram ainda.
- Ah! desculpa, disse o principezinho.
Após uma reflexão, acrescentou:

- Que quer dizer "cativar"?
- Tu não és daqui, disse a raposa. Que procuras?
- Procuro os homens, disse o principezinho. Que quer dizer "cativar"?
- Os homens, disse a raposa, têm fuzis e caçam. É bem incômodo! Criam galinhas também. É a única coisa interessante que fazem. Tu procuras galinhas?
- Não, disse o principezinho. Eu procuro amigos. Que quer dizer "cativar"?
- É uma coisa muito esquecida, disse a raposa. Significa "criar laços...”
- Criar laços?
- Exatamente, disse a raposa. Tu não és para mim senão um garoto inteiramente igual a cem mil outros garotos. Não passo a teus olhos de uma raposa igual a cem mil outras raposas. Mas, se tu me cativas, nós teremos necessidade um do outro. Serás para mim único no mundo. E eu serei para ti única no mundo...
- Começo a compreender, disse o principezinho. Existe uma flor... eu creio que ela me cativou...
- É possível, disse a raposa. Vê-se tanta coisa na Terra...
- Oh! não foi na Terra, disse o principezinho.
A raposa pareceu intrigada:
- Num outro planeta?
- Sim.
- Há caçadores nesse planeta?
- Não.
- Que bom! E galinhas?
- Também não.
- Nada é perfeito, suspirou a raposa.
Mas a raposa voltou à sua idéia.
- Minha vida é monótona. Eu caço as galinhas e os homens me caçam.
Mas se tu me cativas, minha vida será como que cheia de sol. Conhecerei um barulho de passos que será diferente dos outros. Os outros passos me fazem entrar debaixo da terra.
O teu me chamará para fora da toca, como se fosse música. E depois, olha! Vês, lá longe, os campos de trigo? Eu não como pão. O trigo para mim é inútil. Os campos de trigo não me lembram coisa alguma. Mas tu tens cabelos cor de ouro. Então será maravilhoso quando me tiveres cativado. O trigo, que é dourado, fará lembrar-me de ti. E eu amarei o barulho do vento no trigo...
A raposa calou-se e considerou por muito tempo o príncipe:
- Por favor... cativa-me! disse ela.
- Bem quisera, disse o principezinho, mas eu não tenho muito tempo. Tenho amigos a descobrir e muitas coisas a conhecer.
- A gente só conhece bem as coisas que cativou, disse a raposa. Os homens não têm mais tempo de conhecer alguma coisa. Compram tudo prontinho nas lojas. Mas como não existem lojas de amigos, os homens não têm mais amigos. Se tu queres um amigo, cativa-me!
- Que é preciso fazer? perguntou o principezinho.
- É preciso ser paciente, respondeu a raposa. Tu te sentarás primeiro um pouco longe de mim, assim, na relva. Eu te olharei com o canto do olho e tu não dirás nada. A linguagem é uma fonte de mal-entendidos. Mas, cada dia, te sentarás mais perto...
No dia seguinte o principezinho voltou.
- Teria sido melhor voltares à mesma hora, disse a raposa. Se tu vens, por exemplo, às quatro da tarde, desde as três eu começarei a ser feliz. Às quatro horas, então, estarei inquieta e agitada: descobrirei o preço da felicidade! Mas se tu vens a qualquer momento, nunca saberei a hora de preparar o coração... É preciso ritos.
- Que é um rito? perguntou o principezinho.
- É uma coisa muito esquecida também, disse a raposa. É o que faz com que um dia seja diferente dos outros dias; uma hora, das outras horas.
Assim o principezinho cativou a raposa. Mas, quando chegou a hora da partida, a raposa disse:
- Ah! Eu vou chorar.
- A culpa é tua, disse o principezinho, eu não queria te fazer mal; mas tu quiseste que eu te cativasse...
- Quis, disse a raposa.
- Mas tu vais chorar! disse o principezinho.
- Vou, disse a raposa.
- Então, não sais lucrando nada!
- Eu lucro, disse a raposa, por causa da cor do trigo."

terça-feira, 9 de junho de 2009

Apetite por Paixão


“Pessoas comuns, no mundo inteiro, usam ditos populares para expressar sua sabedoria. Frequentemente faço uso deles porque encerram grandes verdades universais. Um que ficou muito conhecido, é “Como água para chocolate”. Outro dos meus favoritos é “Amor com amor se paga”. Nada mais verdadeiro. A única medida de valor para o amor é o próprio amor, nem o ouro, nem plumas de quetzal, nem pedras preciosas. O valor do amor está acima de todos os outros, e tudo que vale a pena é realizado com amor.
Desde que foi concebido, Como Água para Chocolate esteve rodeado de amor. Sua gestação começou muito antes da idéia central me ocorrer, começou quando recebi meu primeiro alimento, dado com amor.
Foi com a intenção de dar ao amor transmitido no ato de cozinhar a apreciação que ele merece que escrevi meu primeiro romance. Como Tita em meu livro, estou convencida de que podemos impregnar a comida com emoção, assim como qualquer outra coisa a que nos dediquemos. Quando esta carga afetiva é poderosa, é impossível que passe desapercebida. Os outros podem sentir, podem tocar, podem apreciar. Confirmo isso a cada dia que passa. Escrevi meu romance com amor. Meus agentes, meus editores, meus tradutores, distribuidores sentiram isso, partilharam isso comigo e contagiaram os outros. Este livro é o último elo desta corrente de amor. E estou mais do que satisfeita com o “pagamento”que o meu trabalho tem recebido.
So posso agradecer a todos, presentes e os ausentes, vivos e mortos, que colaboraram com o seu ar, sua terra, seu fogo e sua água para o cozimento deste “apetite por paixão”. Este livro me reconcilia com a crença de que, em se tratando de amor e de cozinha, não existem fronteiras. Cada refeição que eu tive, as pessoas que me acompanharam e a maneira de comer tem determinado quem eu sou. Seguindo este curso, tenho que reconhecer que pelas minhas veias corre uma certa dose de Coca-cola.
Explico: a familia da minha mãe é de Piedras Negras, na fronteira setentrional do México. Para mim, Piedras Negras começava no estado de Coahuila e terminava em San Antonio, Texas. Eram limites bem extensos, pelo menos assim me pareciam. Sendo uma menina, eu não tinha nocão de geografia. Essa idéia de que desta árvore para lá é outro mundo, não me entrava na cabeça. Tudo o que eu sabia era que havia lugares em que eu me sentia em casa. Precisei passar vários anos na escola para aprender que existem coisas como fronteiras e rejeição entre dois povos. A cada ano, minha familia viajava da Cidade do México até San Antonio, no Texas, para visitar parentes. No caminho, sempre parávamos para ver uns amigos em Piedras Negras. Em cada lugar, a magia se repetia: alquimia na cozinha, o ritual da mesa, a poderosa transferência de amor através da comida. A única diferença que havia era que, se em Piedras Negras devorávamos tortillas de farinha, carne desfiada com ovos, e doce de leite com nozes, em San Antonio eu me regalava com roscas cobertas de açúcar e Milky Ways. Por outro lado, como Ariel Dorfman e Armand Matterlart ainda não tinham escrito “Como Ler o Pato Donald”, eu não tinha indigestão lendo as revistinhas de Walt Disney na viagem.
E assim, os anos foram passando e meus conhecimentos de geografia, aumentando. Fiz notáveis avanços. Em pouco tempo entendi que Piedras Negras não chegava até San Antonio. Que uma cidade estava nos Estados Unidos e a outra no México, havia uma fronteira entre elas, e mais, a cultura dos Estados Unidos pouco tinha a ver com a cultura mexicana. Não importava se a cada noite de sábado minha irmã e eu organizávamos festas onde servíamos sanduíches e Coca-colas, dançavamos rock and roll e mascavamos chicletes. Nós tinhamos explicação para tudo: os sanduíches eram uma variação das tortas e as tortas eram mexicanas - ponto final. Nosso gosto por chicletes vinha dos astecas. Muito antes da chegada dos espanhóis, os indios mascavam chapopote. O rock and roll não tinha nada de mal, além do mais, era um fenômeno mundial e Coca-cola...bom, se ela tinha sido criada para fins medicinais, bebê-la só poderia fazer muito bem para nós.
E os anos continuaram passando e meus conhecimentos de geografia, aumentando. Aprendi onde era o Vietnam e que estava dividido em dois. Soube que meu primo em San Antonio tinha sido convocado pelo exército. Foi quando a Coca-cola começou a parecer amarga para mim. Aprendi que ela destrói o esmalte dos dentes e faz mal à saúde. Passamos a chamá-la de “água negra do imperialismo ianque”. Parei de bebê-la, tinha medo que transmitisse o horror da guerra. Felizmente, os hippies apareceram no meu mapa geográfico. Aprendi onde ficava a Universidade da Califórnia em Berkeley e o que estava acontecendo lá. No México, nós jovens, também fomos para as ruas distribuindo flores, ouvindo Joan Baez, rindo e celebrando o amor livre e pensando que o nascimento do “Novo Homem” era possível. Nós acreditávamos que podíamos mudar o mundo, mas não mudamos. Passei muito tempo me perguntando qual teria sido o erro.
Por que foi que nenhuma das revoluções em que tomamos parte conseguiu favorecer o surgimento desse novo Novo Homem? Para onde teriam ido todos os hippies? Joan Baez ainda continuava cantando? Onde estavam os filhos de Woodstock?
O sucesso do meu romance me deu as respostas. Por causa dele eu viajei pelas Américas e concluí que não era a única pessoa preocupada em estabelecer uma nova relação com a terra, com o universo, com o sagrado. Muitas outras pessoas tinham descoberto que a nova revolução iria germinar nos corações, nos ritos, nas cerimônias. Muitas pessoas estavam tentando desesperadamente substituir os valores materiais pelos espirituais. Muitos mantiveram o poder de fogo em suas almas.
Não existem fronteiras! É mentira que uma linha divisória possa separar um povo de outro povo. É mentira dizer que os hippies cantaram em vão - eles deixaram a semente. É mentira que os norte-americanos não comem chili e feijão - eles adoram. É mentira que nós mexicanos não comemos hamburgers - nós comemos com gosto, só adicionamos um pouquinho de pimenta.
Agora eu sei que a esperança ainda existe, que o Novo Homem está a caminho, vai ser uma pessoa completamente ignorante em geografia, não vai se importar em saber de que lado da linha está o chão que ele pisa, vai ter tanto prazer comendo uma tortilla quanto bebendo uma Coca-cola, porque vai saber que não é o que está ingerindo que importa, mas sim que está participando de uma cerimônia que o remeterá à sua origem cósmica, que vai muito além do étnico. Porque se considerarmos as origens, nós mexicanos somos filhos do milho, e os norte-americanos têm comido pipoca o suficiente para serem considerados nossos parentes."

Este prefácio (abreviado aqui) foi escrito por Laura Esquivel para o livro Apetite por Paixão, traduzido por mim do inglês para o português e editado pela L&PM Editores em 1995.

sábado, 6 de junho de 2009

Viajar


Do escritor holandês Cees Noteboom, perguntado se acredita que, hoje em dia, com a globalização, as viagens se tornam muitas vezes previsíveis, com pessoas que se parecem cada vez mais:

“Viajar, o jeito que cada um viaja, depende do indivíduo. Eu não ligo para turismo de massa. Se você realmente quer viajar, tome seu tempo, vá para um determinado lugar neste globo, vá ao ponto de ônibus, pegue qualquer ônibus – você verá que as pessoas NÃO são todas iguais, que o mundo é um lugar muito maior do que imaginou. Viajei por caminhos de peregrinação no Japão – a peregrinação de Saigoku – e nas fronteiras do Saara: são lugares que não têm muito em comum. O previsível de que fala é um conto de fadas inventado por jornalistas que não saem de casa. Tudo depende de si mesmo, e nem se trata de uma questão de dinheiro, como se pode ver pelos mochileiros que enfrentam dificuldades em viagens pela América Latina.
(em entrevista a Rachel Bertol para o caderno Prosa e Verso, do jornal O Globo, publicada em 28 de junho de 2008.)

terça-feira, 2 de junho de 2009

Revelações


A historinha abaixo me foi mandada pela amiga Jussara num momento curioso em que ando empenhada em descobrir não a história, coisa que pessoas mais habilitadas já fizeram, mas o espírito da minha família. Estou atrás da minha herança genética, na falta de outra, que se houvesse, talvez eu não estivesse aqui, estaria gastando por aí... pelo menos até agora não descobri nenhum ladrão de cavalos.

Judy Wallman é uma pesquisadora na área de genealogia nos Estados Unidos.Durante pesquisa da árvore genealógica de sua família deu de cara com uma informação interessante. Um tio-bisavô, Remus Reid, era ladrão de cavalos e assaltante de trens. No verso da única foto existente de Remus (em que ele aparece ao pé de uma forca) está escrito: "Remus Reid, ladrão de cavalos, mandado para a Prisão Territorial de Montana em 1885, escapou em 1887, assaltou o trem Montana Flyer por seis vezes. Foi preso novamente, desta vez pelos agentes da Pinkerton, condenado e enforcado em 1889."

Acontece que o ladrão Remus Reid é ancestral comum de Judy e do senador pelo estado de Nevada, Harry Reid. Então Judy enviou um email ao senador solicitando informações sobre o parente comum. Mas não mencionou que havia descoberto que o sujeito era um bandido.

A atenta assessoria do Senador respondeu desta forma:
"Remus Reid foi um famoso cowboy no Território de Montana. Seu império de negócios cresceu a ponto de incluir a aquisição de valiosos ativos eqüestres, além de um íntimo relacionamento com a Ferrovia de Montana. A partir de 1883 dedicou vários anos de sua vida a serviço do governo, atividade que interrompeu para reiniciar seu relacionamento com a Ferrovia.
Em 1887 foi o principal protagonista em uma importante investigação conduzida pela famosa Agência de Detetives Pinkerton. Em 1889, Remus faleceu durante uma importante cerimônia cívica realizada em sua homenagem, quando a plataforma sobre a qual ele estava, cedeu."