domingo, 1 de janeiro de 2012

Ano Bom


Existem outros calendários,
nem todos celebram o ano novo hoje,
muitos acham que é pura convenção,
muitos se vestem de branco e soltam foguetes,
outros precisam molhar o pé na água salgada...
salve o que cada um acredita e o que nos diverte.
Eu acredito que novo mesmo é o que é vivo.
Viva a vida!
Salve 2012!

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

TOC, TOC, TOC



Penso que meio mundo tem um pouco de TOC, ou será que eu penso isso porque eu devo ter? Acho que a era digital acentuou essa síndorme, porque agora, quando você olha o relógio e vê 1:11, ou 2:22, vai me dizer que não acha que isso quer dizer alguma coisa, ou se sente compelida a fazer um desejo, só porque olhou no relógio naquela hora e não às 3:34! Não? Então eu tenho mesmo TOC.
Eu seria o paraíso dos numerólogos, se me dispusesse a procurar algum. Não vou, fiquei decepcionada quando recebi umas informações prêt-a-porter não solicitadas em que, entre outras coisas, condenavam o número quatro. Tinha acabado de voltar da China e lá me contaram que o estigma do número quatro se devia ao fato da pronúncia desse algarismo em chinês ser muito parecida com a da palavra morte. Da mesma forma com que os números de telefones com muitos números oito eram valorizados, pela energia circulante, os com quatro não eram aceitos, pelo mesmo motivo que muitos prédios não tem o quarto andar. Não é coisa de chinês, é coisa universal, pois em Nova York o andar que costumam suprimir em muitos prédios é o 13º.
Sendo assim, por que é que no Brasil, onde falamos português, o quatro também seria estigmatizado?
Não vou generalizar, melhor deixar os numerólogos ganharem seu dinheiro em paz, mas quando vejo uma letra indevidamente dobrada em algum nome, agredindo o idioma, fico injuriada. E lembro sempre da Lady Francisco que virou Franciscus. Será que a vida dela ficou mais alegre depois disso? Nunca saberei. Só sei que esse numerólogo que me chegou por meio de sua assessoria adiantava que se você morasse num apartamento em que a soma dos números do seu prédio e seu apartamento resultasse em quatro, melhor se mudar. Moro num assim há trinta anos, o que fazer? E arranjei um novo endereço em que a soma, da mesma maneira, é treze, e reduzindo com se faz, o resultado é...quatro!
Concluindo: não vou mudar meu nome para Wanda com W, fui feliz aqui e e serei feliz lá também (e que os chineses não me ouçam!)

domingo, 20 de novembro de 2011

De Cinema



Ontem revi o filme mais delicado e emocionante entre todos os que já vi. Gosto é mesmo pessoal, mas achei que não custava lembrar, já que não foi um sucesso retumbante, para quem não viu, embora rever seja até melhor: Finding Neverland – aqui, Em Busca da Terra do Nunca. Merecia todos os prêmios, se os prêmios fossem mesmo de quem merece ganhar. Com Johnny Depp, ainda mais que perfeito.
Não saberia dizer se gosto do meu nome, mas tenho uma alegria extra com essa história por Vanda ser uma versão de Wendy, e pensando nisso me dei conta de que a minha mãe acreditava, de verdade, em Neverland. Poderia ser uma fuga pelos deveres do mundo adulto, real e adverso, mas não, era por temperamento e imaginação, que ela conservou até o fim. Sonhar às vezes custa, sim, mas quem nasce com o dom de sonhar não escolhe, vai ser sempre iluminado.
Indo para o outro extremo, tinha visto na véspera um filme semi-documentário daqueles que jornalista gosta, mas que a maioria não deve conhecer, afinal, The Phenix City Story é de 1955, mas foi lançado em DVD na coleção Film Noir. Espanta ver no Alabama uma cidade com a barra pesada tão conhecida de quem vive no terceiro mundo, com toda a sorte de crimes sórdidos e truculentos, assassinatos, jogatina, lei do mais forte imperando, polícia comprada e conivente, até que aparece gente com coragem para botar pra quebrar, não revidando, mas com cabeça e sangue frio para conseguir impor a lei e a justiça. Não é só um discurso bom, é um filme bom, e apesar do contexto violento, também fala de sonho – nu e cru, mas carregado de idealismo. Sonho de verdade não é fuga, é escolha, e sempre demanda coragem. Coisa que a gente tem mais quando é jovem, mas mesmo muito cansada como ando agora, acho que existem uma frestas, umas brechas, uns fachos de luz para quem procura, mas é preciso acreditar no Peter Pan... saber, a gente nunca sabe, a questão é acreditar mesmo.

domingo, 16 de outubro de 2011

O outro tronco do ipê


“Quando precisar de alguma coisa, peça a uma pessoa bem ocupada”, ouvia da minha tia, que ouvia da tia dela essa frase carregada de razão.
Não me lembro de viver antes uma época em que eu só conseguisse me sentar para tomar fôlego e me levantar de novo para dar conta de um a interminável lista de tarefas.
Nada de mais, sou jornalista, sou mãe - de filha criada, mas mãe é sempre mãe - dona de casa e hiperativa.
Além disso, cuido de uma obra, o que atualmente, nesta cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro, garante um lugar no céu, para quem tem fé, ou num manicômio, quase uma certeza. No meu caso, já renderia um livro equivalente ao Inferno de Dante.
Sou também vizinha de um terreno onde começaram uma obra, outra, da qual eu não cuido, só acompanho alerta, cuida dela uma construtora que parece ter como norma ignorar árvores em seus projetos, mesmo que elas existam há décadas, todas plantadas bem rentes aos muros, tanto as do terreno vizinho ao meu quanto a mangueira que ameaçam derrubar no Leblon. Seria muito simples incluí-las no projeto, mas se a vizinhança não grita, elas vão abaixo, como foram um pé de jasmim-manga e muitas palmeiras, “árvores ornamentais”, e por serem assim "consideradas" puderam ser derrubadas, da mesma forma que uma valente jabuticabeira, que tinha poucas raizes, já que fora plantada em cima da garagem da finada casa e se mantinha frondosa e carregada de frutos mesmo contando com pouco mais de um palmo de terra.
O desfecho de uma batalha envolvendo Associação de Moradores, autoridades encarregadas, fotos na mídia impressa e em abaixo-assinados nas portarias dos prédios mostrou que a luta não foi inglória.
Exigiu, além de trabalho e esforço, paciência para ouvir bobagens de vizinhos até então insuspeitos: - ah, tanto faz se derrubarem as árvores! Nossa, mas aqui já tem tanta árvore, pra quê mais uma? Ouvi isso de uma loura figura ao passar pelo tronco do ipê, transplantado para a praça aqui ao lado. Se travassem grandes e nobres lutas, eu ainda entenderia, pessoas perdem suas casas pelos mais variados descasos e desmandos, e nesse caso árvores não teriam tanta importância, mas não é por isso que desdenham a questão das árvores, é apenas o ser humano em seu pior momento, só conseguem alcançar a suspeição de que brigar pode prejudicar heranças ou poderosas construtoras. Vimos isso acontecer no terreno em frente, onde o velho proprietário, antes que fosse tarde, providenciou o tombamento ( no bom sentido) de todas as árvores existentes, o que obrigou a construtora a reduzir seus planos e subir ali um prédio um pouco mais civilizado.
O ipê não é nem de longe a majestosa árvore que foi, com a altura de oito andares, podado e desbastado para poder ser transportado, e não foi tarefa fácil, mas a construtora se curvou e se desencumbiu da transferência que a lei determinou com bastante competência. As duas jabuticabeiras sobreviventes já estão brotando novamente, transplantadas no prédio em frente, foram bem-vindas, já que tinham poucas raízes e não danificariam os canos que passam sob o jardim.
Existem grandes e pequenas lutas, variam com as oportunidades, coragem e sonhos. Não sou eu quem me navega, quem me navega é o mar. Acho que não se deve fugir à luta, mas cada um sabe de si. Se elas mudam a paisagem, podem mudar um país e mudar o mundo.
Difícil mesmo/
é mudar/
uma pessoa.



domingo, 28 de agosto de 2011

Essência



Dia desses vi uma entrevista ótima com a Bibi Ferreira, em que ela foi perguntada sobre seus cinco casamentos – ela achava que foram só quatro, a Bianca Ramoneda informou que eram mesmo cinco, e a propósito disso a Bibi comentou que se soubesse que todos são iguais, ficava só no primeiro, já que todos foram rigorosamente iguais.
Dizem que nossa memória retém o que encontra eco em nós, vai de encontro ao que a gente pensa, pisa em algum calo ou na faca cravada no peito que, quando a gente sente, trata de acomodar novamente para continuar vivendo.
Em mim, o comentário bateu numa ponta de desânimo que me assalta de vez em quando e eu pergunto: pra quê tudo isso? Vale à pena o esforço, a confusão, o sofrimento que a gente causa ou experimenta, só para tentar avançar um pouquinho, melhorar um pouquinho, descobrir alguma coisa boa e nova? Já abandonei muitos textos pensando nisso. Pra quê escrever?
A História tem mostrado: o destino da humanidade é tentar descobrir a pólvora, nos dois sentidos, o verdadeiro e o irônico. Tudo é cíclico, vai e volta, o que muda mais é o tempo que a volta dá. O novo nos empurra pra frente, mesmo que nem sempre para melhor.
A antiga diarista da minha filha, falando com ela sobre a nova, perguntou: ela gosta de passar roupa? Se gosta, não é boa de faxina. Esperta filosofia. Temos fórmulas conhecidas, seguimos padrões, muita coisa a gente já sabe antes mesmo de comprovar. Ao longo da vida, a gente vai reconhecendo os modelos.
Somos milhões, ou bilhões. Podemos ser previsíveis, mas não somos tão iguais, ou não haveria tanta guerra, ou talvez até houvesse mais e não existiria ninguém mais vivo na Terra, porque quem aguenta um igual?
Temos sutis diferenças, e salve a sutileza e a diferença! Somos iguais a nós mesmos, nossa visão crítica (e nossos medos) é especialmente a dos nossos próprios defeitos.
Volto para o fio da questão existencial, o sentido da vida, e o que faz sentido na vida. Eu, desconfio até que nem para adubo servimos, mas estamos aqui, e a vida tem mesmo muita coisa boa, como a média com pão quentinho e manteiga que tomei hoje na padaria. Mesmo com as notícias da banca em frente estampadas nos jornais.
Escolhas e expectativas também variam, não só a de vida. Tudo ali no DNA. Um amigo, bem posto na vida, sócio do Country e cioso de tudo de bom que a vida pode oferecer, era amigo de um primo meu, que nunca trabalhou e vivia modestamente com o que herdou, e satisfeito.
O espanto do meu amigo não era com a “sorte” ou - para mim, misteriosa - escolha de não trabalhar e conseguir mais da vida, mas sim com a desambição do meu primo, e observou: ele não era bicão! Não estava nem aí para bocas livres!
Ele não entendia o espírito desprendido e às vezes bem desajuizado, recorrente em boa parte da família, mas eu entendo o espanto dele, porque é quase uma regra: quanto mais se tem, mais se quer, com a tendência de achar muito natural ter direito a tudo e mais um pouco.
Acho que estamos aqui para viver o melhor que pudermos, não complicar, viver e deixar viver, porque o inferno dos outros é também o nosso inferno.
Aprendi algumas coisas na vida. Temos que cuidar do nosso - mesmo se pequeno - espaço. Eu busco beleza, paz, equilíbrio e alegria.
Procurar com a maior calma e clareza possíveis a melhor escolha ou direção, em harmonia com o que está ao nosso redor e a maior generosidade que se conseguir ter com os outros e conosco mesmo. Cuidar do cotovelo, contra a dor e a psoríase. Saber analisar nossas reais possibilidades, sonhar sim, mas querer o impossível é caminho curto para a infelicidade.
Já a fórmula para conseguir isso, aí são outros quinhentos...


Floradas na serra - orquídeas e manacás

terça-feira, 16 de agosto de 2011

Usos e abusos


Saul Steinberg não é conhecido como Picasso. Mas um desenho seu que mostra o mundo visto a partir da Nona Avenida em Manhattan virou um dos posters mais populares das últimas décadas, e justo na época em que posters eram muito populares em nossas paredes. Esse desenho foi uma das muitas capas que ele fez para a revista The New Yorker e era uma divertida e bem achada ironia sobre a visão que novaiorquinos têm do mundo. Romeno naturalizado, ele virou um dos mais importantes artistas americanos.
Vi muitos de seus desenhos expostos em várias salas do Instituto Moreira Salles, outro dia no Rio, e tinha visto muitos outros no Whitney Museum em Nova York, no ano de 1978. Era uma grande retrospectiva, e mesmo eu, sem ser artista nem especialista, passaria horas ali sem cansaço ou tédio. Entre muitos detalhes, colagens e montagens, havia colado num quadro um velho envelope endereçado a ele. Anotei o endereço que vi ali e mandei para ele um dos postais comemorativos da retrospectiva, com parabéns pela exposição. Fiz isso como quem joga uma garrafa no mar, e por pura brincadeira.
1978 foi um ano em que morei em Nova York, mas já no Brasil, um dia me chega na correspondência um postal, o mesmo que escolhi para mandar, que dizia (em inglês): Endereço antigo. Eis o novo. Carimbado abaixo, o numero da caixa postal dele, e em seguida: Best, Steinberg.
Meu primeiro impulso foi escrever novamente, agora tinha o novo endereço, dado espontaneamente! Ah, eu ia adorar uma carta com um desenho, quem sabe?
Não escrevi. Casada com um desenhista de humor, achei que deveria contar isso. Mas se contasse, ele poderia duvidar da minha sincera e particular admiração pelo trabalho dele. Deixei ficar assim. A composição do postal já era uma obra de arte. Acho que posso dizer que tenho um Steinberg, feito para mim.

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

Preto e branco


A cerimônia que nesta noite se deu na sede da General Severiano foi para reverenciar os fundadores, representados por seus descendentes. Não fui à homenagem, guardei o convite, e não os reverencio menos por isso!
O Botafogo para mim não é só um retrato na parede.
É uma onda de afeto pelo meu pai e pelo padrinho querido, pelos outros tios e tias que jogaram e torceram durante todas as suas vidas, o respeito pelo entusiasmo e a admiração deles por terem tido, por sua vez, pai e tios fundadores de um clube que cresceu tanto e vai tão longe, muito além da vida que já se foi e dos campos em que correram e suaram a estrelada e tão idolatrada camisa.
Entendo de verdade os corações sinceros que ainda batem por isso. Entendo quando passam essa paixão espontâneamente para os filhos. Só não entendo quando ouço alguém, volta e meia, se referindo ao Botafogo: “- Um time de elite!” A gente sabe o que a "elite" fez e faz nesse país há quinhentos anos, eles não sabem o que dizem! Mas desejos são desejos muito além da nossa vã compreensão, e não se pode esperar que quem se assume ou se quer elite vá se olhar com olhar crítico. Ou vá querer saber que existe uma diferença entre ser privilegiado e ser superior, e aqui me refiro a superioridades admiráveis: talento, inteligência, generosidade, humanidade. E também um bom time, que jogue um bom futebol, por que não?
Já para ser privilegiado e disso se orgulhar, é preciso acreditar que nobres eram ungidos por Deus, e acreditar também em Deus, para começo de conversa. Achar muito natural ter acesso à escola, e tão natural quanto, que outros não tivessem, sem que aí coubesse qualquer questionamento. Isso eu não quero e nem entendo. Também não entendo a grande confusão que pode causar uma cor quando deixa de ser branca e vira vermelha! Sobre cor da pele, melhor não falar. Houve um tempo em que se podia jogar num clube mas não se podia entrar nesse clube pela porta social. Houve um tempo. A vida, como uma bola, não é estática.
Cresci ouvindo louvores e glórias sobre minha família paterna, uma família com barão, baronesa, senador, governador, ministro. Acredito na boa índole familiar, e dela temos queridos exemplos, e é com eles que fico, porque não fui testemunha ocular da História, e sabemos muito bem que a História depende de quem conta e escreve. Fico, portanto com o carinho que se encerra em nosso peito.


Augusto, meu pai


Maninho, meu tio e padrinho

quarta-feira, 27 de julho de 2011


“É que sinto falta de um silêncio.

Eu era silenciosa. E agora

me comunico, mesmo sem falar.

Mas falta uma coisa.

E vou tê-la.

É uma espécie de liberdade,

Sem pedir licença a ninguém.”

Clarice Lispector

segunda-feira, 18 de julho de 2011

Humaitá – o que será


Pessoas têm humores, num dia estão tristes e noutros não, algumas acordam tristes num dia e noutros também, outras não ficam tristes nunca. Isso é normal, mas eu me sinto sempre o oposto de uma ciência exata. Não estou à procura de um diagnóstico, acho que venceu meu prazo de validade para investigar questões internas. Seja o que for, é isso. Foi o que se pode arranjar. E enquanto viver, terei sempre uma crise de identidade por perto.
A que mais me embaraça é ter que responder por que time eu torço. Eu realmente torço, para mais de um, e essa questão não será resolvida. Outras me confundem mais, mas aí a gente deixa de lado. Já entendi que há uma diferença entre coragem e loucura, só que acho muito difícil dizer o lugar certinho onde passa essa linha.
Vivo numa encruzilhada entre Lagoa, Humaitá e Jardim Botânico. Oficialmente é Lagoa, mas bem perto, no largo do Humaitá, chamado Largo dos Leões, tem uma loja que vende capas de almofadas bordadas com as características de cada bairro. São lindas, e tive que comprar as três: Lagoa, Jardim Botânico, Humaitá. Levei também Santa Tereza porque talvez eu não dê três pulos em rumo, como dizem em Minas, um pouco longe daqui.
Passei um bom tempo conversando com minha querida tia Mariazinha, procurando saber melhor de onde eu vim. A gente só se interessa pelo passado depois de passado um tempo na vida. Ela mora no Humaitá, ando muito por lá, e me contou um dia onde era a casa em que minha mãe morava quando se casou com o irmão dela, meu pai. Hoje existe lá um grande prédio, justo onde, por total acaso, tenho cruzado a rua todos os dias. Mesmo sem muito rumo, parece que não me perco.
E de tanto que eu sempre gostei de procurar, comecei há muito uma coleção de dicionários, e num de tupi-português fui procurar a tradução do nome – há controvérsias, mas tem sempre uma pedra no meio dos nomes indígenas que procuro, ou é dura, ou é preta, ou é podre, ou “a que agora é negra”, como dizem que quer dizer Humaitá. Devia ser uma grande pedreira a vida dos índios brasileiros, mesmo antes da devastação portuguesa.
Família, energia, alento, caminhos. Temos que pelo menos tentar escolher os nossos, até mesmo sem saber direito onde vão dar.


Ontem

Hoje

sábado, 9 de julho de 2011

Em algum lugar


Vi, com tédio seguido de desconforto, o filme da Sofia Coppola, Somewhere, que aqui se chamou Um lugar qualquer - e acho que a tradução melhor seria Em algum lugar (mais uma vez, perdidos na tradução). Suspeito que era mesmo com tédio e desconforto que ela queria lidar, o que para mim ela fez com mais pretensão do que talento. Trata de uma vida ociosa e blasé, garantida pela fama de ator do personagem, inexplicável e rapidamente adquirida, como aliás sabemos que hoje acontece bastante, e até bem perto de nós. Para quê? A reflexão e o conteúdo crítico ficam por nossa conta, depois do filme encerrado, mas ele não me pareceu suficientemente poderoso para crescer como muitos filmes crescem bem depois de assistidos.
Fico com seu outro filme, Encontros e Desencontros (Lost in Translation), não só pelos belos olhos com que olho para o Japão, mas pelo conteúdo de humor e humanidade que se percebe ali.
Relações impessoais, sem particularidade ou consequência, tempos vazios, vida tediosa – tudo muito moderno, e tudo muito demais para quem vem de outro século, e não exatamente do final dele. O precário ator personificado no filme tem tudo a seus pés e se o filme não questiona isso, mostra que tudo cabe perfeitamente nesse estranho mundo. A única demonstração de sentimento vem da criança, os adultos ali não se salvam.
Minha geração sofreu com excesso de laços e compromissos, travas, culpas e exigências, e ainda não se desvencilhou por completo, que o movimento das pessoas dentro delas é mais lento que o da Terra e mais lento do que seus ligeiros meios de comunicação costumam apregoar. Tem que nascer de novo a cada dia. Mas tudo o que se conseguiu caminhar não foi para chegar à direção oposta. Liberdade não é ausência nem negação.
Perdida na minha própria tradução, ando com pouca vontade de falar das outras. E abandono o impulso tão caro, mas sempre tão fácil, de escrever, muitas vezes por descompasso com o nome que dei a esse espaço. Mas sei que o eixo do mundo não é o que a diretora Sofia mostra ali. Há esperança, em algum lugar.