
A gente sabe quando é paixão, está gravada no dna, não nos enganamos, seja qual for a idade, mesmo que leve tempo - para encontrar uma, para acabar com uma.
Nos atrapalhamos é na escolha entre seguí-la ou não, sobre qual seguir quando se é dado a paixões múltiplas, muitas vezes lutar contra a claustrofobia de uma escolha única, difícil avaliar as prioridades, saber o que tem mais peso para nós, o que - e se - conseguimos suportar, onde e quando dá para seguir o coração, até que ponto se acredita em recomeçar, até que ponto pode acreditar... a conjuntura, o destino, as possibilidades e impossibilidades entram fazendo a sua parte, para o bem e para o mal. Casamento pode resultar disso, ajudado muitas vezes pelo fato de que quando a gente toma a decisão, geralmente é muito novo para levar tudo isso em conta. Questões atuais e universais. É por conta delas que as famílias indianas resolvem meter a colher.

O Ocidente, a grosso modo, acredita em recomeçar, tanto que se renovou tanto. No Oriente, mesmo que também generalizando, é diferente.
Foi um choque descobrir como são calculistas e racionais as escolhas num casamento indiano. Logo numa terra tão marcada pela espiritualidade, o casamento por amor é olhado com muita desconfiança. Não dá certo, chegam a dizer.
Bom, quando nossos pais passavam para os filhos os valores e obrigações para a formação de um nobre caráter, já não estavam condicionando nossos sentimentos, e com isso, nossas escolhas futuras?

Mas existe mesmo uma grande diferença cultural entre os mundos. A interferência da família em questões que julgamos só nossas ( às vezes só julgamos), que vão determinar nossa vida adulta, o pragmatismo despudorado, a avaliação das vantagens, é tudo muito cru na Índia que eu conheci. Situações e aspirações financeiras são discutidas de maneira aberta e objetiva, relatam com naturalidade os noivos.
Na falta do pai, é o irmão mais velho que dá o aval para o casamento da irmã. Depois de prometidos, os noivos podem ficar muito tempo sem se encontrar, e nunca se encontram sozinhos. Isso pode estar acontecendo um pouco menos nas cidades mais modernas da Índia, mas ainda acontece com a maioria dos casais. Mesmo já adultos, e já tendo morado no Ocidente, voltam à Índia para se casarem, e se submetem às tradições.
Esta é uma festa num hotel de cinco estrelas, coisa muito valorizada num casamento por lá, pelo que pude ouvir e constatar. Ainda mais porque os convidados que vem de fora costumam ficar no próprio hotel.

Neste casamento, no Taj Mahal Hotel, em Nova Delhi, entre uma americana e um indiano, havia um homem encarregado de fazer turbantes nos homens não indianos.
A noiva se veste com um sari de festa, que não precisa ser branco.
É verdade que ouvi de uma indiana que os casamentos por amor estão aumentando, mas indianos adoram negociar, e me pareceu que um casamento é a suprema negociação de uma vida. Eles escolhem bem, avaliam a família, pedem ajuda aos astros, aos sacerdotes, examinam a palma da mão. Até porque a mulher vai sempre viver na casa da família do marido. E para sempre. Passa a ser dela a responsabilidade de cuidar dos idosos, do sogro, do marido, e morando na casa da sogra!
É mesmo abrangente um contrato de casamento na Índia. Abrange problemas que conhecemos, que não existem só lá, mas acho que eles carregam um pouco nas tintas...
Mundo antigo, questões eternas.
Mas confesso aqui o meu alívio ao tomar o avião de volta.

Convidados a caminho de uma cerimônia.