quinta-feira, 30 de abril de 2009

A resistência


Papéis resistem. Tem garras, e proliferam. Antes eram pastas de documentos que hoje são quase históricos, quem sabe um dia virarão um livro. Idéias de pauta, fotos bonitas (guardadas, como a mãe fazia, para trabalhos de escola), lembranças, informações para matérias. Documentos de processos que um dia encontrarão solução. Ou a lixeira.
Receitas culinárias, um armário à parte. Agora surgiu ao lado da cadeira do computador uma mesinha, já com pequenas pilhas de coisas fundamentais, idéias para desenvolver, que me olham pelo lado direito. Gosto de me informar sobre o que me interessa, sobre o que acho que importa, ou o que importa é só o que está previsto que eu faça? É preciso ser equilibrista, de circo mesmo, ou mais forte ainda, para acomodar tudo. E conseguir avaliar o quanto o mundo nos empurra sem andarmos com os nossos próprios pés e pelos caminhos que escolhemos.
Não é justo nem produtivo lamentar o que já foi trilhado, nem se desentender com a própria cabeça, mas a vida pede mais simplicidade e frugalidade à medida em que nosso tempo fica mais curto. E tudo pede tempo, que quanto mais passa, menos sobra. Focar não é palavra imperativa agora? Passar a limpo, ficar compacta, leve e objetiva. Numa cabeça livre, quem sabe só entra o que a gente quer? A palavra que me vem nem som bonito tem, mas rede é a sensação que me envolve nesse momento, uma rede para descansar, junto com a rede para me jogar como faço aqui. O pensamento, por ironia, me trouxe mais uma dualidade, dois mundos antagônicos numa só palavra. Nada de novo aqui no litoral.
Não sei, mas já desconfio que a mudança está no jeito de olhar e de andar, mais do que na mudança em si. Vou conseguir ser única, sábia – ou mesmo sabida - inteira e compacta um dia? Mudança é desapego. Contatos e anúncios de apartamento já formavam uma pilha na mesinha ao lado antes de irem para o lixo. Serviram, no entanto, para revelar que o que eu quero não está anunciado, mas mesmo assim vou encontrar.
Nessa rede tão absorvente que abracei nada se paga, só a satisfação é garantida, quem milita aqui costuma ainda ganhar um olhar de viés - como se o mundo real passasse por um criterioso controle de qualidade - vindo dos especialistas estabelecidos e chancelados – que também se servem da rede, vale lembrar.
Como tudo que há nesse mundo, seja na feira ou na rede, é preciso saber escolher.
Feito o poeta Gentileza, que espalha seus escritos gentis pela cidade, gostaria de dar aqui a minha contribuição em alegria, mesmo que as vezes ela seja escassa até para consumo próprio. Para bem viver, além de determinação, imaginação e talento, é preciso ter coragem para vencer o medo do abismo entre perder e ganhar. E poder contar com o auxílio luxuoso de uma rede – ou das duas.

sábado, 18 de abril de 2009

Ao léu e ao mar


Vivo às voltas com idéias, e com a desventura de ver a maioria delas não aproveitada. Quem trabalha em televisão e lida com grandes audiências sabe: é preciso que a pauta seja abrangente, interesse a muita gente, minorias são o terror, não há a menor hipótese de ver aprovada uma pauta de interesse restrito. A televisão não quer saber se a unanimidade é burra, como dizia Nelson Rodrigues: seu sonho de consumo é a unanimidade. Mesmo não me achando burra, algumas relações nessa área eu jamais entenderei. Se falamos para o mundo falando do nosso quintal, como posso aceitar essa busca tão generalizada? Se grandes audiências atraem patrocinadores que querem vender o seu peixe, por que é que são os números que contam, e não a faixa de maior poder aquisitivo, mesmo que em número menor? Desconfio que se fossem destrinchados a fundo os resultados das pesquisas de audiência, da captação às consequências, muita coisa mudaria no mundo da tela pequena. Não acho que estão interessados em discutir isso, nem a televisão nem os institutos de pesquisa, e certamente a minha lógica só vai servir para encher algumas linhas nesse blog.
Outro mistério para mim era o trabalho em um escritório internacional, onde fui cobrir férias, faz muito tempo, apreensiva e animada. Tratei de caprichar nas idéias, escrever, imprimir e levar – a comunicação virtual ainda engatinhava, de modo que fui para lá com tudo muito bem organizado e impresso.
Foram acolhidas com entusiasmo, eram mesmo interessantes e originais, me disseram, mas foram para a gaveta, e de lá para a minha gaveta, onde as encontrei um dia desses. O Brasil só queria saber do que já se sabia – no Brasil! Seria então necessário um escritório internacional, se as pessoas só se interessam pelo que já sabem?
Na primeira redação de jornal em que trabalhei, poderia ter aprendido que criatividade nem sempre imprime. Às vezes, as pautas só se sustentam na imaginação do pauteiro. Lembro de uma que enlouqueceu o repórter encarregado de voltar com a matéria: observar a boca de fumo que tinha sido denunciada, “ver” policiais fazendo vista grossa e, com sorte, flagrar algum pagamento de propina. Nunca poderíamos imaginar como se tornaria corriqueira uma cena que na época parecia ficção. Jornalista de televisão teria ainda muito mais dificuldade para contar essa história, já que se espera que ele conte com imagens. Os chavões e as lendas: “papel aceita tudo”, no caso do jornalismo escrito, e “uma imagem vale mais que mil palavras”. Sei não. Guardamos melhor o que vemos ou o que imaginamos?
Algumas idéias vem, voltam, mas nunca acontecem. A mais antiga que lembro é um programa sobre vida de marinheiro. Consegui o contato de um velho e lendário comandante. Uma das histórias que soube dele era de que abastecia o navio de cerveja vindo da Europa e quando atracava em um porto da Bahia, o navio virava o maior bar de que se tinha notícia. Perguntei se poderia ir a casa dele para conversar, pensando nas fotos que poderia ter. Estranhei a negativa, mas ele completou: - “É pelo decoro, minha filha. Eu moro só”. Conversamos então no Bar Simpatia, na Avenida Rio Branco, famoso por seu delicioso frapée de côco. Nada disso existe mais, o comandante, o Simpatia, o frappé de côco e o decoro.
Os blocos e a cabeça de um repórter são uma colcha de retalhos, uma “lousa mágica”, brinquedo que eu tinha em criança: escrevia, apagava, escrevia por cima – uma espécie de bisavó do computador. A cola da memória é o sentimento que envolve cada coisa que fazemos.

sábado, 4 de abril de 2009

Limbo


A primeira, Nossa Senhora da Conceição da Gávea, eu via da janela, ao longe, antes da especulação imobiliária. E ouvia o som agradável e familiar dos sinos. Mesmo não sendo muito católica, gosto dos salões frescos, silenciosos e vazios. É como eu mais conheço as igrejas, já que não sou assídua em igrejas cheias. Meu pai, que viveu a experiência de ter estudado em colégios de padres, não permitiu que eu fosse para um colégio de freiras, e com isso contribuiu para a minha desconfiança, já no tempo em que me escolheram para me vestir de anjo nos domingos de maio cantando para a Virgem Maria. Para mim era teatro, fantasia e aventura, porque era bem alto o tal do morro da Virgem no altar da Matriz de São José de Itaipava. Tinha esquecido completamente dessa passagem exótica da minha vida, lembrei outro dia, ouvindos os sinos da Santa Margarida Maria, a igreja que tenho ao lado.
Só quem nasceu, ou morou um tempo - o meu caso - em lugar pequeno ou cidade do interior sabe o que é isso, e mais: desfilar nas paradas de Sete de Setembro para ganhar um ponto na média - eu estava sempre precisando de um, que nem tudo me condena nesse passado em que além de anjo fui também bandeirante, e ainda por cima gostava de ser. E paro por aqui as confissões, lembrando que confessar de verdade, tinha que confessar toda semana, para comungar na missa de domingo, e era uma tortura porque eu tinha vergonha da minha falta de pecados, ou dos pecados que achava adequados para confessar. Sempre a mesma ladainha e as mesmas ave-marias de penitência.
Mais tarde, minha mãe ficava triste porque não tinha conseguido passar sua fé para nenhum filho, e como uma incansável guerrilheira às avessas, planejava juntar todos os netos e fazer um batizado coletivo, plano que nunca deu certo. Ela acreditava em limbo, para onde iam as crianças pagãs, e não queria os netos ali. Os fantasmas e os medos que a Igreja cria.
Adulta, lembro de entrar e rezar, em momentos de desalento, quando percebi que devia começar tratando de confiar em mim antes de buscar ajuda divina.
Inquisição, excomunhões, sonsas sacristias, guerras de poder, interesses nada cristãos, posturas arcaicas e reacionárias, fomos aos poucos conhecendo tudo isso, mas minha mãe estava enganada, tanto pela fé quase ingênua na santidade da Igreja, por conta dos bons exemplos que conheceu, quanto por duvidar da fé dos filhos, que mesmo pouco ortodoxa, existe. Da minha parte, acredito tanto na intensidade da fraqueza dos seres humanos, com votos de celibato e castidade ou não, quanto no poder de uma energia boa. E quando vejo grande estardalhaço da mídia envolvendo assuntos religiosos, muitas vezes desconfio de um interesse velado em desmoralizar, com casos particulares, um lado da Igreja que luta, acolhe e prega ensinamentos até hoje revolucionários. Minha memória emocional, no entanto, passa ao largo do céu e do inferno, os sinos para mim ainda conseguem dobrar em paz.


- as fotos são da Igreja Santa Margarida Maria, na Lagoa (clicar para ampliar).

sexta-feira, 3 de abril de 2009

Bandeira


Fotografei essa bandeira no Museu Histórico. A bandeira da Inglaterra, se não me engano, foi a primeira a virar toalha e biquini. Vivemos tempos, e não faz tanto tempo assim, em que isso por aqui era impensado, de tão proibido. O símbolo nacional deveria ser respeitado e reverenciado a qualquer custo, mesmo que a vida humana não fosse, isso era mero detalhe. Talvez por conta dessa lembrança recente tenhamos um certo pudor com qualquer atitude patriótica, qualquer sentimento de orgulho que envolva o nosso país. Fora dele, no entanto, é absolutamente comum ver brasileiros querendo ser identificados como tal, com bandeiras, bonés, especialmente em eventos esportivos. Somos terrivelmente críticos numa direção estranha. Já eu, prefiro as pessoas aos países, e me interessa mais a cultura do que os símbolos patrióticos porque através delas você conhece e entende os sentimentos humanos. Mas depois de morar fora e ter inveja do patriotismo alheio, de olho comprido com um sentimento de orgulho que eles tinham mas que eu achava que eu não podia ter pelo meus país, concluí que a culpa era minha, e que esse sentimento não se choca com espírito crítico e com o desejo de viver num país mais justo. Nada a ver com conformismo ou tolerância. Só um ligeiro espírito de torcida. Talvez eu não escolhesse essas cores, mas são cores fortes: hoje, acordei em paz com a minha bandeira. Afinal, um país é um conjunto de tudo, sua gente, sua cultura, suas crenças e esperanças, e a bandeira é o símbolo de tudo isso. Quem conseguir fazer com que o povo se sinta um pouco mais em casa dentro da sua própria casa, talvez faça mais por ele até do que subindo os índices econômicos de que os jornais tanto tratam (queremos e merecemos os dois!). Querer mais e melhor não significa não poder festejar o que se tem, pelo contrário, eu penso: se você gosta, e gosta de verdade, quer mais, e melhor. Acho que já escrevi aqui que alegria é destino e é determinação – prefiro sempre o caminho mais alegre e esperançoso, e menos rancoroso. Devo ter sido mesmo feliz em alguma encarnação.

terça-feira, 31 de março de 2009

Dois mundos


Uma amiga que morou recentemente na Índia me deu uma informação curiosa e surpreendente, que parecia não bater com a que li e escrevi outro dia. O livro “O Tigre Branco”, do indiano Aravind Adiga, premiado e best seller no resto do mundo, fracassou na Índia, mas é o primeiro caso que conheço de best- seller- pirata, oferecido e vendido nas esquinas de Mumbai. Achei estranho, mas depois de pensar por alguns minutos, acho que entendi: ele foi um fracasso de vendas na Índia que tem dinheiro para comprar livros, da classe média alta para cima, a Índia da Luz, mas estava fazendo o maior sucesso entre os habitantes do mundo que ele retrata, a Índia da Escuridão, como ele divide no romance. Faz sentido.

segunda-feira, 30 de março de 2009

Procuras


- “Oi vadia!”
- “Oi cachorra!”
Quando duas moças se cumprimentam assim, conforme entreouvido por aí, alguma coisa está mudada. Mas pode ser que nem tanto quanto parece. Cariocas têm uma informalidade e um humor meio peculiares, que podem atiçar a imaginação além da conta.

- “Minha mãe dizia: nada de moça de segunda a quinta. E os dias “nobres” ficam para a farra? Nada disso!”
Aí, acho que os tempos mudaram, sim, a “farra” a que essa mãe se refere perdeu um pouco o sentido hoje. Mas não todo.
- “Rachar a conta no restaurante? E na primeira vez? Se acontece comigo, vai ser uma vez só. Se não pode, não convida".
- "Rachar motel?? Jamais! Mas conheço quem racha. Estão mesmo folgados.”
- “O cara liga e diz: Vem pra cá! Você pega o seu carrinho, ou pega um taxi! E vai para a casa dele! F - - - delivery! Se você pensar, valemos menos que uma prostituta. Ele tem todas as facilidades e não tem que pagar. Sou formada, tenho MBA, emprego. Não é complicado isso?”.
Céus...
Outra pessoa da turma comentou: "Vivemos numa sociedade falocrata". Não ajudou muito a constatação. Mas serviu para me lembrar que alguns meninos que eu conhecia eram acordados pelas mães todas as manhãs com café na cama. Pode dar certo?
A conversa (não o cumprimento acima!) é entre moças novas, bonitas, saradas, formadas, batalhadoras, da zona sul do Rio de Janeiro. Não sei o que dizer nem o que pensar, a única coisa que me ocorre é que pessoas são únicas, gente não é gado, e belos encontros acontecem e acontecerão. Talvez o problema seja mais demográfico do que de qualquer outra natureza.
Pensei também que eu não teria a menor chance nesse mundo, em nenhuma fase ou idade.
A conversa estava boa, mas voltei a me concentrar no pilates. Meia hora de bicicleta antes, e as indispensáveis caminhadas na Lagoa. É bom fazer alguma coisa por nós. Sem pressão, apenas seguindo um caminho bom. Depois de uma temporada de suco verde, a dieta da sopa...e quem sabe um tal regime japonês. Se os índios contam as luas, por aqui contamos os verões. O seguinte não vai ser igual a esse que passou.
Suspeito que cuidando do corpo – e ele responde! - a cabeça melhora. São difíceis os encontros. Estar de bem conosco já garante a metade.
Abri uma revista e li a Dilma falando sobre “ficar”, e pensando na filha:
- “... nós mulheres estamos danadas...porque esse negócio de ficar não funciona bem para as mulheres...a gente precisa de uma certa sedução, de corte, do processo da conquista. Não pode ser aquele sincericídio horroroso que há no ficar”.
É.
Não acho que o passado era mais feliz, acho só que a vida com regras mais definidas era mais simples.
Minha torcida aqui pelas meninas.

segunda-feira, 23 de março de 2009

O país dos milionários


“Slumdog Millionaire/ Quem Quer Ser Um Milionário”, ou cão de favela milionário, traduzindo ao pé da letra, não lota os cinemas indianos. No início das sessões, como é hábito no país, o público se levanta e canta o hino nacional. O filme, que ganhou oito Oscar, é discutido na Índia em programas de televisão, mas lá ele perde porque fere o orgulho nacional da classe média ascendente indiana.
E tem o mesmo destino de um livro muito bom, que é um best seller mundial. “O Tigre Branco”, de Aravind Adiga, conseguiu ganhar o Booker Prize em Londres, foi traduzido para mais de 30 línguas, mas na Índia não só foi arrasado pela crítica como é um fracasso de vendas.
Como corda em casa de enforcado, é fácil de entender que o terceiro mundo seja muito sensível aos seus problemas. Não se trata disso, aqui. Indignação e ofensa por ver suas desigualdades e injustiças expostas, em vez de querer discuti-las, é a incompreensível contribuição para a perpetuação delas – avareza e egoísmo são comportamentos conhecidos, o que não quer dizer compreensíveis ou aceitáveis.
A verdade é que houve na Índia, em 2000, um milionário como o do filme.
Harshvardhan Nawathe, conhecido pelo apelido de Harsh em seu país, como conta uma matéria do Der Spiegel, é o personagem de verdade do filme. Ele foi o primeiro e único até hoje a vencer a versão indiana do nosso “Show do Milhão”. Ele não era como as crianças da favela, sua família era bem modesta mas cuidou dele.
Reconhecido nas ruas e muito mais popular do que o filme “de Hollywood” por lá, ouvia do pai policial, que trabalhava no combate à corrupção, muitas histórias de fraudes, evasão fiscal e também a leitura do “Mahabharata”, o épico heróico ancestral da Índia. Sua mãe o convenceu a se candidatar porque quando assistiu o programa viu que ele sabia todas as respostas. Ganhou 10 milhões de rúpias, quase 200 mil dólares, assistido por 350 milhões de pessoas, um terço da população indiana.
Durante um ano ele recebeu cartas, pedidos de autógrafos, de doações, de casamento. O pai já estava aposentado há sete anos, mas mesmo assim corriam histórias de que teria subornado o apresentador, que esteve envolvido em um escândalo de impostos na época.
O menino foi usado, assediado, transformado em marca, era muito educado para recusar as propostas, ficou num primeiro momento seduzido com a fama, mas não perdeu a cabeça. Até hoje existem oito shopping centers em Mumbai com o seu nome. Passou por uma depressão, mudou-se para Edimburgo, onde conseguiu um MBA com louvor, pediu à mãe – bem ao estilo indiano - que encontrasse uma mulher que soubesse lidar com o mundo de Bollywood mas não se deixasse levar por ele. Casou-se com uma ex-atriz de novela, cuida de um filhinho de quatro meses, trabalha com crianças de uma favela de Mumbai, como gerente de uma ONG indiana que garante professores, livros, aulas de informática, até que as crianças se formem.
No momento está empenhado em conseguir doadores para que a fundação aceite mais oito mil crianças em seu programa de apoio. Vive uma vida discreta, cuidando da família e do trabalho.
Talvez sua história tenha inspirado o livro “Rupees! Rupees!”, no qual o filme é baseado. Ele não sabe, porque o autor, um diplomata indiano, nunca fez contato com ele. Nem o diretor do filme.
De qualquer forma, acho que a vida se saiu aqui ainda melhor do que a arte.

terça-feira, 17 de março de 2009

O papel da mídia


Não é o de embrulhar peixe.
Como passei minha vida profissional sempre em alguma redação, posso dizer que até hoje não existe ( mesmo para as pessoas de boa fé ) clareza, definição e certeza suficiente sobre o limite entre cobrir ou não cobrir, ser afoito ou ser furado, brigar por audiência sem atrapalhar, prejudicar, invadir ou até acabar com a vida de quem está, em última análise, nos ajudando a ganhar a nossa.
São muitas as questões, e muito, muito poucas as discussões. Existem certamente no meio acadêmico, em sites e blogs, em alguns sindicatos, talvez, e onde mais seja será sempre em escala muito menor do que entre a massa que exerce o ofício de falar ou escrever para muitos leitores.
O Brasil está longe de estar pronto, é um país apenas remexido. Formação mais acurada se dá em áreas mais técnicas, onde ela é absolutamente essencial. Fora disso, estamos sempre meio atrasadinhos, o que é agravado pela cultura, tão arraigada, de desconfiar de transformações significativas. São bem aceitas por aqui novidades aparentes, que retardam mudanças radicais. O país parece sempre em movimento, mas a moda muda sem mudar na essência. Todos aceitam que precisamos mudar, mas que há pouca esperança de que isso aconteça. Os problemas são sempre os mesmos, as pessoas são todas farinha do mesmo saco - disseminar a crença de que por aqui nada muda é o melhor caminho para se deixar tudo como está.
O curioso é que passamos por uma mudança bem radical nas duas últimas eleições. Não é pouca coisa, em um país de eternas capitanias hereditárias, eleger um ex-operário.
Como não é qualquer país do primeiro mundo que elege um presidente negro. Mas lá, a comemoração se dá mesmo por quem não espera grandes mudanças, mas é capaz de ver a última eleição americana como um marco histórico e redentor de muitas injustiças do passado e do presente. Aqui, mesmo quem teme grandes mudanças, há de concordar que o Brasil é um país de grandes desigualdades, e que seria melhor para todos que elas fossem menores. Mas nunca vi por aqui o sentimento de que só o fato de elegermos por duas vezes um ex-operário merece comemoração porque já é em si um fato histórico, digno, sim, de ser comemorado, independente de ser ou não ideal, de se gostar do eleito. Falo do fato em si.
Estou falando, repito, de pessoas de boa fé. As de má fé sabemos o que querem.
Acho que nos falta grandeza. Sem perceber, somos dominados pela cultura da “farinha pouca, meu pirão primeiro?” Ou levantamos, sem pensar ou reagir, a bandeira de quem pensa assim? Por que se reage com mais indignação contra erros de Português do que contra denúncias de corrupção pesada com dinheiro público, que poderia estar sendo usado na saúde, por exemplo? Menos dinheiro na saúde não pode ser responsável por falta de assistência e morte?
Parar para pensar - jornalistas trabalham com a cabeça, mas parece que a sombra do período autoritário não se foi quando passamos a eleger presidentes.
Posso não ter sabedoria suficiente, mas esperança não me falta. Já que lembrei um ditado, prefiro ficar com o “água mole em pedra dura, tanto bate...”. O problema é o tempo que leva, e o que se perde nessa estrada, mas tenho esperança de ver minha profissão encarada com mais cuidado, mais seriedade, mais questionamentos, e uma melhor compreensão do seu alcance. O Brasil vendeu mais carros, mais computadores, mais eletrodomésticos nos últimos anos. Vendeu mais jornais? Subiu a audiência dos jornais de televisão? Isso precisa nos preocupar, e sinceramente. Porque escolhas erradas, insinceras ou desconectadas podem resultar numa perda assim como a da galinha dos ovos de ouro.

sexta-feira, 13 de março de 2009

Flora brasiliensis


O Rio tem mais um ipê, plantado hoje pelo príncipe Charles no Jardim Botânico.
O da foto é particular, espremido nos fundos de vários prédios - de vez em quando acontece, na janela da área, essa explosão amarela.
Não tenho jeito com a fauna, muita simpatia mas pouca intimidade com cachorros, não curto muito gato.
Isso um dia preocupou minha filha, que felizmente achou que a flora poderia ser minha redenção. Para ela, quem não gostava de bicho não tinha bom coração, mas já que eu gostava tanto de planta, calculou que isso poderia compensar.
Fui salva dessa vez. As mulheres más ficaram restritas aos filmes noir.
A gente quer comida, diversão e arte.
Respeito, igualdade, trabalho, educação.
Tudo de bom...e um mundo florido também.
Por que não?

domingo, 1 de março de 2009

No escuro


O filme “Call Northside 777”, de Henry Hathaway é de 1948.
O título no Brasil não conta: “Sublime Devoção” – esse tem a desculpa de ser de outro tempo, mas desde sempre, títulos que os filmes estrangeiros recebem aqui são uma história à parte. Títulos disparatados, ligeiramente ridículos ou, o que é pior, completamente reveladores, não devem ser surpresa para espectadores atentos. Já ouvi muitos casos risíveis de títulos em Portugal, mas não passam de mais piadas de português: "Psicose" em Portugal NÃO se chamou “O Filho que Era Mãe”! Chamou-se "Psico". Rimos, mas como é de praxe, não olhamos para o nosso umbigo.
Que tal “o Homem que Burlou a Máfia”("Charley Varrick" no original, EUA, 1973)? Será que é preciso ver o filme, depois de ler esse título? Esse não é piada. “Os Brutos Também Amam”, para “Shane”: mais um pouco e vira redação de escola.
Bom, voltando ao filme em questão, eu vi hoje um filme de sessenta anos atrás, diferente dos que de vez em quando vejo na tela aqui de casa. Reclamo da maioria dos filmes dessa época, especialmente dos filmes “noir”, que a wikipedia classifica como "filmes de um mundo cínico e antipático", e eu classifico como “filmes de mulher má”. Tem sempre uma mulher bem má na história, sórdida, pérfida, para desgraçar ou enlouquecer homens que podem não ser tão bons mas têm mais boa fé. Isso me deixa meio revoltada, independente dos filmes serem bons, como geralmente são. Pior do que as mulheres, só os jornalistas ficam, quando tem jornalista na parada. Está aí o clássico “The Front Page” que não me deixa mentir. Jornalista é pior do que mulher má, é desclassificado. Não sei o que o cinema americano tinha contra mulheres e jornalistas, mas existe uma quantidade enorme de filmes que não me deixam mentir.
Pois esse é um filme de jornalista bom. Quer dizer, não começava bom, era na verdade o menos bom da história – que eu não vou contar – mas a história era tão boa que ele foi melhorando, tão boa que parecia ficção – e é uma história real.
Bons tempos. Tempos em que os jornais dependiam das histórias que publicavam e do que os jornalistas escreviam para vender jornal. O dono do jornal consultava o jornalista sobre a história que ele ia escrever, ou estava escrevendo, o trabalho que ele estava assinando. A cidade inteira acompanhava, e a venda sustentava o jornal. Não era o anunciante que dava as cartas, não eram interesses misteriosos, desconhecidos e incompreendidos justamente por quem arregaça as mangas e faz o jornal. Evoluímos?
Às vezes a gente nem repara que o mundo está torcido e de cabeça para baixo. Ficção, realidade, o jeito é procurar na wikipedia para saber o que é o quê.