domingo, 3 de março de 2019

“Sabem do que são feitos os direitos, meus jovens?"


“Sabem do que são feitos os direitos, meus jovens?

Sentem o seu cheiro?

Os direitos são feitos de suor, de sangue, de carne humana apodrecida nos campos de batalha, queimada em fogueiras!

Quando abro a Constituição no artigo quinto, além dos signos, dos enunciados vertidos em linguagem jurídica, sinto cheiro de sangue velho!

Vejo cabeças rolando de guilhotinas, jovens mutilados, mulheres ardendo nas chamas das fogueiras!

Ouço o grito enlouquecido dos empalados.

Deparo-me com crianças famintas, enrijecidas por invernos rigorosos, falecidas às portas das fábricas com os estômagos vazios!

Sufoco-me nas chaminés dos Campos de concentração, expelindo cinzas humanas!

Vejo africanos convulsionando nos porões dos navios negreiros.

Ouço o gemido das mulheres indígenas violentadas.

Os direitos são feitos de fluido vital!

Pra se fazer o direito mais elementar, a liberdade,

gastou-se séculos e milhares de vidas foram tragadas, foram moídas na máquina de se fazer direitos, a revolução!

Tu achavas que os direitos foram feitos pelos janotas que têm assento nos parlamentos e tribunais?

Engana-te! O direito é feito com a carne do povo!

Quando se revoga um direito, desperdiça-se milhares de vidas …

Os governantes que usurpam direitos, como abutres, alimentam-se dos restos mortais de todos aqueles que morreram para se converterem em direitos!

Quando se concretiza um direito, meus jovens, eterniza-se essas milhares vidas!

Quando concretizamos direitos, damos um sentido à tragédia humana e à nossa própria existência!

O direito e a arte são as únicas evidências de que a odisseia terrena teve algum significado!”

Texto da Juíza Federal Raquel Domingues do Amaral.

terça-feira, 22 de janeiro de 2019

Lembrando Martin Luther King Jr


- Injustiça em algum lugar é uma ameaça à justiça em qualquer lugar.

- No final, você vai lembrar, não das palavras de nossos inimigos, mas do silêncio de nossos amigos.

- Começamos a morrer quando silenciamos sobre coisas que realmente importam.

- Nada no mundo é tão perigoso quanto ignorância sincera ou estupidez consciente.

- Inteligência e caráter - esse é o objetivo da educação de verdade.
-
Existe sempre alguma coisa boa no pior de nós e alguma coisa ruim no melhor de nós.
Quando descobrimos isso, somos menos inclinados a odiar os nossos inimigos.

- O amor é a única força capaz de transformar um inimigo em amigo.

segunda-feira, 12 de novembro de 2018


MOMENTOS BRASILEIROS

Imagem Museu Histórico RJ. Foto Vanda V. Castro.

Do livro "1822", de Laurentino Gomes:


Quem observasse o Brasil em 1822 teria razões de sobra para duvidar de sua viabilidade como nação independente e soberana. (...) Era uma população pobre e carente de tudo, que vivia à margem de qualquer oportunidade em uma economia agrária e rudimentar, dominada pelo latifúndio e pelo tráfico negreiro. O medo de uma rebelião dos cativos tirava o sono da minoria branca.

(...)

Frei Caneca, líder da Confederação do Equador de 1824 em Pernambuco, tinha um projeto razoável de Brasil, republicano e federalista, muito parecido com o dos Estados Unidos de hoje. Passou para a história oficial como um inconsequente porque perdeu. (...) Frei Caneca acabou seus dias diante de um pelotão de fuzilamento encostado no muro do Forte das Cinco Pontas, no Recife.

(...)

Em 1787, quando ainda era embaixador em Paris, Thomas Jefferson foi abordado pelo mineiro José Joaquim da Maia, o Vandek, estudante da Universidade de Montpellier. Queria ajuda dos Estados Unidos para fazer uma revolução no Brasil. Jefferson, que tinha outras preocupações mais urgentes, recusou, mas fez questão de reportar o caso ao Departamento de Estado americano. Vandek morreu no ano seguinte, antes de voltar ao Brasil.


Do livro "1889", de Laurentino Gomes:

O historiador Sérgio Buarque de Holanda fala numa "constituição não escrita", diferente da Constituição real, que ditava a política do imperador mais de acordo com as conveniências do jogo do poder do que na letra da lei.

(...)

"Entre nós, o que há de organizado é o Estado, não é a Nação", dizia, em 1887, o sergipano Tobias Barreto. (...) não é o povo, o qual permanece amorfo e dissolvido, sem outro liame entre si, a não ser a comunhão da língua, dos maus costumes e do servilismo". Visão parecida tinha o francês Louis Couty, professor estrangeiro da Escola Politécnica da Corte. Segundo ele, nas vésperas da Proclamação da República, faltava ao Brasil "um povo fortemente organizado, povo de trabalhadores e pequenos proprietários independentes (...) por si, sem um Estado-Maior constituído de comandantes de toda a espécie ou de coronéis da Guarda Nacional".

(...)

O abolicionismo de André Rebouças, Luís Gama, Joaquim Nabuco e José do Patrocínio era um movimento urbano, enquanto a escravidão permanecia como uma realidade rural. (...) Na campanha abolicionista havia, portanto, dois brasis em confronto. O primeiro, o dos defensores do fim da escravidão, era representado pelos advogados, professores, médicos, jornalistas e outras profissões urbanas - um país que frequentava escolas, atualizava-se pelos jornais, reunia-ae nos cafés para discutir as ideias e novidades do século XIX. O outro Brasil era o dos fazendeiros, ainda muito parecido com o da época da colônia - agrário, isolado, analfabeto, sem comunicações e conservador.

Os debates da época refletiam esse confronto. Em junho de 1884, o Imperial Instituto Baiano de Agricultura enviou uma petição à Câmara dos Deputadosna qual reclamava do movimento abolicionista. "A escravidão tendo entrado em nossos costumes, em nossos hábitos, em toda a nossa vida social e política, acha-se por tal forma a ela vinculada que extingui-la de momento será comprometer a vida nacional,perturbar sua economia interna, lançar esta na indigência, na senda do crime e no precipício de uma ruína incontável" alertava o documento. Parlamentares escravocratas ecoavam as reivindicações dos fazendeiros, evocando em seus discursos um cenário de catástrofe. "Os abolicionistas são salteadores; mas, para estes, tenho o meu revólver!", ameaçava Martinho de Campos, do Partido Liberal.

(...)

Em 1884, Ceará e Amazonas se tornaram as primeiras províncias a abolir a escravidão no Brasil - quatro anos antes da Lei Áurea. Um motivo é que nessas regiões, o trabalho cativo deixara de ser importante para a economia (...) ao contrário do que acontecia no sul do Brasil, especialmente no Vale do Paraíba, cujas fazendas de café dependiam totalmente dos cativos.

(...)
Escultura M. Oiveira, do antigo Cinema Palácio, RJ. Foto Vanda V. Castro.

Um episódio ocorrido em 1881 no porto de Fortaleza contribuiu para atrair as atenções para a luta contra a escravidão no Ceará. Foi o boicote ao embarque de cativos liderado pelo jangadeiro Francisco José do Nascimento, na época conhecido como "Chico da Matilde" e mais tarde rebatizado como "Dragão do Mar". Durante três dias, Nascimento e os colegas se recusavam a transportar para os navios um grupo de escravos vendidos para fazendeiros do sul do país. Em represália o jangadeiro foi demitido do cargo de prático da barra que ocupava na Capitania dos Portos do Ceará. A punição, no entanto, o promoveu de imediato à condição de herói do movimento abolicionista brasileiro.
Escultura M. Oliveira, do antigo Cinema Palácio, RJ. Foto Vanda V. Castro.

Em março de 1884, José do Patrocínio estava em Paris, fazendo propaganda do movimento abolicionista, quando recebeu a notícia de que, graças à luta do "Dragão do Mar" e seus jangadeiros, o presidente do Ceará, Sátiro Dias, acabara de anunciar o fim da escravidão na província. Alguns dias mais tarde, ao embarcar de volta para o Rio de Janeiro, trazia como troféu na bagagem uma cartinha do escritor Victor Hugo celebrando o feito cearense:

Uma província do Brasil acaba de declarar a escravidão abolida (...) esta notícia tem um alcance imenso. (...) O Brasil infligiu na escravidão um golpe decisivo. O Brasil tem um imperador, e este é mais do que um imperador, é um homem. Que continue. Nós lhe damos os parabéns e o homenageamos. Antes do final do século, a escravidão terá desaparecido da Terra. A liberdade é a lei humana.

(...)

"Vocês fizeram a República que não serviu para nada. Aqui agora, como antes, continuam mandando os Caiado". CAPITÃO FELICÍSSIMO DO ESPÍRITO SANTO CARDOSO, bisavô do presidente Fernando Henrique Cardoso, em telegrama enviado de Goiásao filho, Joaquim Inácio, que ajudara a proclamar a República em 1889.

sábado, 20 de agosto de 2016

Olímpica, Estoica, Helênica e Inocente


Pulei da cama e fui até a beira da Lagoa, bem pertinho, para tentar fotografar ou apenas guardar na retina talvez a última imagem ao vivo da “nossa” olimpíada. Sabia da canoagem hoje, e que seria na Lagoa.
Já que as canoas não estavam lá, e eu não tinha me informado direito, acostumada a ver as competições aquáticas volta e meia na esquina, apelei para o guarda nacional que fica ali, devidamente camuflado e de metralhadora em punho.
Respondendo ao meu “bom dia, ele falou assim: “Veja bem, coração, eles hoje não saem daqui, na canoagem remam menos que no remo, o percurso é mais curto, então ficam só do lado de lá."

Aaahhh!Do outro lado, eu teria visto também o triatlo, que passaria logo ali, mas eu estava do lado de cá, precisava tomar café, e já estava satisfeita, tinha tentado. E que importância tem uma Olimpíada? Para muita gente, nenhuma. Especialmente se não moram ou não estão no Rio, é quase um pecado se alegrar com ela! Já li e ouvi mais de um paulista afirmando isso, as “olimpíadas tristes”, disse um deles, mostrando - entre outras coisas que não vou dizer - que eles não sabem que a felicidade é uma gota de orvalho numa pétala de flor, voa tão leve, tem a vida breve, e se você quer um pacote inteiro de felicidade, não vai ter, assim no atacado, ela não vem, não vem... vale comer pelas beiradas, saber aceitar as que estão a seu alcance! Vale brigar por ela, claro, mas vale mais até saber que uma coisa não anula outra, e que é essencial saber como brigar, e mais do que isso, saber porque se está brigando. E de preferência, nunca porque as uvas estão verdes!
Eles não sabem, bobinhos, que as Olimpíadas, além de terem sido acordadas num momento mais feliz desse país, além de já então inevitáveis, além de ser um evento que independe do golpe que estamos sofrendo, e que não têm que pagar por isso, elas têm o seu lado alegre, trazem, também, alegria. A cidade se mostrou adequada para elas, que tem que acontecer em algum lugar, e foi aqui. Muita coisa boa vai ficar, sim, e o que foi feito de maldade, foi feito porque as pessoas que decidem às vezes são más e não fomos fortes o suficiente para evitá-las antes. E quem foi? Onde? E o evento aqui foi muito útil para espalhar pelo mundo, de muitas formas, corajosas e criativas, denúncias sobre o golpe de estado em curso no país.
O Rio não tem culpa, pelo contrário. Brasília, por exemplo, tem culpa, o golpe é que fica muito longe. Se a capital fosse aqui, já teria sido desmoralizado. Vai daí que quando ouço ou leio um discurso que me parece mal colocado, tenho logo vontade de responder. Bobagem. As pessoas não estão falando comigo, não querem resposta, querem ter razão. Elas estão falando com elas, para elas, no máximo, para agradar quem já pensa como elas. Isso sim, é triste. As Olimpíadas, não.

sexta-feira, 13 de maio de 2016

O QUINTAL


Quando a gente nasce num quintal, vai conhecendo as possibilidades: colher umas frutas, plantar bananas, plantar bananeiras pra se distrair, nada de muito grande nem espalhafatoso, quintal não é latifúndio, criar gado, um bifinho, isso não é para o bico de quem nasce num quintal. Planta umas ervinhas, planta boldo que faz bem pro fígado, capim-cidreira, alecrim, quem tem um canteirinho assim pode até dar uma de curandeiro. Já um cirurgião, muita especialização, num quintal, não pode ser. Quintal tem limite. Tem muro, mesmo que nem sempre seja de concreto. Quando você cresce, é curioso, é sonhador, resolve olhar além do muro. A mãe puxa logo a gente pela blusa, vem pra dentro e pra baixo, o que é isso, meu filho, subir aí faz mal, é perigoso, desce daí. Mas você insiste, quer ver o mundo! E quintal tem mosquito, caramujo, lama, atoleiro, berne, verme, carrapicho, carrapato, micuim. E o quintal do vizinho não é sempre mais bonitinho? E não é que ele é? E grande! Verdinho!
Peraí, o meu poderia ser assim, eu sei fazer ele ficar bonito assim! Não poderia?
Usou o tempo certo do verbo, poderia, poderia, poderia, mas não é, e não será. Botou o nariz pra fora, pode vir bala, gás venenoso, uma bota enorme de um ser estranho muito maior do que você, perigos horríveis, que não só te proíbem de conquistar o quintal alheio, mas quando você se faz notar corre o risco de perder o seu! Um susto, um espanto!

Mesmo assim, tenho minha liberdade. De ir e vir - dentro do quintal. Ela não morre, se o espírito é livre! Nem que seja até num espaço menor, que caiba direitinho dentro da nossa cabeça. Liberdade ainda que tardia, ainda que seja para finalmente subir para o éter, as amarras acabam por se soltar um dia.
O céu ficou até um pouco azul depois da chuva, será que vai voltar a chover? Será que o sol vai abrir? São as atribulações de quem vive num quintal, é no que a gente pode pensar sem correr um grande risco de cair do muro, cair da cama quando sonha. Quem sonha logo percebe que pode ter pesadelo. Cair e se machucar. A mãe não avisou?

segunda-feira, 23 de novembro de 2015

Essencial, imortal e infinito


O que arde cura, o que aperta, segura - por que agora esse pensamento saído de um tempo em que se acreditava em certezas, e se havia sofrimento, maior era a garantia?

Como também já houve o tempo da taquigrafia, da datilografia, do mimeógrafo, e por que não, da máquina de escrever, embora não esteja assim tão extinta quanto estão os dinossauros. Eles não andam mais por aqui mas deles ainda conservamos muitos ossos, e também há quem se dedique a eles com devoção.
O que podemos considerar que seguramos e nos é assegurado num mundo mutante e na corda bamba, que passa celerado assustando tanto o passado? mas que conserva seus dinossauros e dinossauros humanos ainda movidos à devoção?

O ritmo e as mudanças podem até assustar, mas são, deveras, razão para assombro, pois que ao longo do tempo a humanidade evoluiu e muito, até no sentimento humanitário. Se hoje nos chocamos com aberrações que deveriam ter sido extintas em algum lugar do passado, é porque a evolução é o padrão, e é o que se espera da humanidade, sempre. A evolução e o passado não se estranham, já que estão sempre consequentemente ligados.

Tenho me voltado demais para o passado, desenterrando histórias de avós e bisavôs, e não foi nem ideia minha, portanto se existem pessoas querendo saber de bisavôs e de seus feitos, se em nome da História se olha para trás, a celeridade, a ousadia, a impessoalidade, o descompromisso, as desamarras, a inconstância, a fila que anda, anda, anda, não teriam também sua cota de dias contados? Será que o mundo, que não sabe mais o que fazer com o seu lixo, tanto lixo, reserva um bom lugar para uma quimera?
Quisera. Quem dera.

quinta-feira, 17 de setembro de 2015

Notícias


Quando eu ainda buscava ideias de pautas, mais de uma vez, por motivações variadas, sugeri um programa em torno da felicidade – o que é - se existe - onde ou como encontrá-la, podemos viver sem ela ? ( "risos" para um formato que, pela longa permanência no ar, virou motivo de troça, para usar uma palavra de outro tempo).

Numa dessas vezes fui motivada pela resenha de um livro que argumentava justamente que a felicidade não é mais possível no mundo atual, já que ninguém é uma ilha e recebemos notícias de tragédias, tristezas e males vindos de todos os lados do planeta. Impossível ser indiferente ao que acontece na Síria, Irã, Iraque, em quase toda a África, se eterniza no Afeganistão, no Vietnã um pouco mais atrás, atrocidades sem nome e sem data, dentro e fora do mapa.
“Você parece carregar as dores do mundo” ouvi de um terapeuta e fiquei até hoje sem entender, porque a terapia foi curta e também porque como não sentir dor vendo crianças vivendo na rua, o que tinha sido o meu comentário ali. Então não é comigo? É comigo, sim, é com todos, muito mais até com os que não sentem que é com eles, mas o que fazer? Não ver? Não ler? Não fazer, já que uma gota não transforma um mar?
Comecei a separar: o que me interessa é o que é possível transformar com a mobilização que uma notícia tem o poder de provocar. Não é pouco, mas a cobertura dos fatos é feita seletivamente, e muito frequentemente, de maneira arbitraria. Vai ficando difícil, quase impossível encontrar isenção e honestidade no que se noticia, como é impossível achar um equilíbrio entre boas e más notícias. É mesmo desequilibrada a cobertura midiática.

Viciada em notícia desde criança, quando meu pai chegava com O Globo, para os quadrinhos que eu e meus irmãos seguiam, o Jornal do Brasil para todo o resto, O Cruzeiro quando atraía mais do que a televisão, que eu não via, outro dia, sem nenhum motivo aparente, me veio uma lembrança esquecida, da primeira redação em que trabalhei: logo que entrei no jornal fui escalada para selecionar notícias que importassem e que coubessem em pequenas frases, que eu deveria mandar para uma empresa que tinha um contrato com o jornal e as exibia, passando numa faixa luminosa, emolduradas pelo morro do Pão de Açúcar, uma cena que me chamava a atenção desde criança. Como pude esquecer?
Era por volta desse tempo que Caetano, o dos bons tempos, perguntava: “Quem lê tanta notícia?”.
As notícias andam mentindo muito, e eu não gosto de me enganar, por isso estou me voltando contra o tempo, o relógio, a atualidade, tenho agora mais prazer com coisas atemporais, incluindo aí as memórias que guardo, bem fora da ordem. E falando de mim posso estar falando de muita gente, mesmo não esquecendo de quem precisa ou insiste em lidar com as últimas notícias, mas em tempos de infelicidade quase plena, o caminho pode ser seguir o clichê: olhar para as pequenas coisas, e deixar o mundo um pouco de lado.
Uma biografia de Saint-Exupéry – quinhentas e tantas páginas, em inglês, com letrinha pequena, rende que é uma beleza, leio aos poucos para, a cada volta, mergulhar nas suas aventuras, hora no deserto, hora no ar, em Paris, na África ou na América do Sul. Nas asas da Aeropostale, que voaram antes que as da Panair – e essa é outra história boa de ler.
Um pensamento do escritor acima me pareceu particularmente atual – ele falava de um momento, na década de 30, na Europa, em que o mundo estava virando um lugar cada vez menos hospitaleiro:
“O essencial é continuar vivo. Não podemos esquecer disso, mas hoje os viventes são obrigados a se defender como se estivessem sendo ameaçados o tempo todo”.
Vivemos muitas batalhas e ataques por aqui. As guerras, as ameaças, mudam de endereço, mudam de padrão e muitas vezes se repetem sem que muita gente se dê conta. A culpa é toda das notícias, que não dão conta de nos contarem o essencial.

sábado, 24 de janeiro de 2015

O afeto que se encerra


Uma jovem amiga - amiga por tabela, mas nem por isso menos querida, me surpreende dizendo que quer conversar comigo sobre...casamento!

Abri um dia o livro Mentes Inquietas, e fechei na primeira página para nunca mais abrir porque ali descobri que a minha não sossega nem quando durmo. Talvez um terço, se não mais desse tempo infernal em que a minha trabalha, eu tenha dedicado a esse espinhoso e insolúvel problema que persegue democraticamente casados e descasados, por isso posso dizer que minha amiga procura uma fórmula que ainda não foi inventada, nem nunca será, desconfio.

Casamento foi um jeito legal de organizar a sociedade, de dar um rumo e um cunho nobre aos nossos instintos selvagens, depois que saímos das cavernas e nos agrupamos em sociedades que se pretendiam civilizadas. Só isso? Os humanos não tiveram que ser inteiramente domados para isso - embora muitos necessitem, sim, de chibatadas por comportamentos inaceitáveis em qualquer espécie, seja humana ou irracional. Essa solução partiu da exploração de instintos autênticos em inúmeras espécies animais, de escolha, exclusividade, necessidade de proteção da prole. Procriar é um projeto a dois, a não ser que, no momento da partida, se decida e explicite o contrário. Caso contrário, decidir sozinho nesse campo é deslealdade das mais deploráveis. Porque o resultado de uma gravidez não é nada descartável, é fonte de alegria e problemas enquanto dura a vida.

Somos desiguais, os iguais se procuram, as desigualdades interessam e estimulam, variam os motivos que norteiam as escolhas. Uma vez feitas, elas carregam, sim, princípios mais aprimorados de humanidade, como a lealdade. Que pode ser confundida e mal comparada com sinceridade, mas é coisa bem diferente. Sinceridade de sentimentos é básica e fundamental. Já sinceridade tipo confessionário, como as doutrinadas em instituições religiosas, é coisa traiçoeira. Trair também é um verbo que se conjuga de várias maneiras. A traição que era prevista e punida em antigos códigos penais pode machucar mas não necessariamente condenar. Até porque os códigos entre casais também variam. O que é e sempre será condenável não é esse tipo de traição, mas deslealdade. Enganar não é apenas trair, é puxar o tapete, é dissimular, é desrespeitar, é não pensar no outro quando são duas as pessoas envolvidas. Muitas vezes isso acontece porque uma pessoa vai se distanciando tanto da outra, embolando tanto o meio de campo enquanto se supunha entre quatro paredes, que perde a noção do limite, despejando enfim no outro a tal sinceridade quase que para se redimir.
Melhor não falar de coisas negativas, é positivo o raciocínio desenvolvido aqui como é saudável a dúvida levantada pela minha amiga. Mesmo que ela olhe com muita suspeita o meu marco de quatro décadas ainda do primeiro casamento, incompreensão natural para quem não viveu o suficiente para entender o emaranhado das vidas compartilhadas por um longo tempo, a cobrança é pertinente e sincera da parte dela, na sua busca por explicações.
Como se sente um sobrevivente? Aliviado por ter sobrevivido, junto com o que acumulou e guardou, podendo conviver em paz com a maior parte das suas lembranças? Arrependido por não ter pulado do barco antes, por conta do peso que o tempo vai depositando nos ombros? Em nome de quê carregar tanto?
Sendo resultado de escolhas ou o rumo que a vida apresenta, quando caminha você nunca tem controle absoluto do resultado, já que adivinhar não vale, mas acredito que está no bom caminho quem procura se conhecer, pensar nas preferências e escolhas pessoais, aceitando principalmente que não se pode ter tudo, ou que não é decente ter tudo, ou alguém vai ficar sem...
Casamentos duram cada vez menos, isso é certo, então, se tem ao seu lado uma pessoa legal, e os dois querem filhos, talvez seja melhor agora começar cedo, para ter alguém que te ajude a empurrar o carrinho e dividir com você o tempo mais maravilhoso que pode haver, que é ver nascer e crescer a vida mais nobre, forte e encantadora que pode existir sobre a Terra. Por outro lado, não é mais seguro ir se conhecendo com o tempo, já que não existe mais muito pudor nesses tempos à la fakebook, e estão à mão todas as ferramentas para a dissimulação em massa? São tantas as tentações vazias de qualquer conteúdo, e tão grande a tentação de escolher conteúdo zero... É tão mais fácil agora apagar o passado, com um click se fica livre de muito entulho que antes se acumulava na gaveta, as fotos que guardo da minha avó vinham num encarte de papelão, com o nome e endereço do fotógrafo impresso em letra caprichada, hoje somem num segundo e você está a salvo de ser apunhalado por uma memória esquecida num canto de armário.

"O correr da vida embrulha tudo; a vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem. Ser capaz de ficar alegre e mais alegre no meio da alegria, e ainda mais alegre no meio da tristeza..."Guimarães Rosa se aplica aqui, como em qualquer lugar.
Sonhar não custa nada, ou custa caro, pode custar uma vida, por isso é bom sonhar com pelo menos um pé no chão.
Enganar não é o que se quer, acredito, mas se enganar a si mesmo é bastante frequente. Existem traços determinantes que o ser humano não escolhe ao nascer, alguns já vem mais aperfeiçoados - o tal do DNA - mas todo mundo pode se aprimorar. Quem quer, quem deseja sinceramente evoluir caminha na direção de se aprimorar, de buscar respostas e soluções, de pensar no outro, e não apenas seguir seus instintos e exercer suas vontades, comportamento que pode ser mais marcadamente masculino mas está longe de ser inerente ao gênero. Fácil como preencher um cheque ou passar o cartão. É que o sexo masculino dominou a sociedade por séculos, ainda é privilegiado no mercado profissional e conserva mais os traços de tempos truculentos, apenas isso.
O que é determinante no comportamento das pessoas, penso que é mesmo o caráter e a sensibilidade, resultados não só do DNA do indivíduo mas da criação que teve. Aí a coisa vem se complicando mesmo, em tempos já mais permissivos mas em gerações que ainda foram educadas essencialmente pela mães. Educar é tarefa árdua e nobre, mas acho que exercida com mais indigência quando se educava filhos homens. Por que será? Mães machistas? Mães intimidadas ou deslumbradas com seus filhos? Vaidade para mim é pecado mortal, sem essa de capital, carece de correção e não de compreensão e até louvor. Particularmente no sexo masculino. Vem disfarçada de pecado venial, mas é veneno, explosivo, passar muito, muito longe! Vaidade em excesso prioriza lixo, o que é substancial e verdadeiro vai para o fim da fila nas escolhas de um vaidoso. De novo, deixemos o que é negativo, é pra frente que se anda, buscar soluções para uma vida saudável e verdadeira é o que se deseja.

O Xis da questão é: sexo e casamento. Sexo e casamentos longos, e no meu tempo o desejo não passava tão rápido quando parece passar agora. Havia mais persistência e porque não dizer, imaginação! De novo vem aí o problema de criação, pessoas criadas cheias de vontades, mãos passadas na cabeça para não traumatizar, foram ficando mais fraquinhas - é preciso esquecer um pouquinho Freud, sem trauma não se cria!
O verbo encerrar é abrangente e antagônico, o sentido da frase do título pode tanto ser o de guardar, guardar com zelo e carinho, quanto o de terminar.
Terminar é triste, mas pode ser muito saudável e até estimulante quando passa a inevitável tristeza por quase tudo que se encerra. Mas existem muitas maneiras de se fazer uma só coisa, e aí lembro de novo o caráter e o sentimento, o afeto que se é capaz de ter, e de cultivar.
Pode haver afeto, sinceridade e decência até numa situação do que convencionalmente se chama de traição. É humano e frequente se enganar, e com isso, ferir os outros involuntariamente. A atitude aí, para não falar novamente em caráter, varia da coragem de cada um. Despreparo é sim, problema de criação. Segurar uma barra sozinho, sem se escorar no outro, ou até pior, culpar o outro quando se engana, ou quando escolhe dar um passo individual e como não dizer, egoísta, demanda coragem e caráter, sim, artigos que estão se tornando mais raros e voláteis até do que casamentos longos.
Em nome de quê se limita ou norteia o desejo hoje, sem o freio das religiões, que tinham muito mais peso no passado, sem o exercício de poder de quem é o mantenedor, antes das mulheres conseguirem um pouco mais de igualdade no campo profissional, sem o medo do inferno?
Numa sociedade organizada, cada um tem sua função, distribuição justa é a que é ajustada entre as partes.
Bom, o que não tem remédio pede uma solução caseira e individual... a gente fica com a que melhor se ajusta. Uma terapeuta me disse para dar notas à importância que cada coisa tem na vida, e seguir as prioridades. Não se pode, repito para mim e para quem quiser ouvir, ter tudo. Se a gente quer tudo, acaba às vezes perdendo o que não escolheria.

Na falta de solução, a gente recorre aos artistas. Gil afirma que o verdadeiro amor é vão, e eu acredito nele. Chico orienta a enviar os amores não amados para a posta restante. Não é o que se deseja, mas como talento e beleza abastecem o coração... mesmo assim, eu diria: acredite na arte, mas nem sempre nos artistas. O ser humano também pode ser muito vão.
Relações humanas não têm bula ou solução, mas têm uma estrela guia: afeto. Procure, cultive e respeite o afeto! E conjugue o verbo encerrar da maneira mais sublime: carregue no peito todo o afeto que conseguir. E fuja, passe a léguas de distância de quem pode até pensar que tem algum, mas não tem o suficiente para suprir um ser humano decente.

sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

Desacertos da língua portuguesa


Experimente procurar o significado de cachorrada - a descrição mais leve que vai encontrar é "ato ou atitude de mau gosto de uma pessoa para com outra". É daí pra baixo. Canalhice, indignidade, ato vil. E uma das maiores injustiças dessa língua. Só quem conhece cachorros entende a expressão "fidelidade canina". Tem ser mais fiel do que um cachorro? Mais amigo? sempre pronto para um agrado, incapaz de uma deslealdade.

Palhaçada, outro caso: um termo que já foi muito mais usado em tempos idos, mas me foi lembrado recentemente e tenho o impulso de usar muitas vezes, mas logo me corrijo, palhaços de verdade merecem respeito e admiração, fazem rir e não chorar, não nos atrapalham como os palhaços amadores.
A história desse país é uma história de desrespeito com a terrra, as gentes, e com a língua não pode ser diferente.
Grande parte das mães que educam os peitos varonis por aqui, por exemplo, já deveriam há muito ter sofrido um recall, levando junto seus rebentos.

A era da comunicação, com toda a contribuição do universo virtual, parece ter desagregado o valor das palavras, das letras, da língua, justo a base de toda a comunicação entre seres humanos.

Entrei na vida como burguesa, virei uma espécie de operária, e quando me aposentei aí mesmo é que comecei a trabalhar como gente grande. Seria feliz se terminasse meus dias como escrava das letras. Tenho muitas saudades do tempo em que podia ser mais assídua nesse blog, saudades mesmo de um teclado. A vida faz da gente gato e sapato. Gatos, não defendo, porque não conheço, e não consigo esconder meu desconforto com seres muito bonitos. Beleza física costuma produzir em cabeças sem muito cérebro, muita vaidade e pouco esforço mental. Que me perdoem as exceções da regra, que certamente hão de existir, mas essa combinação não costuma dar em nada que preste - que me perdoem os gatos e seus ferrenhos defensores.

Voltando à vaca fria - outra expressão animal e dela desconheço totalmente a origem, só sei o significado - língua não é coisa para amadores, nem para estrangeiros, que dificilmente destrincham totalmente uma língua que não é a sua apenas com estudo e sem vivência.

Viver também não é coisa para amadores. Amadores fazem muita besteira. Escrevem sem pensar, escrevem sem ler, só percebem o que fizeram depois do leite derramado.

Mas voltando novamente à vaca fria, trabalharia de sol à sol se tivesse apenas que lidar com a língua. Escrever é registrar o pensamento - quem escreve bem, geralmente pensa bem, principalmente quando relê, reescreve, repensa.

Com a vida meio de cabeça para baixo, pensar na língua ajuda a por as idéias em ordem, mesmo que seja para desorganizar tudo em seguida: a portuguesa não é a mais rica nem a mais sintética, nem a mais moderna. É a nossa, e gostaria de conhecer outras com a mesma intimidade. Ler em outras línguas aguça o sentido para a nossa, pela descoberta das semelhanças, as raízes comuns, além de nos defender das más traduções. Nunca esqueci a primeira vez em que pisei num país sem ter nenhuma pista do que falavam. Mesmo conseguindo, com a ajuda de línguas mais universais, me comunicar, não compreender o que te dizem produz uma sensação muito estranha, principalmente sendo mulher, e num país árabe. Estranha não quer dizer ruim, muitas vezes é o contrário - há descompromisso e uma certa liberdade quando as coisas do mundo fogem do nosso controle. Um dia ainda espero perder até o controle remoto da televisão.

Havia um tempo em que mandava cartões de Natal. Depois, passei a responder aos que recebia. Hoje, quase não recebo, e não respondo. O mundo virtual ficou rápido, ligeiro e menos pessoal, e sem dúvida a língua é uma das vítimas disso. Mas ficam aqui os votos de Feliz Natal a quem por aqui passar.