segunda-feira, 30 de junho de 2008

Escala Oriental


Noite estrelada a bordo.

A caminho do Japão, uma parada no meio do mundo.
E a maior turbina que eu já vi, em foto pirata, proibido fotografar!


Aeroporto de Dubai: oásis no deserto, tapete de areias escaldantes, céu de mil e uma noites.

Se as palmeiras parecem fake, o relógio certamente não é: um Rolex jumbo.


Vontade de registrar tudo, mas elas dizem que não... gente de todo canto da terra, fila para o elevador, fila para internet de graça, muitos, muitos africanos, indianos, árabes, todas as línguas, todas as moedas, um pouco do mundo no maior free shop do mundo.


Tempo para uma aposta – mas o que fazer com um carro em trânsito, bem no meio do caminho?



Na sala quieta, viajantes descansam, exaustos. Sem medo de perder o vôo por uma soneca, como eu tive. Pudera, depois de Rio-São Paulo, mais quatorze horas de São Paulo a Dubai, mais cinco na conexão, à espera de mais onze até o Japão, melhor não facilitar.

Os fumantes e o seu gueto

Decorada simpatia


Babel.

sexta-feira, 27 de junho de 2008

Prazer em conhecer


Pode levar uma vida saber direito o que tem dentro do nosso armário.
O homem nasceu para aprender, aprender tanto quanto a vida lhe permita, escreveu Guimarães Rosa. A leitura tem esse poder, vivemos um pouco sem ter vivido, mas acho que aprender mesmo, só apre(e)ndemos o que sentimos. Lendo, podemos reconhecer e traduzir o que já conhecemos, mas é preciso já ter sido exposto ao vírus para compreender, do contrário fica assim uma espécie de curso de vida por correspondência. Talvez por isso, conselhos, por mais bem intencionados que sejam , não são vistos com muito bons olhos. Bom mesmo é estar de olhos, ouvidos e coração aberto para aprender de todas as maneiras, inclusive com a experiência alheia. Se você só aprende passando por maus bocados, pode estragar aquele bocado que parecia tão gostosinho e você deixou cair do prato... nem tudo se precisa viver, é verdade. Mas é bom estar preparado, em caso de precisão. Você pode não conseguir o que quer, faz parte, você segue em frente. Mas não conseguir o que se quer porque não soube administrar, é uma perda maior porque você perde também um pouco da autoconfiança. Por isso, mesmo que ainda não saibamos como, ajuda bastante saber onde queremos chegar. E por falar em onde chegar, alguns prazeres esperneamos bastante antes de abandonar. Sair sem destino com mochila nas costas, tem uma hora na vida que parece que vence o prazo de validade. Para mim, não vence. Esse desejo eu me recusei a arquivar. Estrada meio deserta, cheiro de mato, banho de rio, barulho de sapo e de grilo...
A vida vai nos abastecendo de ansiedade e de afazeres. Pensar, pesar, escolher. Quem vai sem pensar, muitas vezes não chega onde quer e ainda costuma machucar mais. Quem tem medo de se machucar, e de machucar, pensa muito antes de tudo, e muitas vezes não chega a tempo. A gente perde os prazos, perde a noção, só não pode perder a graça. E tratar de aprender, ter prazer em aprender, e agradecer por achar graça em muita coisa – não é todo mundo que acha - mesmo nas pequenas – elas abrem caminho para as grandes graças. Recebi tanto, em atenção e carinho, não posso me dar ao luxo de ser infeliz. Alegria é destino e é escolha.

terça-feira, 24 de junho de 2008

Ventura e desventura de viver


A cada vez que ouço Eu sei que vou te amar, especialmente com a Petrobrás Sinfônica, o arranjo e o piano do Wagner Tiso, que tive a graça de ouvir e ver mais uma vez esta noite, no Concerto Brasil-Japão, a emoção é sempre a mesma. Se foi - e só pode ter sido - uma pungente separação a inspirar Tom e Vinicius, bendita a dor que produziu essa eterna maravilha.
A foto acima é uma homenagem verde e rosa ao Mestre Jamelão, mais um que se eternizou, e foi parte do auxílio luxuoso da Mangueira a tudo que há de bom nessa vida. Um país com esses artistas tem obrigação de ser feliz, e merecia muito, muito mais luxo.

domingo, 22 de junho de 2008

As quatro linhas e a pelota no canto esquerdo do peito


Vencer é o que todo o time quer, mas para nós, nosso desempenho é o que mais importa. Na nossa hora, quem tem que ser o centro das atenções? Nós, que aqui é totalmente singular. O circo é coletivo, mas o papel de cada um é único. É nosso desejo e nossa salvação. Se não somos reconhecidos, se não conseguimos mostrar a que viemos, nosso jogo não acontece. E nem precisa um Maracanã de ovações. O que quase todo mundo quer é ser reconhecido no seu campo mesmo. Às vezes nem é preciso ganhar, mas que ninguém nos confunda com qualquer perna de pau. Ofende, abala a nossa moral em campo.
Podemos comemorar esses tempos em que a moral moralista já não impera. Mas para não ficar tudo com jeito de vale-tudo, alguma regra há de haver para nortear a arbitragem, evitar que embole o meio de campo. Acho que a regra é ter qualidade. E qualidade é caráter, não é jogo de cena, passinho pra lá, passinho pra cá, dancinha ensaiada depois do gol. Pode até render foto e nota em jornal. Será que atesta o valor do passe, quando o jogo é à vera? Suar a camisa costuma ajudar. Tem gente que já nasce com sorte, e espera a bola cair sempre no colo, mas as garantias são menores quando se conta só com a sorte, que alguma justiça há de haver nessa vida. Mas para escolher, tanto os times quanto as jogadas, é preciso sentir firmeza no próprio jogo, senão não leva.
Qualidade nos adversários também melhora o jogo. Quando são muito desqualificados, melhor tirar o time de campo. Temos que zelar pela integridade das nossas canelas. E aí, é preciso habilidade no jogo: fantasmas de jogos passados devem estar totalmente impedidos. Quando surgem, assombram e espantam todo mundo, uma derrota. Jogadores prezam sua individualidade – tratamento coletivo, vala comum, desqualifica, é elimitatório, muitas vezes morte súbita, nem sempre com direito a repescagem.
Jogar na retranca empata mais do que ganha. Vitória pede garra, talento e sorte. Homens são focados em vitórias. A emoção fica por conta do ataque.
Mulheres talvez percam porque não conseguem esquecer os piores momentos. Homens, geralmente, tem a felicidade de só lembrar dos melhores momentos, talvez porque sejam mais exigidos. Mesmo com o mundo mudado, não se muda a força da gravidade. Sabem que firula atrapalha.
Mas quem cuida do ataque não entende muito de defesa, a praia das mulheres, e talvez não saiba que alguns times, especialmente em seleções femininas, não se misturam nem que leve uma eternidade. São muito críticas, rejeitam as diferentes táticas das companheiras, são de Atenas, sabem esperar, mas o medo de perder a posição compromete seu desempenho em campo.
Pode acontecer também da equipe adversária, mesmo não sendo tão boa, ganhar no tapetão. É do jogo. Bons jogadores ficam caros e mimados. Nem sempre o clube tem cacife para mantê-los.
Jogador experiente evita bola dividida: machuca muito.
Quilos a mais infelizmente são caminho curto para a reserva, precisam mesmo ser eliminados os eternos dois, ou quatro quilinhos que sempre sobram na balança.
Ninguém quer ficar no banco, como ninguém entra em campo para perder. Todo bom time tem história. Todo mundo gosta de história, mas tem que dar tudo de si para não virar história... se virar, serve de algum consolo pensar que é melhor ser história do que nunca ter sido.
Perder é um aprendizado mais difícil do que lutar para ganhar.
Saber a hora de jogar a toalha é uma ciência. Eu, que não sou nada científica, acho que a gente não deve deixar a bola cair nunca. Tem sempre a possibilidade de mais um turno... a vida é uma criança.

quinta-feira, 19 de junho de 2008

This Blog Makes Me Think


Minha amiga blogueira Isabella Saes, do
www.minhamenteinquieta.blogspot.com
- uma das alegres descobertas que este blog me trouxe -
me brindou com a bela surpresa de me indicar ao selo
This Blog Makes Me Think
Não tenho ainda intimidade com selos virtuais
e quanto aos links, me limito a seguir os passos dos que aparecem
no meu caminho, mas enquanto não chego lá, queria dizer que ela
me deixou em muito boa companhia. Conferi as outras indicações dela e assino embaixo de todas:
http://espartilho.wordpress.com
http://www.barbarizar.blogspot.com
http://www.antigasternuras.blogspot.com
http://www.babelturbo.blogspot.com
Já faz tempo que ela me deixa muito lisonjeada com as visitas,
e talvez não saiba que sou blogueira amadora e auto-didata, ainda engatinhando nesse teclado. Mas não é preciso muito para entender um pouco de coisas gratas como amizade, gentileza, criatividade, boa informação. Muitas visitas para todos!
Beijos Bella!

domingo, 15 de junho de 2008

Altos e baixos, aprendendo com as baixas...


Esforço de reportagem, quase um esforço de guerra, muitas vezes. Trabalho terminado e bem sucedido, mesmo virtual, uma coisa que não existia e passou a ocupar um espaço combina mais com o sentimento de plenitude e mais segurança, por que trazer um vazio? Um copo cheio não deveria produzir ressaca... Mesmo sabendo olhar para o que fizemos como mais uma realização, voltamos para o zero, com medo do que vem. Qualquer ruptura não nos lembra finitude, e bem lá no fundo, já que tudo tem fim, nos lembraria que nós também temos? É ir um pouco longe, mas é uma explicação. Enquanto estamos incumbidos, estamos ocupados, não estamos com a angústia da expectativa. Expectativa, palavra que traduz um sentimento que pode ser tão excitante, vira como vento de tempestade quando a ordem é a falta de expectativa. O que é que nos tira da angústia das ausências? Estar ocupado com alguma coisa que nos envolva, e melhor ainda se vem com a possibilidade de nos trazer satisfação. Satisfação garantida, eu diria que só a criação nos dá, já que amor e paixão vem sempre junto com muita turbulência, embora não devesse ser assim. Não falo de ansiedade fora dos limites administráveis nem de depressão, mas acho que decepções eu aprendi a administrar. Sempre ri da expressão, ouvida em família, que diz que sem trauma não se cria. Se puder escolher, prefiro sem trauma, mas que sofrer um pouquinho ensina, quanto a isso eu não tenho dúvidas . Fools in love, então, soon grow wise...eu diria até que não há outro jeito de aprender... pelo menos chocolate, eu sempre preferi amargo.
Quando me preparava para ir ao Japão, conversando com descendentes de japoneses em São Paulo, ouvi o conselho e o oferecimento de um cartão de visitas bilíngüe, em português e japonês, seria delicado e oportuno. No Japão fala-se bem menos inglês do que se pode imaginar. Cartão de visitas é um item obrigatório em um país de língua tão única. E o meu ficou lindo. A primeira pessoa a ganhar um foi o nosso tradutor. Ele olhou espantado, depois riu, e explicou: a função de produtora é muito criativa, mas não no sentido que está aqui, aqui está escrito que o seu trabalho é ligado à vida, traz a vida... a palavra em português não ocorreu logo, mas era isso: levei comigo um cartão de parteira! Custei a acreditar, mas quando encontrei a equipe do programa de língua portuguesa da rádio NHK, em Tóquio, testei novamente: muitas risadas! Felizmente tinha alguns dos meus antigos, em português mesmo. Tenho agora cem cartões de parteira em japonês. A minha disposição para lidar com problemas e adversidades continua firme. Pode ser o prenúncio de uma nova vida, quem sabe?

ECO




Bons ventos me levaram a rever minha velha escola, tantos anos depois. Sensação engraçada, ver caras tão novas e desconhecidas num lugar ainda tão familiar, já que nada parece ter mudado na ECO/UFRJ. Não saberia dizer se é boa ou má a idéia de unificar todas as unidades na Ilha do Fundão. Certamente é um privilégio e um luxo estudar no campus da Praia Vermelha, e o sentimento de quem estudou lá é o de que ela fique lá para sempre. Seja como for, ela sem dúvida merece um carinho e uma mão de tinta. Junto com tudo o que é mais importante em um estabelecimento de ensino, isso também não faltaria em um país que priorizasse a educação.

Reparar na pintura de uma escola de comunicação, com tanto a se discutir sobre comunicação no país e no mundo, pode parecer tão superficial quanto uma rala mão de tinta. Mas se pensarmos que foi abaixo o magnífico prédio da Faculdade Nacional de Medicina, construído em 1918, a poucas quadras da ECO e da Reitoria, sem nenhuma explicação, já que a demolição aconteceu num tempo em que não se podia cobrar explicações no Brasil, não parece tão absurda a preocupação com a conservação do prédio. Ainda mais quando se discute se a ECO deve ou não continuar ali.
Sobre a demolição, em 1973, a única razão que ouvi, muito tempo depois, de um médico que assim como o meu pai estudou lá, não me foi contada em tom de brincadeira: os futuros médicos faziam muito mais sucesso com as moças do que os alunos do instituto militar de engenharia da Praia Vermelha ou os militares do forte da Urca. Aquele prédio seria por isso hostilizado e detestado por quem detinha o poder na época da ditadura. É uma explicação que beira a anedota, mas o Brasil é lá um país com muito senso? A mais plausível é mesmo pela resistência democrática que aquele prédio abrigou.

Mas que o poder demolidor de uma dor de cotovelo pode ser até maior do que o da fofoca, lá isso acho melhor não contestar. Deus nos livre dos dois!

quinta-feira, 22 de maio de 2008

Orientar-se no (seu pequeno) espaço



Quando se conhece o leste, dizem que a gente se orienta. A vida nos ensina a duvidar. A julgar por mim, nunca se vai ao Oriente sem tempestade.
As medidas no mundo são variáveis, não há padrão para elas, como não há medidas para sensações e sentimentos.
Será o mundo pequeno ou grande?
Viajar por uma companhia oriental parece trazer o Oriente mais cedo, nem que seja só pela graça do véu no chapéu das aeromoças.
Quando na tela do avião aparecem nomes que a gente nunca viu, mesmo já sendo gente grande, parece que o mundo é de fato muito grande. Mas quando ela mostrava a minha vizinhança, vi que a escolha dos nomes é um mistério, e desconfiei novamente das medidas do mundo. O Rio de Janeiro era cercado apenas por Japeri, Belford Roxo e Magé! Qual o gringo que conhece esses nomes?
Os aviões, desde as asas da Panair até uma pujante companhia que se anuncia como sinônimo do nome Pangea, pelos continentes que mantém unidos, fizeram o mundo ficar mesmo pequeno. Não por acaso produzi um programa sobre Santos Dumont, pioneiro da invenção que mais me encanta. Não dá para acreditar que em menos de 48 horas você está lá na pontinha do norte do Japão.
Mas na recepção de um hotel do interior da ilha mais ao norte do Japão, eu encontrei um sorridente coreano, o único que arranhava o inglês, que me disse que foi à Bahia, e perguntou: como é mesmo o nome daquele lugar lindo no interior do estado? Eu respondi logo: Chapada Diamantina. Era lá! Ele foi e gostou muito, onde eu lamento não ter ido ainda, mesmo estando tão perto. Perto e longe também varia. É longe, se a gente não chega lá.
Em Tóquio, uma das maiores cidades do mundo, por um desses acasos que alguns chamam de sincronicidade, me encontrei no mesmo hotel em que me hospedei há sete anos, naquela vez a convite do governo japonês. Dessa vez escolhido por um representante nosso de forma completamente aleatória. Eu não lembrava do nome do hotel, nem do bairro, mal reconheci quando cheguei lá. O critério da escolha, me disseram, diante do meu espanto, foi apenas o de apartamentos disponíveis para não fumantes, e fomos bater justo lá. Reformado, estava quase irreconhecível, mas me vi andando pela mesma redondeza que conheci, arrastada por um tufão, comendo num pé-sujo em que comi, porque Tóquio tem a Takashimaya, para nosso deleite, mas também tem pé-sujo, também para nosso deleite, já que estava bem melhorado.
Não sabemos mesmo quanto tempo duramos e para onde a vida nos leva. O Japão esteve no meu caminho duas vezes, nas duas vezes me ofereci para ceder a vez a outra pessoa da equipe, não que eu não quisesse ir, queria muito, mas por força das circunstâncias, e a chance voltou para mim. Gostei mesmo do Japão. Fica longe, mas estava no meu caminho. O mundo nos acolhe nos lugares que são nossos. E quando são mesmo nossos, levamos eles para sempre, não importa o tamanho, não importa a distância. É só uma questão de estar orientado. Um 777-200 é um mundo, precisa muita competência para pilotar. Dentro da gente, o piloto somos nós mesmos, e aí os rumos, as escolhas, assim como as consequências, envolvem cálculos muito menos exatos.








segunda-feira, 28 de abril de 2008

Pernas para o ar


Enquanto estiver
do outro lado
do mundo,
sem saber
ao certo
para onde
o vento
me levará,
vou deixar
esse blog
ao Deus
dará
Sayonara

quarta-feira, 23 de abril de 2008

A mídia e o samba


Mesmo tapando olhos e ouvidos, dá para ficar nauseado com a cobertura do infortúnio da menina atirada da janela. Aproveito para corrigir abaixo um dos meus sambas preferidos:

Noticia de Jornal
Luis Reis / Haroldo Barbosa

Tentou contra a existência
Num humilde barracão.
Joana de tal, por causa de um tal João.

Depois de medicada,
Retirou-se pro seu lar.
Aí a notícia carece de exatidão,
O lar não mais existe
Ninguém volta ao que acabou
Joana é mais uma mulata triste que errou.

Errou na dose
Errou no amor
Joana errou de joão
Ninguém notou
Ninguém morou na dor que era o seu mal
A dor da gente não sai no jornal.

A dor da gente sai no jornal. Mas só sai se a tragédia vier com a possibilidade de provocar histeria. Não basta ser dor de verdade, tem que ter componentes que permitam rolar na carniça, segurando o close e os holofotes. Quando é assim, sai, e a mídia só larga o osso quando não tiver mais o que roer.