sábado, 20 de agosto de 2016

Olímpica, Estoica, Helênica e Inocente


Pulei da cama e fui até a beira da Lagoa, bem pertinho, para tentar fotografar ou apenas guardar na retina talvez a última imagem ao vivo da “nossa” olimpíada. Sabia da canoagem hoje, e que seria na Lagoa.
Já que as canoas não estavam lá, e eu não tinha me informado direito, acostumada a ver as competições aquáticas volta e meia na esquina, apelei para o guarda nacional que fica ali, devidamente camuflado e de metralhadora em punho.
Respondendo ao meu “bom dia, ele falou assim: “Veja bem, coração, eles hoje não saem daqui, na canoagem remam menos que no remo, o percurso é mais curto, então ficam só do lado de lá."

Aaahhh!Do outro lado, eu teria visto também o triatlo, que passaria logo ali, mas eu estava do lado de cá, precisava tomar café, e já estava satisfeita, tinha tentado. E que importância tem uma Olimpíada? Para muita gente, nenhuma. Especialmente se não moram ou não estão no Rio, é quase um pecado se alegrar com ela! Já li e ouvi mais de um paulista afirmando isso, as “olimpíadas tristes”, disse um deles, mostrando - entre outras coisas que não vou dizer - que eles não sabem que a felicidade é uma gota de orvalho numa pétala de flor, voa tão leve, tem a vida breve, e se você quer um pacote inteiro de felicidade, não vai ter, assim no atacado, ela não vem, não vem... vale comer pelas beiradas, saber aceitar as que estão a seu alcance! Vale brigar por ela, claro, mas vale mais até saber que uma coisa não anula outra, e que é essencial saber como brigar, e mais do que isso, saber porque se está brigando. E de preferência, nunca porque as uvas estão verdes!
Eles não sabem, bobinhos, que as Olimpíadas, além de terem sido acordadas num momento mais feliz desse país, além de já então inevitáveis, além de ser um evento que independe do golpe que estamos sofrendo, e que não têm que pagar por isso, elas têm o seu lado alegre, trazem, também, alegria. A cidade se mostrou adequada para elas, que tem que acontecer em algum lugar, e foi aqui. Muita coisa boa vai ficar, sim, e o que foi feito de maldade, foi feito porque as pessoas que decidem às vezes são más e não fomos fortes o suficiente para evitá-las antes. E quem foi? Onde? E o evento aqui foi muito útil para espalhar pelo mundo, de muitas formas, corajosas e criativas, denúncias sobre o golpe de estado em curso no país.
O Rio não tem culpa, pelo contrário. Brasília, por exemplo, tem culpa, o golpe é que fica muito longe. Se a capital fosse aqui, já teria sido desmoralizado. Vai daí que quando ouço ou leio um discurso que me parece mal colocado, tenho logo vontade de responder. Bobagem. As pessoas não estão falando comigo, não querem resposta, querem ter razão. Elas estão falando com elas, para elas, no máximo, para agradar quem já pensa como elas. Isso sim, é triste. As Olimpíadas, não.

sexta-feira, 13 de maio de 2016

O QUINTAL


Quando a gente nasce num quintal, vai conhecendo as possibilidades: colher umas frutas, plantar bananas, plantar bananeiras pra se distrair, nada de muito grande nem espalhafatoso, quintal não é latifúndio, criar gado, um bifinho, isso não é para o bico de quem nasce num quintal. Planta umas ervinhas, planta boldo que faz bem pro fígado, capim-cidreira, alecrim, quem tem um canteirinho assim pode até dar uma de curandeiro. Já um cirurgião, muita especialização, num quintal, não pode ser. Quintal tem limite. Tem muro, mesmo que nem sempre seja de concreto. Quando você cresce, é curioso, é sonhador, resolve olhar além do muro. A mãe puxa logo a gente pela blusa, vem pra dentro e pra baixo, o que é isso, meu filho, subir aí faz mal, é perigoso, desce daí. Mas você insiste, quer ver o mundo! E quintal tem mosquito, caramujo, lama, atoleiro, berne, verme, carrapicho, carrapato, micuim. E o quintal do vizinho não é sempre mais bonitinho? E não é que ele é? E grande! Verdinho!
Peraí, o meu poderia ser assim, eu sei fazer ele ficar bonito assim! Não poderia?
Usou o tempo certo do verbo, poderia, poderia, poderia, mas não é, e não será. Botou o nariz pra fora, pode vir bala, gás venenoso, uma bota enorme de um ser estranho muito maior do que você, perigos horríveis, que não só te proíbem de conquistar o quintal alheio, mas quando você se faz notar corre o risco de perder o seu! Um susto, um espanto!

Mesmo assim, tenho minha liberdade. De ir e vir - dentro do quintal. Ela não morre, se o espírito é livre! Nem que seja até num espaço menor, que caiba direitinho dentro da nossa cabeça. Liberdade ainda que tardia, ainda que seja para finalmente subir para o éter, as amarras acabam por se soltar um dia.
O céu ficou até um pouco azul depois da chuva, será que vai voltar a chover? Será que o sol vai abrir? São as atribulações de quem vive num quintal, é no que a gente pode pensar sem correr um grande risco de cair do muro, cair da cama quando sonha. Quem sonha logo percebe que pode ter pesadelo. Cair e se machucar. A mãe não avisou?

segunda-feira, 23 de novembro de 2015

Essencial, imortal e infinito


O que arde cura, o que aperta, segura - por que agora esse pensamento saído de um tempo em que se acreditava em certezas, e se havia sofrimento, maior era a garantia?

Como também já houve o tempo da taquigrafia, da datilografia, do mimeógrafo, e por que não, da máquina de escrever, embora não esteja assim tão extinta quanto estão os dinossauros. Eles não andam mais por aqui mas deles ainda conservamos muitos ossos, e também há quem se dedique a eles com devoção.
O que podemos considerar que seguramos e nos é assegurado num mundo mutante e na corda bamba, que passa celerado assustando tanto o passado? mas que conserva seus dinossauros e dinossauros humanos ainda movidos à devoção?

O ritmo e as mudanças podem até assustar, mas são, deveras, razão para assombro, pois que ao longo do tempo a humanidade evoluiu e muito, até no sentimento humanitário. Se hoje nos chocamos com aberrações que deveriam ter sido extintas em algum lugar do passado, é porque a evolução é o padrão, e é o que se espera da humanidade, sempre. A evolução e o passado não se estranham, já que estão sempre consequentemente ligados.

Tenho me voltado demais para o passado, desenterrando histórias de avós e bisavôs, e não foi nem ideia minha, portanto se existem pessoas querendo saber de bisavôs e de seus feitos, se em nome da História se olha para trás, a celeridade, a ousadia, a impessoalidade, o descompromisso, as desamarras, a inconstância, a fila que anda, anda, anda, não teriam também sua cota de dias contados? Será que o mundo, que não sabe mais o que fazer com o seu lixo, tanto lixo, reserva um bom lugar para uma quimera?
Quisera. Quem dera.

quinta-feira, 17 de setembro de 2015

Notícias


Quando eu ainda buscava ideias de pautas, mais de uma vez, por motivações variadas, sugeri um programa em torno da felicidade – o que é - se existe - onde ou como encontrá-la, podemos viver sem ela ? ( "risos" para um formato que, pela longa permanência no ar, virou motivo de troça, para usar uma palavra de outro tempo).

Numa dessas vezes fui motivada pela resenha de um livro que argumentava justamente que a felicidade não é mais possível no mundo atual, já que ninguém é uma ilha e recebemos notícias de tragédias, tristezas e males vindos de todos os lados do planeta. Impossível ser indiferente ao que acontece na Síria, Irã, Iraque, em quase toda a África, se eterniza no Afeganistão, no Vietnã um pouco mais atrás, atrocidades sem nome e sem data, dentro e fora do mapa.
“Você parece carregar as dores do mundo” ouvi de um terapeuta e fiquei até hoje sem entender, porque a terapia foi curta e também porque como não sentir dor vendo crianças vivendo na rua, o que tinha sido o meu comentário ali. Então não é comigo? É comigo, sim, é com todos, muito mais até com os que não sentem que é com eles, mas o que fazer? Não ver? Não ler? Não fazer, já que uma gota não transforma um mar?
Comecei a separar: o que me interessa é o que é possível transformar com a mobilização que uma notícia tem o poder de provocar. Não é pouco, mas a cobertura dos fatos é feita seletivamente, e muito frequentemente, de maneira arbitraria. Vai ficando difícil, quase impossível encontrar isenção e honestidade no que se noticia, como é impossível achar um equilíbrio entre boas e más notícias. É mesmo desequilibrada a cobertura midiática.

Viciada em notícia desde criança, quando meu pai chegava com O Globo, para os quadrinhos que eu e meus irmãos seguiam, o Jornal do Brasil para todo o resto, O Cruzeiro quando atraía mais do que a televisão, que eu não via, outro dia, sem nenhum motivo aparente, me veio uma lembrança esquecida, da primeira redação em que trabalhei: logo que entrei no jornal fui escalada para selecionar notícias que importassem e que coubessem em pequenas frases, que eu deveria mandar para uma empresa que tinha um contrato com o jornal e as exibia, passando numa faixa luminosa, emolduradas pelo morro do Pão de Açúcar, uma cena que me chamava a atenção desde criança. Como pude esquecer?
Era por volta desse tempo que Caetano, o dos bons tempos, perguntava: “Quem lê tanta notícia?”.
As notícias andam mentindo muito, e eu não gosto de me enganar, por isso estou me voltando contra o tempo, o relógio, a atualidade, tenho agora mais prazer com coisas atemporais, incluindo aí as memórias que guardo, bem fora da ordem. E falando de mim posso estar falando de muita gente, mesmo não esquecendo de quem precisa ou insiste em lidar com as últimas notícias, mas em tempos de infelicidade quase plena, o caminho pode ser seguir o clichê: olhar para as pequenas coisas, e deixar o mundo um pouco de lado.
Uma biografia de Saint-Exupéry – quinhentas e tantas páginas, em inglês, com letrinha pequena, rende que é uma beleza, leio aos poucos para, a cada volta, mergulhar nas suas aventuras, hora no deserto, hora no ar, em Paris, na África ou na América do Sul. Nas asas da Aeropostale, que voaram antes que as da Panair – e essa é outra história boa de ler.
Um pensamento do escritor acima me pareceu particularmente atual – ele falava de um momento, na década de 30, na Europa, em que o mundo estava virando um lugar cada vez menos hospitaleiro:
“O essencial é continuar vivo. Não podemos esquecer disso, mas hoje os viventes são obrigados a se defender como se estivessem sendo ameaçados o tempo todo”.
Vivemos muitas batalhas e ataques por aqui. As guerras, as ameaças, mudam de endereço, mudam de padrão e muitas vezes se repetem sem que muita gente se dê conta. A culpa é toda das notícias, que não dão conta de nos contarem o essencial.

sábado, 24 de janeiro de 2015

O afeto que se encerra


Uma jovem amiga - amiga por tabela, mas nem por isso menos querida, me surpreende dizendo que quer conversar comigo sobre...casamento!

Abri um dia o livro Mentes Inquietas, e fechei na primeira página para nunca mais abrir porque ali descobri que a minha não sossega nem quando durmo. Talvez um terço, se não mais desse tempo infernal em que a minha trabalha, eu tenha dedicado a esse espinhoso e insolúvel problema que persegue democraticamente casados e descasados, por isso posso dizer que minha amiga procura uma fórmula que ainda não foi inventada, nem nunca será, desconfio.

Casamento foi um jeito legal de organizar a sociedade, de dar um rumo e um cunho nobre aos nossos instintos selvagens, depois que saímos das cavernas e nos agrupamos em sociedades que se pretendiam civilizadas. Só isso? Os humanos não tiveram que ser inteiramente domados para isso - embora muitos necessitem, sim, de chibatadas por comportamentos inaceitáveis em qualquer espécie, seja humana ou irracional. Essa solução partiu da exploração de instintos autênticos em inúmeras espécies animais, de escolha, exclusividade, necessidade de proteção da prole. Procriar é um projeto a dois, a não ser que, no momento da partida, se decida e explicite o contrário. Caso contrário, decidir sozinho nesse campo é deslealdade das mais deploráveis. Porque o resultado de uma gravidez não é nada descartável, é fonte de alegria e problemas enquanto dura a vida.

Somos desiguais, os iguais se procuram, as desigualdades interessam e estimulam, variam os motivos que norteiam as escolhas. Uma vez feitas, elas carregam, sim, princípios mais aprimorados de humanidade, como a lealdade. Que pode ser confundida e mal comparada com sinceridade, mas é coisa bem diferente. Sinceridade de sentimentos é básica e fundamental. Já sinceridade tipo confessionário, como as doutrinadas em instituições religiosas, é coisa traiçoeira. Trair também é um verbo que se conjuga de várias maneiras. A traição que era prevista e punida em antigos códigos penais pode machucar mas não necessariamente condenar. Até porque os códigos entre casais também variam. O que é e sempre será condenável não é esse tipo de traição, mas deslealdade. Enganar não é apenas trair, é puxar o tapete, é dissimular, é desrespeitar, é não pensar no outro quando são duas as pessoas envolvidas. Muitas vezes isso acontece porque uma pessoa vai se distanciando tanto da outra, embolando tanto o meio de campo enquanto se supunha entre quatro paredes, que perde a noção do limite, despejando enfim no outro a tal sinceridade quase que para se redimir.
Melhor não falar de coisas negativas, é positivo o raciocínio desenvolvido aqui como é saudável a dúvida levantada pela minha amiga. Mesmo que ela olhe com muita suspeita o meu marco de quatro décadas ainda do primeiro casamento, incompreensão natural para quem não viveu o suficiente para entender o emaranhado das vidas compartilhadas por um longo tempo, a cobrança é pertinente e sincera da parte dela, na sua busca por explicações.
Como se sente um sobrevivente? Aliviado por ter sobrevivido, junto com o que acumulou e guardou, podendo conviver em paz com a maior parte das suas lembranças? Arrependido por não ter pulado do barco antes, por conta do peso que o tempo vai depositando nos ombros? Em nome de quê carregar tanto?
Sendo resultado de escolhas ou o rumo que a vida apresenta, quando caminha você nunca tem controle absoluto do resultado, já que adivinhar não vale, mas acredito que está no bom caminho quem procura se conhecer, pensar nas preferências e escolhas pessoais, aceitando principalmente que não se pode ter tudo, ou que não é decente ter tudo, ou alguém vai ficar sem...
Casamentos duram cada vez menos, isso é certo, então, se tem ao seu lado uma pessoa legal, e os dois querem filhos, talvez seja melhor agora começar cedo, para ter alguém que te ajude a empurrar o carrinho e dividir com você o tempo mais maravilhoso que pode haver, que é ver nascer e crescer a vida mais nobre, forte e encantadora que pode existir sobre a Terra. Por outro lado, não é mais seguro ir se conhecendo com o tempo, já que não existe mais muito pudor nesses tempos à la fakebook, e estão à mão todas as ferramentas para a dissimulação em massa? São tantas as tentações vazias de qualquer conteúdo, e tão grande a tentação de escolher conteúdo zero... É tão mais fácil agora apagar o passado, com um click se fica livre de muito entulho que antes se acumulava na gaveta, as fotos que guardo da minha avó vinham num encarte de papelão, com o nome e endereço do fotógrafo impresso em letra caprichada, hoje somem num segundo e você está a salvo de ser apunhalado por uma memória esquecida num canto de armário.

"O correr da vida embrulha tudo; a vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem. Ser capaz de ficar alegre e mais alegre no meio da alegria, e ainda mais alegre no meio da tristeza..."Guimarães Rosa se aplica aqui, como em qualquer lugar.
Sonhar não custa nada, ou custa caro, pode custar uma vida, por isso é bom sonhar com pelo menos um pé no chão.
Enganar não é o que se quer, acredito, mas se enganar a si mesmo é bastante frequente. Existem traços determinantes que o ser humano não escolhe ao nascer, alguns já vem mais aperfeiçoados - o tal do DNA - mas todo mundo pode se aprimorar. Quem quer, quem deseja sinceramente evoluir caminha na direção de se aprimorar, de buscar respostas e soluções, de pensar no outro, e não apenas seguir seus instintos e exercer suas vontades, comportamento que pode ser mais marcadamente masculino mas está longe de ser inerente ao gênero. Fácil como preencher um cheque ou passar o cartão. É que o sexo masculino dominou a sociedade por séculos, ainda é privilegiado no mercado profissional e conserva mais os traços de tempos truculentos, apenas isso.
O que é determinante no comportamento das pessoas, penso que é mesmo o caráter e a sensibilidade, resultados não só do DNA do indivíduo mas da criação que teve. Aí a coisa vem se complicando mesmo, em tempos já mais permissivos mas em gerações que ainda foram educadas essencialmente pela mães. Educar é tarefa árdua e nobre, mas acho que exercida com mais indigência quando se educava filhos homens. Por que será? Mães machistas? Mães intimidadas ou deslumbradas com seus filhos? Vaidade para mim é pecado mortal, sem essa de capital, carece de correção e não de compreensão e até louvor. Particularmente no sexo masculino. Vem disfarçada de pecado venial, mas é veneno, explosivo, passar muito, muito longe! Vaidade em excesso prioriza lixo, o que é substancial e verdadeiro vai para o fim da fila nas escolhas de um vaidoso. De novo, deixemos o que é negativo, é pra frente que se anda, buscar soluções para uma vida saudável e verdadeira é o que se deseja.

O Xis da questão é: sexo e casamento. Sexo e casamentos longos, e no meu tempo o desejo não passava tão rápido quando parece passar agora. Havia mais persistência e porque não dizer, imaginação! De novo vem aí o problema de criação, pessoas criadas cheias de vontades, mãos passadas na cabeça para não traumatizar, foram ficando mais fraquinhas - é preciso esquecer um pouquinho Freud, sem trauma não se cria!
O verbo encerrar é abrangente e antagônico, o sentido da frase do título pode tanto ser o de guardar, guardar com zelo e carinho, quanto o de terminar.
Terminar é triste, mas pode ser muito saudável e até estimulante quando passa a inevitável tristeza por quase tudo que se encerra. Mas existem muitas maneiras de se fazer uma só coisa, e aí lembro de novo o caráter e o sentimento, o afeto que se é capaz de ter, e de cultivar.
Pode haver afeto, sinceridade e decência até numa situação do que convencionalmente se chama de traição. É humano e frequente se enganar, e com isso, ferir os outros involuntariamente. A atitude aí, para não falar novamente em caráter, varia da coragem de cada um. Despreparo é sim, problema de criação. Segurar uma barra sozinho, sem se escorar no outro, ou até pior, culpar o outro quando se engana, ou quando escolhe dar um passo individual e como não dizer, egoísta, demanda coragem e caráter, sim, artigos que estão se tornando mais raros e voláteis até do que casamentos longos.
Em nome de quê se limita ou norteia o desejo hoje, sem o freio das religiões, que tinham muito mais peso no passado, sem o exercício de poder de quem é o mantenedor, antes das mulheres conseguirem um pouco mais de igualdade no campo profissional, sem o medo do inferno?
Numa sociedade organizada, cada um tem sua função, distribuição justa é a que é ajustada entre as partes.
Bom, o que não tem remédio pede uma solução caseira e individual... a gente fica com a que melhor se ajusta. Uma terapeuta me disse para dar notas à importância que cada coisa tem na vida, e seguir as prioridades. Não se pode, repito para mim e para quem quiser ouvir, ter tudo. Se a gente quer tudo, acaba às vezes perdendo o que não escolheria.

Na falta de solução, a gente recorre aos artistas. Gil afirma que o verdadeiro amor é vão, e eu acredito nele. Chico orienta a enviar os amores não amados para a posta restante. Não é o que se deseja, mas como talento e beleza abastecem o coração... mesmo assim, eu diria: acredite na arte, mas nem sempre nos artistas. O ser humano também pode ser muito vão.
Relações humanas não têm bula ou solução, mas têm uma estrela guia: afeto. Procure, cultive e respeite o afeto! E conjugue o verbo encerrar da maneira mais sublime: carregue no peito todo o afeto que conseguir. E fuja, passe a léguas de distância de quem pode até pensar que tem algum, mas não tem o suficiente para suprir um ser humano decente.

sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

Desacertos da língua portuguesa


Experimente procurar o significado de cachorrada - a descrição mais leve que vai encontrar é "ato ou atitude de mau gosto de uma pessoa para com outra". É daí pra baixo. Canalhice, indignidade, ato vil. E uma das maiores injustiças dessa língua. Só quem conhece cachorros entende a expressão "fidelidade canina". Tem ser mais fiel do que um cachorro? Mais amigo? sempre pronto para um agrado, incapaz de uma deslealdade.

Palhaçada, outro caso: um termo que já foi muito mais usado em tempos idos, mas me foi lembrado recentemente e tenho o impulso de usar muitas vezes, mas logo me corrijo, palhaços de verdade merecem respeito e admiração, fazem rir e não chorar, não nos atrapalham como os palhaços amadores.
A história desse país é uma história de desrespeito com a terrra, as gentes, e com a língua não pode ser diferente.
Grande parte das mães que educam os peitos varonis por aqui, por exemplo, já deveriam há muito ter sofrido um recall, levando junto seus rebentos.

A era da comunicação, com toda a contribuição do universo virtual, parece ter desagregado o valor das palavras, das letras, da língua, justo a base de toda a comunicação entre seres humanos.

Entrei na vida como burguesa, virei uma espécie de operária, e quando me aposentei aí mesmo é que comecei a trabalhar como gente grande. Seria feliz se terminasse meus dias como escrava das letras. Tenho muitas saudades do tempo em que podia ser mais assídua nesse blog, saudades mesmo de um teclado. A vida faz da gente gato e sapato. Gatos, não defendo, porque não conheço, e não consigo esconder meu desconforto com seres muito bonitos. Beleza física costuma produzir em cabeças sem muito cérebro, muita vaidade e pouco esforço mental. Que me perdoem as exceções da regra, que certamente hão de existir, mas essa combinação não costuma dar em nada que preste - que me perdoem os gatos e seus ferrenhos defensores.

Voltando à vaca fria - outra expressão animal e dela desconheço totalmente a origem, só sei o significado - língua não é coisa para amadores, nem para estrangeiros, que dificilmente destrincham totalmente uma língua que não é a sua apenas com estudo e sem vivência.

Viver também não é coisa para amadores. Amadores fazem muita besteira. Escrevem sem pensar, escrevem sem ler, só percebem o que fizeram depois do leite derramado.

Mas voltando novamente à vaca fria, trabalharia de sol à sol se tivesse apenas que lidar com a língua. Escrever é registrar o pensamento - quem escreve bem, geralmente pensa bem, principalmente quando relê, reescreve, repensa.

Com a vida meio de cabeça para baixo, pensar na língua ajuda a por as idéias em ordem, mesmo que seja para desorganizar tudo em seguida: a portuguesa não é a mais rica nem a mais sintética, nem a mais moderna. É a nossa, e gostaria de conhecer outras com a mesma intimidade. Ler em outras línguas aguça o sentido para a nossa, pela descoberta das semelhanças, as raízes comuns, além de nos defender das más traduções. Nunca esqueci a primeira vez em que pisei num país sem ter nenhuma pista do que falavam. Mesmo conseguindo, com a ajuda de línguas mais universais, me comunicar, não compreender o que te dizem produz uma sensação muito estranha, principalmente sendo mulher, e num país árabe. Estranha não quer dizer ruim, muitas vezes é o contrário - há descompromisso e uma certa liberdade quando as coisas do mundo fogem do nosso controle. Um dia ainda espero perder até o controle remoto da televisão.

Havia um tempo em que mandava cartões de Natal. Depois, passei a responder aos que recebia. Hoje, quase não recebo, e não respondo. O mundo virtual ficou rápido, ligeiro e menos pessoal, e sem dúvida a língua é uma das vítimas disso. Mas ficam aqui os votos de Feliz Natal a quem por aqui passar.

segunda-feira, 1 de setembro de 2014

Além do jardim


O Brasil é o país do futebol, e isso fica mais claro no período de eleições, quando as torcidas ficam ainda mais cegas, as pessoas ficam menos transigentes e muito, muito mais passionais. Sentido não faz, mas alguém discorda? Não tenho ligação nem sou filiada a partido nenhum. Gosto também de mudar de ideia, mas para a presidência votei sempre no PT, e não acho que tenha perdido meus votos, mesmo considerando os desacertos. É também a escolha de quem procura ficha limpa, e compreende que não é o regime que não é democrático, é o país, e isso não se muda em uma década. Esperava que fizessem mais? Esperava. Mesmo assim, o PT transformou esse país. E se o que se procura é realmente um pouco mais de justiça social, o Brasil já foi muitíssimo pior, num passado muito recente para estar sendo esquecido. Permitindo que o povo tivesse visibilidade, passasse a existir, fez mais pela saúde do povo do que se tivesse coalhado esse país de hospitais e postos de saúde.

Não tive nenhum lucro direto com governo nenhum, e muito menos com esse, aliás pelo contrário, posso dizer com certeza. O preconceito é bruto do lado de cá do túnel, é um partido estigmatizado, amigos se afastam, você deixa de ser "um deles". Mas não sou cega, e procuro ser justa, o país todo lucrou, aliás, quem mais lucrou é quem faz a campanha mais cerrada contra o PT. Vai entender.

Se já compartilhei na minha diminuta rede postagens sobre a Marina é porque acho que pode interessar até a quem pensa em votar nela, mas pode querer, como eu, mais informações sobre a nova Marina, porque ela está mesmo muito mudada. Aliás, ela muda muito, ninguém pode negar, e isso sim pode ser de assustar numa candidata. Chega falando em escolhas e se anuncia como nova, mas nova como, se escolheu se cercar do que a gente já conhece de outros tristes carnavais, estão aqui há quinhentos anos e não nos servem. A quem servem? Mas papel, teclado e microfone aceitam tudo.

Todo mundo sabe ou deveria saber que sem o apoio do Congresso ninguém aprova nada, não consegue governar, e eu me contento com o que é possível, e para conseguir algum a renovação, não basta querer, alianças tenebrosas são inevitáveis, e às vezes nem assim, não se consegue e pronto. É impossível agradar a todos, e acertar sempre. Não acho que ninguém esteja parado, mas aqui se mistura muito os poderes dos três poderes, e a culpa acaba sendo sempre toda da presidência. É, no entanto, situação completamente diferente quando o seu núcleo mais próximo é formado por gente que mete medo pelo que fez no passado e até pelo que anuncia agora, mas ah, a gente torce, e acredita, e se ilude mesmo, tipo me engana que eu gosto.

Ideologia, essa não muda. E falta de generosidade também é coisa nossa. Como assim, todo mundo pode ter acesso ao que a gente já nasceu tendo?? O mundo não comporta, mas comporta desigualdade.

Odeio baixaria, detesto ver ofensas irresponsáveis e gratuitas, mas mesmo sem querer passamos a última década sendo martelados por muita informação desse tipo, e evidentemente isso eu não compartilho. Ninguém precisa ler o que não quer, mas a verdade é que o Brasil, além de passar por uma revolução, não foi para o buraco, como já tinha ido antes mais de uma vez. E olha que o mundo sacudiu pra valer. Ninguém teria feito melhor.

Pode ser que prefiram agora mudar, ver para crer, mas ainda não acredito, porque nesse momento, e pelo que já constatamos em eleições passadas, as pesquisas também têm suas torcidas. Depois se ajeitam, embora muitas vezes tenham sido completamente desmoralizadas pelas urnas. Mas falta de memória também está nos nossos atributos mais recorrentes. Quem viver verá.

domingo, 10 de agosto de 2014

Retrato em 3X4, ou em 8.511 km


Vivi um tempo em que muitas pessoas iam presas e muitas vezes não voltavam. Algumas nem chegavam a ser presas, e morriam também. Simplesmente desapareciam. Tive desde muito cedo total conhecimento disso. Adolescente, presenciei várias prisões. Acordei um dia com um homem de metralhadora na mão no quarto onde eu dormia. Não era a mim que procuravam, mas sempre levavam quem queriam. Metade da minha turma de faculdade foi presa. Alguns colegas de colégio também, e pelo menos dois nunca voltaram, e isso apenas no meu pequeno círculo de amizades. Nunca esqueci um olho, numa fresta de porta, se despedindo de um irmão - ele tinha me levado junto, nunca mais viu essa irmã. Um horror que me volta de vez em quando, e quando vejo falarem em ditadura se referindo aos tempos de hoje, me vem aquela frase da Bíblia: Pai, perdoa-lhes, eles não sabem o que fazem. São novos, ou eram inocentes então, ou já estão desmemoriados, não sei. Naquele tempo, nada disso saía no jornal, ninguém virava musa de coisa nenhuma, ou exposta, ou perseguida, o que seja. Simplesmente não se sabia das pessoas que sumiam. Lembro também de um Gip-gip do Ivan Lessa, no Pasquim: "a cada 15 anos o brasileiro esquece o que aconteceu nos últimos 15 anos." O período varia, mas é uma verdade.

Não é questão de nos conformarmos com o que não é de se conformar só porque já foi muito, muito pior, mas quem conhece duas realidades tem a honesta obrigação de enxergar as diferenças e não aceitar comparações disparatadas, mesmo que metafóricas. Metáfora, assim como ironia, não imprime, uma das minhas primeiras lições de jornalismo.

Minha mãe teve muitos filhos, mas arranjava tempo para trabalhar com umas freirinhas heroicas, suas antigas professoras, que visitavam presos, que muitas vezes, não tinham recebido nem comida naquele dia. Ela não falava muito, não sobrava tempo, e fui conhecer claustrofobia muito depois, mas os horrores das prisões já me abalavam muito cedo. Morei na roça, mas nunca quis ter um passarinho preso, nem um cachorro dentro de casa. Fiz ali uma reserva de liberdade, andando sozinha pela mata ao longo da linha do trem, catando framboesas, ou de bicicleta pelas estradinhas, às vezes na garupa do meu irmão mais velho.

O mundo está explodindo em vários lugares, guerras se perpetuam, e um dia parece que vai mesmo explodir a Terra inteira. Tenho filha, vou ter neta, espero que elas não vejam isso. Mas como o mundo é muito complexo para mim, e desisti de carregá-lo no ombro, faço minhas escolhas. Sou pela lei, e por conta do que expus acima, não conheço regime melhor que o democrático, mesmo que muito imperfeito, mesmo que do lado de baixo do Equador. A ditadura, que já tiveram a vilania de classificar como branda, foi muito, muito ruim para o país e para muita gente. Mas muita gente também nem tomava conhecimento dela quando as piores coisas aconteciam. Alguns nem acreditavam que tortura existisse, ouvi isso na minha própria família.

Fui obrigada, como disse, desde muito cedo, a ter os pés no chão. Ganhar no grito, querer virar a mesa, para mim, é querer ditadura. Faço minha pequena parte, voto com consciência, não acho graça em voto útil, mas acho que votar com inteligência é melhor do que votar com ilusão. Taí uma coisa que a vida que levei me impede de ter nessa hora: ilusão. No entanto, vou morrer tendo esperança de ver as coisas melhorarem, porque tenho visto. Não é muito fácil, não está nas manchetes, dá trabalho, parece muito pouco, mas faz diferença, e dá para se informar razoavelmente quando a gente quer e procura. E escolher o que nos agride menos.

Muita, mas muita coisa mudou. E estamos carecas de saber que esse país não é biscoito, não é preciso ter um engenho para ir até a morte só para não repartir a rapadura. Aqui se mata, e muito, e por muito pouco. Existem alianças necessárias para governar, mesmo tendo que tampar o nariz para ir em frente. E existem candidatos (as) que se pintam como melhores, mesmo sem ser, mesmo sem ter a menor chance, e acabam atrapalhando, só atrapalhando, em benefício apenas de sua própria notoriedade, quem sabe para um outro cargo menos exigente na próxima eleição. É comum isso acontecer, mas quanto mais atrapalham, mais alianças forçam, e o governo acaba resultando pior, quem não viu isso? Ameaçar uma virada de mesa pode ser contundente e estimulante, mas nesse departamento eu não consigo ser romântica.

Não gosto de privilégios, e num mundo tão desigual, fiz minhas escolhas: em primeiro lugar, quero que todo mundo coma. Não passei fome, mas como não consigo nem dormir com fome, deve ser horrível não ter nem a perspectiva de ter o que comer. É preferível que não se transforme o país em terra arrasada para produzir alimentos para todos, e através do lucro de poucos, mas quem tem fome tem pressa, será possível matar meia dúzia de dragões que por aqui habitam desde sempre, desengatilhar trocentas armadilhas e continuar vivo? Alguém falava ou fazia alguma coisa em prol da agricultura familiar há quinze anos? Disso eu não lembro, porque não acontecia. Lembro de apagões, privatizações, muitas, compra de eleições, racionamentos, e o que era ainda pior, muita, muita insegurança e desesperança. E desrespeito vindo de quem deveria respeitar o povo, e por uma atitude injustificada e estúpida de superioridade fora de lugar, não apenas por ignorância.

Não temos por aqui avós incansáveis, temos e tivemos desde sempre a prática odiosa da tortura por esse imenso Portugal, de povo tido como bonzinho, e elas ainda foram aprimoradas na nossa época mais negra, quem não sabe? Gostamos de ser franceses, mas somos mesmo casca grossa, não prestamos, de perto ninguém por aqui é mesmo normal, melhor desfocar um pouco o olhar, ou olhar de bem longe, quem sabe do lado de lá do Atlântico. Guimarães Rosa diz que a vida quer de nós coragem, concordo, mas acho que ainda exige uma grande dose de sagrada e verdadeira paciência, sem ironia, paciência mesmo, para com essa nossa longa noite de amadores.

sexta-feira, 25 de abril de 2014

Encontro carioca na Casa Cavé


O estabelecimento tinha outro cenário, ficava, na verdade, bem na esquina. A linda e antiga confeitaria morava ao lado da chapelaria, com apenas uma ou duas lojas entre elas, e um belo dia, há cerca de duas décadas – o que não é quase nada para quem nasceu em 1860 - mudou-se para o imóvel da chapelaria, uma loja tão bonita quanto ela.
As vitrines da Radiante, que também há muitas décadas abrigavam chapéus, se encheram então de delícias também centenárias. Centenárias com certeza. Meu médico, que enquanto viveu, conversava muito comigo sobre gulodices e gastronomia em geral, era amigo do neto do dono da Cavé e me garantiu que o inesquecível pastel de Belém continuava sendo feito exatamente como há cento e cinquenta anos. Não deveria, mas confesso que cheguei a conhecer as pirâmides de bolas coloridas que a Cavé produzia, sob encomenda, e que os anos não trazem mais.
Não tem importância. Ainda existem ali os pastéis com a mesma massa e o mesmo recheio, e toda a infinidade de doces e bolos, incluindo os camundongos feitos com massa de bolo e os bolos de reis com a pequena prenda dentro. O resto, só experimentando, e deixando a culpa lá do outro lado da calçada.
Foi encostada no balcão, esse meu velho conhecido, que reparei num senhor alto, negro, que já estava no segundo doce. Ao lado dele, uma senhora, bem senhorinha, observava, até que não resistiu e comentou: -“Irresistíveis, não são? Venho aqui desde criança, trazida pela minha mãe, que vinha na costureira que morava aqui pertinho”. Ele perguntou o nome da costureira, e quando ela respondeu, ele disse: -“Era a minha mãe! Eu vinha sempre com ela aqui". Inusitado encontro, inusitada Casa, inusitada receita. O Rio, que já foi Paris à beira mar, não é mais. Mas guarda segredos que só vê quem quer.