quinta-feira, 23 de julho de 2020

O Alto da Casuarina



Um catálogo de endereços de 1975, guardado como relíquia de outros tempos que essa cidade viveu, documenta moradores nessa rua até o numero 87. Será que ela ja serpenteava até onde os paralelepípedos me levaram hoje?
Uma lista telefônica de 1982, também de endereços, guardada porque não se fariam mais outras – ouvi que teria ficado perigoso demais identificar pessoas pelos lugares onde moravam – atesta que em sete anos dobrou o número de assinantes na cidade do Rio de Janeiro. Não foi muito diferente na Rua Casuarina: ali , ela já ia até o número 129.

Mudanças continuam acontecendo por lá, constatei na minha primeira excursão na pandemia, depois de quatro meses de isolamento, procurando um pouco de ar livre por um lugar isolado. Em 82, apenas uma casa se destacava naquele morro então coberto de vegetação e que se podia ver da Fonte da Saudade.
Hoje, no larguinho em que ela termina, já com a numeração da rua chegando a quase 800, existem ainda dois terrenos sem edificações. Um tem a placa de VENDE-SE e mais outra placa que se refere a uma campanha de reflorestamento, o que me pareceu uma contradição, mas onde encontrar coerência por nossas bandas? O outro, que fotografei, estava coberto de vegetação.


Voltei ali, no espaço de 24 horas, e o terreno estava todo mudado! Uma coincidência tão animadora quanto intrigante. Cercado com uma tela de arame, me animou ver que o portão da cêrca - também vazado – estava aberto. Tinha levado a camera para fotografar a vista, e ele seria a única chance, já que todas as casas do lado par da rua têm muros altos. Mas não esperava uma vista tão escancarada como a que se apresentou.
Do lado de dentro da cêrca, uma mulher de meia idade mal me olhou quando eu perguntei se poderia entrar e tirar umas fotos, já que antes o mato não permitia documentar muita coisa. Respondeu com a pergunta: -Você é daqui? E acrescentou: foram tirados alguns arbustos para favorecer a vegetação nativa…Interessante!
Respondi com uma meia verdade, que era sim, do pé da rua (uma imprecisão de apenas uma quadra de onde moro na realidade). Perguntei de novo se poderia entrar – não vi nenhuma inconveniência nisso, ela estava distraída com o celular, e eu, de máscara o tempo todo, nem chegaria perto, mas me disse: Você pode cair do penhasco! Eu ficaria bem longe do penhasco, claro, mas estava claro que não era bem vinda. Expliquei que tinha subido a rua para fazer exercício, dei dois passos dentro do portão e fotografei a paisagem que se descortinava na minha frente. De indesejada, passei a quase enxotada, ela me disse que tinha hora marcada – isso tudo não durou nem dois minutos – saí, ela fechou o cadeado, entrou em sua camionete e foi embora. Um local isolado e com vigilância por 24 horas, com duas guaritas e telas monitorando a rua inteira, começou a produzir uma certa inquietação. Alguma coisa ilícita, negativa ou proibida por ali? Seria eu? Seria a estranheza de sair da quarentena, mesmo sem nenhuma proximidade com absolutamente ninguém, num lugar em que a maioria das pessoas circula de carro, e mesmo eles são raros? Não me aprofundei nesse sentimento.


Nessa minha terceira incursão pelas sete ladeiras e outras tantas curvas da rua, fui seguida - felizmente guardando alguma distância - por um pitbull e seu condutor. Chegamos ao fim da linha, ou ao fim da rua, e o pitbull chegou também, e quando me dei conta, tinha desaparecido em um dos portões do largo, com a mesma rapidez da mulher com cara de poucos amigos.
Na primeira vez em que subi a rua a pé, era fim de tarde, e, apesar de ser no fim de semana, cruzei com vários trabalhadores descendo a rua. Subiriam ali todos os dias para trabalhar? Quem sabe também subiriam outras tantas ladeiras para chegar em casa à noite? Teleféricos em morros são coisas recentes e muito escassas, eu só conheço dois, no Dona Marta e no Alemão. Difícil sentir na pele o que é subir um morro como esses dois, e com sacolas de compras, talvez um filho no colo. Por pura coincidência, por uma informação cruzada, soube por esses dias que bem ali, onde eu estava, no Morro da Saudade, há muitas décadas havia uma comunidade. A entrada era pela Rua Macedo Sobrinho, bem ao lado, e seguia pelo Morro dos Cabritos, com ligação até os morros de Copacabana. Não sei quando nem em que circunstâncias ela saiu dali, mas comecei a pensar que, quando vejo da janela mico, gambá e porco espinho zanzando por nossas calçadas, não só a fauna tenha sido expulsa desse espaço privilegiado da cidade. Isso sem falar nos primeiros habitantes nessas plagas, os verdadeiros nativos.


A quem se aventurasse por ali, eu diria: pare no templo budista. É um budismo chique, é verdade. Mas tem sempre boas vibrações. Estive lá umas poucas vezes, por ser na minha vizinhança. Em duas delas fui cantar para a lua, há alguns anos, quando decidi meditar. Nas noites de lua cheia, eles costumavam disponibilizar uma van que partia da Igreja Santa Margarida Maria, na Fonte da Saudade, para que os frequentadores não enchessem a rua de carros. É compreensível, já que as ladeiras e curvas fechadíssimas da Casuarina não são ideais para estacionamentos e manobras, ainda por cima, noturnas. Mas tive a impressão que os moradores dali não gostam muito de visitantes. Decidi dar por encerradas as minhas visitas. O Jardim Botânico reabriu, não tem lugar melhor Rio, e embora cobre a entrada, além de muito inspirador, resulta mais receptivo e até mais democrático do que muitas ruas, apesar de todas serem públicas, por essa cidade, esse país, esse planeta. E fantasmas no Jardim, que eu saiba, só os das mais velhas palmeiras imperiais.




A comunidade "invisível" da Rua Humaitá, vista da Casuarina.

sábado, 9 de maio de 2020



Minha mãe

Pense numa pessoa que segue sempre uma linha reta, sem ser careta ou carola. Minha mãe.
Nasceu num paraíso na terra, que se dissolveu quando seus avós se foram. Teve pai até os quatorze anos. Febre reumatóide, que ele trouxe dos invernos em Liverpool, onde passou toda a vida escolar até voltar engenheiro.
Sua mãe também partiu jovem, poucos anos depois que eu nasci, uma avó sempre lembrada que eu mal conheci.
Minha mãe, criada em Santa Teresa, sem rebeldia e sem traumas, num colégio de freiras francesas, gostava de lá.
Rigor e disciplina ajudam muito quando a vida leva a pessoa num pé de vento. E a dela foi assim, um redemoinho, mas ela mesmo nunca se abalou. Educava os filhos por formação, senso do dever, e vocação. Teve sete, nossa mãe!
Seguiu seu coração, que seguiu com ela até o fim, na alegria e na tristeza. Meu pai, um competente clínico alopata.
Mas ela se tratou sempre com a homeopatia.
Tinha uma fé cega, mas humana, nada muito espiritual, embora contasse com o reino dos céus. Carregava os filhos para a igreja com ela, aos domingos e nas inesquecíveis missas do Galo, à meia-noite, num tempo que não existe mais.
Viu seus netos - onze ao todo - irem nascendo e não sendo batizados. Lamentava. Planejou um batismo coletivo, quase subversivo, mas não contou com a cumplicidade da Igreja para isso. Desistiu. Deixou nas mãos de Deus, mas contou pela vida afora com a amizade fraterna de um belo representante dele, o Padre - aliás Dom - Hélder Câmara, para ela, o eterno "Padrezinho".
Seu coração, que já era grande, foi ficando ainda maior. Cercada de udenistas por todos os lados, seguiu por conta própria o caminho aberto pelos padres franciscanos da escola em que os filhos estudaram.
Difícil dizer se foi mais mãe do que avó, acumulou funções. E foi se revelando aos poucos, até o fim de sua vida na Terra.
Conhecer mesmo, nós a conhecemos aos oitenta anos, quando lançou um livro contanto sua infância de sonho, quando estudava numa pequena escola que seus avós construíram para os netos e para todas as crianças dos arredores, em seu retiro petropolitano. Nas anotações em um "álbum da avó", confessou um arrependimento: ter comemorado a morte de Getúlio Vargas. Cusiosa mesmo essa D. Mathilde, deixando anotada uma lembrança tardia como essa, que eu só li quando ela já não estava mais aqui. Discreta, silenciosa, quase humilde: surpreendente. Um dia, uma homeopata me disse: vou trocar seu remédio: você parecia que era de um jeito, agora estou achando que você é o oposto - não sei porque, lembrei ali da D. Mathilde. Mathilde com H, ela lembrava. Como lembrava do sobrenome La Rocque, que tirou quando se casou, mas não saiu de seu DNA.
Sempre às voltas com filhos e afazeres, e cuidando sempre das plantas e de quem estivesse à sua volta, a música e o cinema nunca deixaram de ocupar um lugar de honra para ela. Antenada, fugia, se fosse preciso, diante da possibilidade de um filme ou um show interessante.
Dia 20 de abril passado, ela teria feito 98 anos. Mas nos deixou aos 84, com a cabeça de sempre e sem nenhum aviso. Nos deixou, maneira de dizer, porque mesmo para uma pessoa de pouca fé, sua presença é quase palpável. Sua luz não nos deixa, não importa o tamanho da dificuldade que nos aparece. É ela que resolve. E que nos ensinou a seguir. A vida tropeça. A gente segue.

domingo, 3 de março de 2019

“Sabem do que são feitos os direitos, meus jovens?"


“Sabem do que são feitos os direitos, meus jovens?

Sentem o seu cheiro?

Os direitos são feitos de suor, de sangue, de carne humana apodrecida nos campos de batalha, queimada em fogueiras!

Quando abro a Constituição no artigo quinto, além dos signos, dos enunciados vertidos em linguagem jurídica, sinto cheiro de sangue velho!

Vejo cabeças rolando de guilhotinas, jovens mutilados, mulheres ardendo nas chamas das fogueiras!

Ouço o grito enlouquecido dos empalados.

Deparo-me com crianças famintas, enrijecidas por invernos rigorosos, falecidas às portas das fábricas com os estômagos vazios!

Sufoco-me nas chaminés dos Campos de concentração, expelindo cinzas humanas!

Vejo africanos convulsionando nos porões dos navios negreiros.

Ouço o gemido das mulheres indígenas violentadas.

Os direitos são feitos de fluido vital!

Pra se fazer o direito mais elementar, a liberdade,

gastou-se séculos e milhares de vidas foram tragadas, foram moídas na máquina de se fazer direitos, a revolução!

Tu achavas que os direitos foram feitos pelos janotas que têm assento nos parlamentos e tribunais?

Engana-te! O direito é feito com a carne do povo!

Quando se revoga um direito, desperdiça-se milhares de vidas …

Os governantes que usurpam direitos, como abutres, alimentam-se dos restos mortais de todos aqueles que morreram para se converterem em direitos!

Quando se concretiza um direito, meus jovens, eterniza-se essas milhares vidas!

Quando concretizamos direitos, damos um sentido à tragédia humana e à nossa própria existência!

O direito e a arte são as únicas evidências de que a odisseia terrena teve algum significado!”

Texto da Juíza Federal Raquel Domingues do Amaral.

terça-feira, 22 de janeiro de 2019

Lembrando Martin Luther King Jr


- Injustiça em algum lugar é uma ameaça à justiça em qualquer lugar.

- No final, você vai lembrar, não das palavras de nossos inimigos, mas do silêncio de nossos amigos.

- Começamos a morrer quando silenciamos sobre coisas que realmente importam.

- Nada no mundo é tão perigoso quanto ignorância sincera ou estupidez consciente.

- Inteligência e caráter - esse é o objetivo da educação de verdade.
-
Existe sempre alguma coisa boa no pior de nós e alguma coisa ruim no melhor de nós.
Quando descobrimos isso, somos menos inclinados a odiar os nossos inimigos.

- O amor é a única força capaz de transformar um inimigo em amigo.

segunda-feira, 12 de novembro de 2018


MOMENTOS BRASILEIROS

Imagem Museu Histórico RJ. Foto Vanda V. Castro.

Do livro "1822", de Laurentino Gomes:


Quem observasse o Brasil em 1822 teria razões de sobra para duvidar de sua viabilidade como nação independente e soberana. (...) Era uma população pobre e carente de tudo, que vivia à margem de qualquer oportunidade em uma economia agrária e rudimentar, dominada pelo latifúndio e pelo tráfico negreiro. O medo de uma rebelião dos cativos tirava o sono da minoria branca.

(...)

Frei Caneca, líder da Confederação do Equador de 1824 em Pernambuco, tinha um projeto razoável de Brasil, republicano e federalista, muito parecido com o dos Estados Unidos de hoje. Passou para a história oficial como um inconsequente porque perdeu. (...) Frei Caneca acabou seus dias diante de um pelotão de fuzilamento encostado no muro do Forte das Cinco Pontas, no Recife.

(...)

Em 1787, quando ainda era embaixador em Paris, Thomas Jefferson foi abordado pelo mineiro José Joaquim da Maia, o Vandek, estudante da Universidade de Montpellier. Queria ajuda dos Estados Unidos para fazer uma revolução no Brasil. Jefferson, que tinha outras preocupações mais urgentes, recusou, mas fez questão de reportar o caso ao Departamento de Estado americano. Vandek morreu no ano seguinte, antes de voltar ao Brasil.


Do livro "1889", de Laurentino Gomes:

O historiador Sérgio Buarque de Holanda fala numa "constituição não escrita", diferente da Constituição real, que ditava a política do imperador mais de acordo com as conveniências do jogo do poder do que na letra da lei.

(...)

"Entre nós, o que há de organizado é o Estado, não é a Nação", dizia, em 1887, o sergipano Tobias Barreto. (...) não é o povo, o qual permanece amorfo e dissolvido, sem outro liame entre si, a não ser a comunhão da língua, dos maus costumes e do servilismo". Visão parecida tinha o francês Louis Couty, professor estrangeiro da Escola Politécnica da Corte. Segundo ele, nas vésperas da Proclamação da República, faltava ao Brasil "um povo fortemente organizado, povo de trabalhadores e pequenos proprietários independentes (...) por si, sem um Estado-Maior constituído de comandantes de toda a espécie ou de coronéis da Guarda Nacional".

(...)

O abolicionismo de André Rebouças, Luís Gama, Joaquim Nabuco e José do Patrocínio era um movimento urbano, enquanto a escravidão permanecia como uma realidade rural. (...) Na campanha abolicionista havia, portanto, dois brasis em confronto. O primeiro, o dos defensores do fim da escravidão, era representado pelos advogados, professores, médicos, jornalistas e outras profissões urbanas - um país que frequentava escolas, atualizava-se pelos jornais, reunia-ae nos cafés para discutir as ideias e novidades do século XIX. O outro Brasil era o dos fazendeiros, ainda muito parecido com o da época da colônia - agrário, isolado, analfabeto, sem comunicações e conservador.

Os debates da época refletiam esse confronto. Em junho de 1884, o Imperial Instituto Baiano de Agricultura enviou uma petição à Câmara dos Deputadosna qual reclamava do movimento abolicionista. "A escravidão tendo entrado em nossos costumes, em nossos hábitos, em toda a nossa vida social e política, acha-se por tal forma a ela vinculada que extingui-la de momento será comprometer a vida nacional,perturbar sua economia interna, lançar esta na indigência, na senda do crime e no precipício de uma ruína incontável" alertava o documento. Parlamentares escravocratas ecoavam as reivindicações dos fazendeiros, evocando em seus discursos um cenário de catástrofe. "Os abolicionistas são salteadores; mas, para estes, tenho o meu revólver!", ameaçava Martinho de Campos, do Partido Liberal.

(...)

Em 1884, Ceará e Amazonas se tornaram as primeiras províncias a abolir a escravidão no Brasil - quatro anos antes da Lei Áurea. Um motivo é que nessas regiões, o trabalho cativo deixara de ser importante para a economia (...) ao contrário do que acontecia no sul do Brasil, especialmente no Vale do Paraíba, cujas fazendas de café dependiam totalmente dos cativos.

(...)
Escultura M. Oiveira, do antigo Cinema Palácio, RJ. Foto Vanda V. Castro.

Um episódio ocorrido em 1881 no porto de Fortaleza contribuiu para atrair as atenções para a luta contra a escravidão no Ceará. Foi o boicote ao embarque de cativos liderado pelo jangadeiro Francisco José do Nascimento, na época conhecido como "Chico da Matilde" e mais tarde rebatizado como "Dragão do Mar". Durante três dias, Nascimento e os colegas se recusavam a transportar para os navios um grupo de escravos vendidos para fazendeiros do sul do país. Em represália o jangadeiro foi demitido do cargo de prático da barra que ocupava na Capitania dos Portos do Ceará. A punição, no entanto, o promoveu de imediato à condição de herói do movimento abolicionista brasileiro.
Escultura M. Oliveira, do antigo Cinema Palácio, RJ. Foto Vanda V. Castro.

Em março de 1884, José do Patrocínio estava em Paris, fazendo propaganda do movimento abolicionista, quando recebeu a notícia de que, graças à luta do "Dragão do Mar" e seus jangadeiros, o presidente do Ceará, Sátiro Dias, acabara de anunciar o fim da escravidão na província. Alguns dias mais tarde, ao embarcar de volta para o Rio de Janeiro, trazia como troféu na bagagem uma cartinha do escritor Victor Hugo celebrando o feito cearense:

Uma província do Brasil acaba de declarar a escravidão abolida (...) esta notícia tem um alcance imenso. (...) O Brasil infligiu na escravidão um golpe decisivo. O Brasil tem um imperador, e este é mais do que um imperador, é um homem. Que continue. Nós lhe damos os parabéns e o homenageamos. Antes do final do século, a escravidão terá desaparecido da Terra. A liberdade é a lei humana.

(...)

"Vocês fizeram a República que não serviu para nada. Aqui agora, como antes, continuam mandando os Caiado". CAPITÃO FELICÍSSIMO DO ESPÍRITO SANTO CARDOSO, bisavô do presidente Fernando Henrique Cardoso, em telegrama enviado de Goiásao filho, Joaquim Inácio, que ajudara a proclamar a República em 1889.

sábado, 20 de agosto de 2016

Olímpica, Estoica, Helênica e Inocente


Pulei da cama e fui até a beira da Lagoa, bem pertinho, para tentar fotografar ou apenas guardar na retina talvez a última imagem ao vivo da “nossa” olimpíada. Sabia da canoagem hoje, e que seria na Lagoa.
Já que as canoas não estavam lá, e eu não tinha me informado direito, acostumada a ver as competições aquáticas volta e meia na esquina, apelei para o guarda nacional que fica ali, devidamente camuflado e de metralhadora em punho.
Respondendo ao meu “bom dia, ele falou assim: “Veja bem, coração, eles hoje não saem daqui, na canoagem remam menos que no remo, o percurso é mais curto, então ficam só do lado de lá."

Aaahhh!Do outro lado, eu teria visto também o triatlo, que passaria logo ali, mas eu estava do lado de cá, precisava tomar café, e já estava satisfeita, tinha tentado. E que importância tem uma Olimpíada? Para muita gente, nenhuma. Especialmente se não moram ou não estão no Rio, é quase um pecado se alegrar com ela! Já li e ouvi mais de um paulista afirmando isso, as “olimpíadas tristes”, disse um deles, mostrando - entre outras coisas que não vou dizer - que eles não sabem que a felicidade é uma gota de orvalho numa pétala de flor, voa tão leve, tem a vida breve, e se você quer um pacote inteiro de felicidade, não vai ter, assim no atacado, ela não vem, não vem... vale comer pelas beiradas, saber aceitar as que estão a seu alcance! Vale brigar por ela, claro, mas vale mais até saber que uma coisa não anula outra, e que é essencial saber como brigar, e mais do que isso, saber porque se está brigando. E de preferência, nunca porque as uvas estão verdes!
Eles não sabem, bobinhos, que as Olimpíadas, além de terem sido acordadas num momento mais feliz desse país, além de já então inevitáveis, além de ser um evento que independe do golpe que estamos sofrendo, e que não têm que pagar por isso, elas têm o seu lado alegre, trazem, também, alegria. A cidade se mostrou adequada para elas, que tem que acontecer em algum lugar, e foi aqui. Muita coisa boa vai ficar, sim, e o que foi feito de maldade, foi feito porque as pessoas que decidem às vezes são más e não fomos fortes o suficiente para evitá-las antes. E quem foi? Onde? E o evento aqui foi muito útil para espalhar pelo mundo, de muitas formas, corajosas e criativas, denúncias sobre o golpe de estado em curso no país.
O Rio não tem culpa, pelo contrário. Brasília, por exemplo, tem culpa, o golpe é que fica muito longe. Se a capital fosse aqui, já teria sido desmoralizado. Vai daí que quando ouço ou leio um discurso que me parece mal colocado, tenho logo vontade de responder. Bobagem. As pessoas não estão falando comigo, não querem resposta, querem ter razão. Elas estão falando com elas, para elas, no máximo, para agradar quem já pensa como elas. Isso sim, é triste. As Olimpíadas, não.

sexta-feira, 13 de maio de 2016

O QUINTAL


Quando a gente nasce num quintal, vai conhecendo as possibilidades: colher umas frutas, plantar bananas, plantar bananeiras pra se distrair, nada de muito grande nem espalhafatoso, quintal não é latifúndio, criar gado, um bifinho, isso não é para o bico de quem nasce num quintal. Planta umas ervinhas, planta boldo que faz bem pro fígado, capim-cidreira, alecrim, quem tem um canteirinho assim pode até dar uma de curandeiro. Já um cirurgião, muita especialização, num quintal, não pode ser. Quintal tem limite. Tem muro, mesmo que nem sempre seja de concreto. Quando você cresce, é curioso, é sonhador, resolve olhar além do muro. A mãe puxa logo a gente pela blusa, vem pra dentro e pra baixo, o que é isso, meu filho, subir aí faz mal, é perigoso, desce daí. Mas você insiste, quer ver o mundo! E quintal tem mosquito, caramujo, lama, atoleiro, berne, verme, carrapicho, carrapato, micuim. E o quintal do vizinho não é sempre mais bonitinho? E não é que ele é? E grande! Verdinho!
Peraí, o meu poderia ser assim, eu sei fazer ele ficar bonito assim! Não poderia?
Usou o tempo certo do verbo, poderia, poderia, poderia, mas não é, e não será. Botou o nariz pra fora, pode vir bala, gás venenoso, uma bota enorme de um ser estranho muito maior do que você, perigos horríveis, que não só te proíbem de conquistar o quintal alheio, mas quando você se faz notar corre o risco de perder o seu! Um susto, um espanto!

Mesmo assim, tenho minha liberdade. De ir e vir - dentro do quintal. Ela não morre, se o espírito é livre! Nem que seja até num espaço menor, que caiba direitinho dentro da nossa cabeça. Liberdade ainda que tardia, ainda que seja para finalmente subir para o éter, as amarras acabam por se soltar um dia.
O céu ficou até um pouco azul depois da chuva, será que vai voltar a chover? Será que o sol vai abrir? São as atribulações de quem vive num quintal, é no que a gente pode pensar sem correr um grande risco de cair do muro, cair da cama quando sonha. Quem sonha logo percebe que pode ter pesadelo. Cair e se machucar. A mãe não avisou?

segunda-feira, 23 de novembro de 2015

Essencial, imortal e infinito


O que arde cura, o que aperta, segura - por que agora esse pensamento saído de um tempo em que se acreditava em certezas, e se havia sofrimento, maior era a garantia?

Como também já houve o tempo da taquigrafia, da datilografia, do mimeógrafo, e por que não, da máquina de escrever, embora não esteja assim tão extinta quanto estão os dinossauros. Eles não andam mais por aqui mas deles ainda conservamos muitos ossos, e também há quem se dedique a eles com devoção.
O que podemos considerar que seguramos e nos é assegurado num mundo mutante e na corda bamba, que passa celerado assustando tanto o passado? mas que conserva seus dinossauros e dinossauros humanos ainda movidos à devoção?

O ritmo e as mudanças podem até assustar, mas são, deveras, razão para assombro, pois que ao longo do tempo a humanidade evoluiu e muito, até no sentimento humanitário. Se hoje nos chocamos com aberrações que deveriam ter sido extintas em algum lugar do passado, é porque a evolução é o padrão, e é o que se espera da humanidade, sempre. A evolução e o passado não se estranham, já que estão sempre consequentemente ligados.

Tenho me voltado demais para o passado, desenterrando histórias de avós e bisavôs, e não foi nem ideia minha, portanto se existem pessoas querendo saber de bisavôs e de seus feitos, se em nome da História se olha para trás, a celeridade, a ousadia, a impessoalidade, o descompromisso, as desamarras, a inconstância, a fila que anda, anda, anda, não teriam também sua cota de dias contados? Será que o mundo, que não sabe mais o que fazer com o seu lixo, tanto lixo, reserva um bom lugar para uma quimera?
Quisera. Quem dera.

quinta-feira, 17 de setembro de 2015

Notícias


Quando eu ainda buscava ideias de pautas, mais de uma vez, por motivações variadas, sugeri um programa em torno da felicidade – o que é - se existe - onde ou como encontrá-la, podemos viver sem ela ? ( "risos" para um formato que, pela longa permanência no ar, virou motivo de troça, para usar uma palavra de outro tempo).

Numa dessas vezes fui motivada pela resenha de um livro que argumentava justamente que a felicidade não é mais possível no mundo atual, já que ninguém é uma ilha e recebemos notícias de tragédias, tristezas e males vindos de todos os lados do planeta. Impossível ser indiferente ao que acontece na Síria, Irã, Iraque, em quase toda a África, se eterniza no Afeganistão, no Vietnã um pouco mais atrás, atrocidades sem nome e sem data, dentro e fora do mapa.
“Você parece carregar as dores do mundo” ouvi de um terapeuta e fiquei até hoje sem entender, porque a terapia foi curta e também porque como não sentir dor vendo crianças vivendo na rua, o que tinha sido o meu comentário ali. Então não é comigo? É comigo, sim, é com todos, muito mais até com os que não sentem que é com eles, mas o que fazer? Não ver? Não ler? Não fazer, já que uma gota não transforma um mar?
Comecei a separar: o que me interessa é o que é possível transformar com a mobilização que uma notícia tem o poder de provocar. Não é pouco, mas a cobertura dos fatos é feita seletivamente, e muito frequentemente, de maneira arbitraria. Vai ficando difícil, quase impossível encontrar isenção e honestidade no que se noticia, como é impossível achar um equilíbrio entre boas e más notícias. É mesmo desequilibrada a cobertura midiática.

Viciada em notícia desde criança, quando meu pai chegava com O Globo, para os quadrinhos que eu e meus irmãos seguiam, o Jornal do Brasil para todo o resto, O Cruzeiro quando atraía mais do que a televisão, que eu não via, outro dia, sem nenhum motivo aparente, me veio uma lembrança esquecida, da primeira redação em que trabalhei: logo que entrei no jornal fui escalada para selecionar notícias que importassem e que coubessem em pequenas frases, que eu deveria mandar para uma empresa que tinha um contrato com o jornal e as exibia, passando numa faixa luminosa, emolduradas pelo morro do Pão de Açúcar, uma cena que me chamava a atenção desde criança. Como pude esquecer?
Era por volta desse tempo que Caetano, o dos bons tempos, perguntava: “Quem lê tanta notícia?”.
As notícias andam mentindo muito, e eu não gosto de me enganar, por isso estou me voltando contra o tempo, o relógio, a atualidade, tenho agora mais prazer com coisas atemporais, incluindo aí as memórias que guardo, bem fora da ordem. E falando de mim posso estar falando de muita gente, mesmo não esquecendo de quem precisa ou insiste em lidar com as últimas notícias, mas em tempos de infelicidade quase plena, o caminho pode ser seguir o clichê: olhar para as pequenas coisas, e deixar o mundo um pouco de lado.
Uma biografia de Saint-Exupéry – quinhentas e tantas páginas, em inglês, com letrinha pequena, rende que é uma beleza, leio aos poucos para, a cada volta, mergulhar nas suas aventuras, hora no deserto, hora no ar, em Paris, na África ou na América do Sul. Nas asas da Aeropostale, que voaram antes que as da Panair – e essa é outra história boa de ler.
Um pensamento do escritor acima me pareceu particularmente atual – ele falava de um momento, na década de 30, na Europa, em que o mundo estava virando um lugar cada vez menos hospitaleiro:
“O essencial é continuar vivo. Não podemos esquecer disso, mas hoje os viventes são obrigados a se defender como se estivessem sendo ameaçados o tempo todo”.
Vivemos muitas batalhas e ataques por aqui. As guerras, as ameaças, mudam de endereço, mudam de padrão e muitas vezes se repetem sem que muita gente se dê conta. A culpa é toda das notícias, que não dão conta de nos contarem o essencial.