domingo, 7 de fevereiro de 2010

Concentração

Olha o Bloco de novo aí, gente!













É pequeno, mas balança - Cinco anos de folia
(Fernando Pinto/ Bernardo Pinto)

É pequeno, mas balança, meu amor
Chega mais perto para sentir a sensação
São cinco anos de folia
De fantasia
E muita empolgação

Ô Ô Ô Geisy, vestido curto, eu curto!
Dinheiro na meia em Brasília,
Que coisa feia, sem vergonha, essa quadrilha.

Me beija
Hoje é carnaval
Festeja
Até o final
O mundo parou no tal ponto G
Sambando eu vou mostrar para você
O mundo parou no tal ponto G
Sambando eu vou mostrar para você

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Eco e Narciso


Eco, a ninfa das fontes e das florestas, como já tinha acontecido com muitas outras ninfas, se apaixonou por Narciso. Ele era bonito e desejado, e não se comoveu com o amor de Eco – estava acostumado, afinal, era apenas mais uma ninfa. Ignorada pelo seu amor, e inspirada por Nemesis, a deusa da retribuição, ela lançou uma praga – que pegou – e que fez com que Narciso, recostado no pé de uma fonte, visse sua própria imagem e se apaixonasse por ela. Seus pais já tinham sido advertidos por uma adivinha quando ele nasceu: ele não poderia olhar para si mesmo.
Eco fazia parte da turma da deusa Hera, irmã e mulher de Zeus. Tinha uma voz linda, e distraía Hera com suas histórias enquanto Zeus se divertia com as ninfas. Quando Hera percebeu, condenou Eco a apenas repetir as palavras que outros dissessem.
Passando pelos campos, Eco encontrou Narciso mas não conseguiu revelar o seu amor. Rejeitada, ela se retirou para a floresta e morreu. Seus ossos viraram pedras e tudo que restou dela foi sua voz. Narciso virou uma flor.
A mitologia grega tinha um jeito lindo de falar da realidade e de traços mais do que humanos.


Essas duas obras primas estão entre as primeira peças metálicas de grande porte fundidas no Brasil. Faziam parte do Chafariz das Marrecas, de Mestre Valentin, no centro da cidade, e foram salvas pelo antigo diretor do Jardim Botânico na época em que ele foi destruído. Como tudo no mundo e na vida, sortes e infortúnios se misturam: elas hoje embelezam o Jardim Botânico do Rio que não existiria se as tropas de Napoleão não tivessem feito D.João VI fugir para cá de mala e cuia.

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010


“O verdadeiro patriotismo é o que concilia a pátria com a humanidade”.

“A escravidão permanecerá por muito tempo como a característica nacional do Brasil.
Como pode ser criado para a democracia um povo que pratica a igualdade com a escravidão, a liberdade com a escravidão, a fraternidade com a escravidão?
É preciso que os brasileiros possam ser proprietários de terra, e que o Estado os ajude a sê-lo. Não há empregos públicos que bastem às necessidades de uma população inteira.
O que pode salvar nossa pobreza não é o emprego público, é o cultivo da terra, é a posse da terra que o Estado deve facilitar aos que quiserem adquiri-la.
A propriedade não tem somente direitos, tem também deveres.
O trabalho sem a instrução técnica e sem educação moral do operário não pode abrir um horizonte à nação brasileira.
Haverá indiferença mais criminosa do que a indiferença com que a classe única que dirige os destinos deste país desde que ele se fundou, tem assistido ao crescimento desamparado da nossa população, à promiscuidade de nosso povo, à miséria que se espalha pro todo o país, à degradação dos nossos costumes, só se preocupando dos seus interesses de classe, de manter o jugo férreo dos seus monopólios desumanos e atentatórios da civilização universal?”

Joaquim Nabuco (1849 – 1910), político, escritor, diplomata, poeta, abolicionista.

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Assim é...


Com a vida real sempre no calcanhar, não se tem chance de olhar muito pro lado. Ilusão é luxo só. Sonho de consumo, fruto proibido.
Mas a gente sempre acaba achando espaço para umazinha, porque ilusão é, na verdade, artigo de primeira necessidade, até quando não se sabe lidar muito bem com ela. Desconfio que as pessoas vivam até sem amor, mas não vivem sem sonhar com um.
A corda bamba é muito mais sedutora do que o líquido e certo, mas se ficar só olhando pássaro voando, acaba caindo do cavalo.
É um longo aprendizado saber a que distância a gente consegue ficar do chão, qual o tombo que agüenta levar. O ofício de equilibrista exige diploma.
Hoje, chego a achar bom perder uma ilusão. É sinal de que um dos pés se consegue manter no chão.
Já os dois, acho que é demais. Alguma patologia de estimação a gente deve poder guardar, escondida no bolso de dentro do casaco. Acreditar que Deus existe e é nosso conterrâneo, acreditar no que prometem os poetas, tem tantos e tão bons, não podem ser todos delirantes, teriam alucinações coletivas?
O Haiti existe, maldade é coisa concreta que merece o nosso desprezo, merece murro, mesmo em ponta de faca, não pode ser olhada como realidade. Realidade é a que a gente escolhe fazer, leve o tempo que levar. Com o auxílio luxuoso dos sonhos, das ilusões, do pensamento. Positivo.

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Vida Vegetativa




domingo, 17 de janeiro de 2010

Humanos


Li, em algum lugar que não lembro agora, mais um belo ditado vindo da África, continente que já nos ensinou tanto: “Se quer chegar rápido, vá sozinho. Se quer ir longe, vá com os outros.”
Penso que escrever é essencialmente um ato de doação e procura.
Escreve-se por vários motivos, por ofício, pela necessidade que um talento tem de transbordar, por exibição, por afirmação, pela nobre iniciativa de partilhar o conhecimento, pela busca de afinidades, mas independente de talento ou resultado, quem escreve não quer ficar sozinho. É sempre uma mão estendida para quem lê. Mesmo que seja para uma só pessoa, é a expressão de um pensamento de quem quer ir além de si mesmo.
Eruditos se voltam com muita frequência para sua própria erudição, e acabam fechados e afastados, desinteressados mesmo por quem não acompanha ou compartilha seu apromoramento. Portanto, ter talento apenas não opera mudanças, não basta cultura e conhecimento para que a humanidade evolua, vontade de partilhar é a questão fundamental. Talvez por isso a evolução humana seja tão vagarosa, e acabe tendo mais sucesso na comunicação com as massas quem faz isso movido por algum interesse mais palpável e imediato, menos altruísta. Generosidade é a ponte, e tem mão dupla: aprendemos e assimilamos o que queremos absorver, o que permitimos que nos emocione. Como um bonus, quem não se fecha tem mais chance de se enriquecer e se aprimorar com as trocas.
Qualidades humanas de naturezas diferentes.
Enfrentar uma lauda ou uma tela em branco, coisa impossível para alguns, pode ser muito fácil para quem tem talento – mais fácil, muitas vezes, do que virar uma página.

Todos estamos abalados com o drama haitiano, esse país-vítima desde que se entende por nação, é não é certamente por um problema de religião ou raça.
Raça, a negra já mostrou que só não é mais forte do que pólvora e concreto. Religião tem servido de instrumento, através dos tempos, para governos ditatoriais e manipuladores. Países católicos, países islâmicos sabem disso. A geografia, pela localização estratégica, ao longo dos séculos, fez do Haiti um país-vítima muito antes do terremoto. Seria um pequeno consolo saber que os milhares de mortos pelo menos conseguirão despertar uma consciência maior para permitir que mais gente entenda porque é que o Haiti é tão pobre e indefeso. Essas considerações, junto com o trauma e o desconhecimento da língua, talvez sejam uma explicação mais plausível para a declaração do cônsul haitiano no Brasil, que vi anteontem na rede. A natureza humana é complexa e diversa, mas vou morrer sem aceitar fácil que possa ser tão perversa.
O Haiti se tornou a primeira república negra no mundo, em 1804. Um país tão pequeno ameaçou o mundo escravagista, e enfrentou por isso um boicote mundial por mais de sessenta anos liderado pelos (norte)americanos, que também apoiaram dois ditadores haitianos por três décadas. Acabaram abandonando a agricultura de subsistência para exportar arroz dos EUA, passaram por um golpe que depôs o presidente, tudo isso aconteceu com a conivência da "elite" haitiana. Essa história não parece muito diferente da nossa. Pensando bem, pode ser mesmo muito perversa e pervertida a natureza humana.

domingo, 3 de janeiro de 2010

De primeira


Ultimamente não tenho ouvido. Vai ver é só porque não estou mais conversando com as mesmas pessoas, mas há uns dez anos, ouvia muito por aqui: “coisa de primeiro mundo!” A expressão me parecia daninha. Ninguém pode ser melhor do que é, mas acho que todo mundo tem que evoluir. Ilusão e deslumbramento não melhoram nada, pelo contrário, só atrasam. O que mais me incomodava é que quem mais enchia a boca com a expressão era geralmente quem mais viajava, mas pelo jeito não tão bem, ou então não conhecia direito o que estava elogiando.
Eu estava voltando de uns anos no primeiro mundo de verdade, e quando mencionava alguma coisa que tinha me entusiasmado lá e que eu desconhecia no Brasil, sentia que não despertava interesse, mais do que isso, não agradava. O primeiro mundo era aqui mesmo e pronto, me conformei.
Mas não consegui deixar de trazer uma publicação que peguei nas últimas férias, com a programação do último verão de um parque – apenas um, e não é o maior - de Nova York, que resolvi listar abaixo.

Programação de verão – 2009 – Bryant Park:

* Segundas ao por-do-sol, de 15 de junho a 17 de agosto – filmes clássicos na tela grande sob as estrelas.
* Hora do almoço às quintas com um cantor ao vivo interpretando os maiores sucessos dos musicais da Broadway, de 9 de julho a 13 de agosto.
* Piano no parque, de maio a setembro, no terraço superior, 42 concertos com os melhores pianistas da cidade, das 12h às 13:45.
* Aulas grátis: pétanque, tai chi, pipas, yoga, xadrez. Torneios de pétanque, gamão e xadrez.
* Encontro com aves exóticas levadas pelo centro educacional de um criadouro de pássaros.
* Sala de leitura sob as árvores – de 13 de maio a 15 de agosto, encontro com autores, escritores, diretores, contadores de histórias, leitura de poesias, escritores mirins, clube do livro.
* Diariamente no parque: cobertura de internet sem fio, centenas de livros, revistas e jornais grátis disponíveis para todos (oferta de um Banco), ping-pong (reserva de horários, raquetes e bolas grátis).
* Mágicos e jogos para crianças – junho, julho e agosto.

Junto com toda a agenda dos eventos, um mapa e as informações sobre metrôs e ônibus que servem o parque, que fica nos fundos da Biblioteca Pública de Nova York.
Quem sabe um dia cola por aqui... e se acontecer, eu não vou me importar nem um pouco de ouvir que nossa programação cultural é de primeiro mundo.

quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

Icebergs, relevos e transparências


A humanidade, uma cidade, cada pessoa é um iceberg do qual só se conhece a pontinha. Ninguém, com diploma ou sem, pode dizer que domina os subúrbios, os subterrâneos, os subterfúgios do coração, as surpresas da alma, as coisas que não são ditas.
Sobre o que se diz e o que se escreve, no entanto, ter algum compromisso com os fatos do jeito que eles se deram me parece necessário, ou nossas expressões acabarão totalmente irrelevantes e descartáveis.
Vivi, por isso conheço de perto uma parte pequena da história do jornalismo brasileiro, e no entanto constato quase diariamente que essa pequena parte que conheço é muito pouco e muito mal conhecida. O Brasil não é um país acometido de falta de memória, é um país onde se trava uma luta de foice contra a memória, ou a favor da irrelevância dela. Acabo de ler que perdemos mais uma batalha: constataram a ineficácia do gingko biloba!
Nos tempos da ditadura militar, quase todas as pessoas com quem eu convivia eram contra a ditadura. A luta por mais liberdade igualava a todos. Finda a ditadura, acho que a única saudade possível daqueles tempos sombrios seria a da ilusão de que todos eram idealistas, generosos e humanitários e que continuariam sempre lutando por um país melhor. Pura ilusão de quem era muito jovem. Liberdade é uma excelente bandeira, mas sozinha não faz verão, em um país de forças tão desiguais.
Sempre que leio alguma coisa sobre alguém que viveu aqueles tempos, é raro encontrar alguém que não tenha sido da turma do Pasquim. Era uma turma até pequena, com quem convivi durante décadas, mas a julgar pelo que leio frequentemente, e é o que vai ficar arquivado na Biblioteca Nacional, só o guarda da minha esquina talvez não tenha feito parte daquela turma.
Nos meus breves tempos de jornalismo impresso, ouvia bastante que “papel aceita tudo”, uma advertência à temeridade de se acreditar no que se escrevia irresponsavelmente.
Hoje vejo que “avançamos”: não só aceita tudo como tudo – sendo verdadeiro ou falso - se justifica em prol de alguma causa, nobre ou não, isso é irrelevante, como pode ser irrelevante pensar, pesar, escolher, se esmerar, criticar. O importante é sobreviver, e bem, cada vez melhor, de preferência. Quem vai discordar? Nada mais subjetivo do que um julgamento. Mas falta de relevo não produz um horizonte de total monotonia?
Licença poética deveria ser reserva dos poetas. Falando em poetas, lembro Drummond, que já fez parte da equipe de um glorioso Caderno B, e sua advertência sobre novidades: quem quiser ter um Ano verdadeiramente Novo, tem que tratar de fazê-lo novo! Ele não vem embutido no calendário.
Feliz Ano Novo a quem quiser e souber fazê-lo!

sábado, 12 de dezembro de 2009

Surpresas do mundo digital


Depois de bater o ponto na tapioca da feira, fui entregar essa foto – quando vi as pimentas outro dia e pedi para tirar a foto, o rapaz me pediu uma cópia, e fui hoje pagar a promessa. Eu o conheço de vista, costuma ficar sentado ao lado de um sinal de trânsito perto da minha casa e aos sábados me parece que os feirantes deixam que ele fique lá. Sabe o que ele me disse quando recebeu a foto?
- “Ôba, vou botar no Orkut!”

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

Vida aventureira, vida eterna


Fim de férias, solta na vida, e já que resolvi não me jogar em uma aventura maior, me aventurei pela cidade. Fui bater na Gávea, num salão que freqüentei por pouco tempo há décadas, antes da minha filha nascer, e onde ela agora, por acaso, corta o cabelo. Conversando com a manicure, ela contou que a filha, recepcionista num consultório médico, abriu uma exceção e deixou uma paciente usar seu computador de trabalho. A cliente tinha urgência de entrar no MSN e “falar” com uma amiga que está na Europa, e a diferença do fuso não permitiria esperar. A moça teve a sensibilidade de perceber que a urgência era dupla: a paciente tem 95 anos.
Esqueci o que provocou esse relato, só lembro que a manicure terminou dizendo que achava a velhice uma grande injustiça, como se coubesse julgamento sobre coisa já decidida mesmo contra a nossa vontade.
Mas como dizem que a vida recomeça a cada dia, mesmo envelhecendo ando bem a fim de pegar uma carona nesse recomeço. Também por isso abri mão de viajar nas férias, não carecia, estou embarcada numa viagem completamente individual e tanto faz o bairro, a cidade ou o país em que eu me encontro. Arrumar os armários está me fazendo revirar tudo, e olhando para a lata de lixo, acho que o saldo está sendo bom.
Entre as pilhas de matérias que guardo para ler quando tiver tempo, acho algumas de 2004, 2005, 2006, anos revirados e numa delas, o título é de uma escritora americana: “escrever não é fazer terapia”.
Em outro momento, talvez desligasse o computador, desanimada. Fiz melhor: joguei a matéria no lixo. Todo mundo sabe que qualquer um pode se intitular escritor, já fazer literatura, são outros quinhentos, mas sempre fui do time a favor do que quer que ajude a passar melhor a noite, incluindo cigarro e whisky, que eu felizmente posso dispensar, mas cada um que se organize como puder. E se além da minha eu ainda tiver chance de melhorar o dia e a noite de alguém? Escrevo para me comunicar, pode ser até comigo mesma, e se com isso evitar uma pipoca no cotovelo, meu ou de quem quer que seja, o mundo melhora.
A vida nos restringe, mas a gente se acotovela, empurra pra cá, empurra pra lá, e vai conseguindo mais espaço, mesmo tentando não quebrar os ovos nem o salto do sapato. Sendo cuidadosa, fica mais difícil, mas a gente sempre colhe alguma coisa quando planta. Acho que triste deve ser ficar velho sem ir amadurecendo.
A humanidade tem mania de ser feliz, e eu não sou melhor do que ninguém, mas fico satisfeita com o que conseguir, sendo de verdade.
Vivo o presente. Nesse momento ficaria feliz se pudesse ir ao show do Manu Chao na Fundição, que acabo de ver que vai ter hoje, e me dei conta de que nem uma só pessoa que eu conheço me acompanharia nesse programa. Talvez tenha nascido no lugar ou na geração errada, pensei, para em seguida pensar melhor: meia noite com chuva na Lapa, cá entre nós, nem mesmo eu me animaria. Peguei um filme japonês no vídeo. Talvez alguma coisa eu tenha mesmo que deixar para a outra encarnação.