
Se memória é emoção, a mais grata que guardo das festas de fim de ano é a do Bolo de Reis, com uma surpresa escondida, que todas as crianças da casa queriam adivinhar onde estava, para que ela viesse na nossa fatia, o que permitia fazer um desejo. Leio hoje que a inclusão do brinde foi proibida na União Européia, alegando motivos de segurança. Que tempos! Espero que isso não tenha abalado o costume português, por aqui desde o Brasil colônia. Basta que o bolo seja local, e não terá que passar por nenhum detetor de metais. De preferência, feito em cada cozinha, e que seja um bolo simples, como era na minha casa de criança, comido quentinho com manteiga.
O esquilo de porcelana que a minha mãe escondia como prenda e que tinha que voltar para o bolo a cada 6 de janeiro, se perdeu no tempo.
O meu bolo foi sendo incrementado, com vários pequenos objetos de metal, bem embrulhadinhos em papel alumínio, representando: fortuna com uma moeda, amor com um anel, viagem com uma ficha do Hilton, sabedoria com uma coruja de cerâmica, a lembrança mais próxima do nosso esquilo da infância. Tenho, acumulados, muitos créditos com os achados arqueológicos do Bolo de Reis. Os tempos mudaram tanto, e no entanto, a torcida, a surpresa e a fé em conseguir o que as prendas nos garantem continuam iguais, passadas de mãe para filha. Certeza mesmo, só os quilinhos a mais que essa procura nos traz, mas novo, é a gente que faz.