segunda-feira, 15 de junho de 2009

No lucro


É preciso coragem, eu sei. Quem quiser que ria, ando mesmo pouco inspirada, posso estar ficando ainda mais boba com o tempo. O livro foi escrito em 1943 e deve ter sido mais moderno e original quando nasceu, mas recebi um trecho e achei tão lindinho que repito aqui. Como nem todo mundo leu, mas conhece a fama, pode ajudar a preencher uma falha em alguma cultura. E outro dia vi uma raposinha tão mansa e amigável, em pleno Parque Lage - coisas de uma cidade espremida entre o mar e a montanha - que pensei que O Pequeno Príncipe caiu em desgraça injustamente, foi vitimado pela preferência das misses, por ter agradado tanto. Eram tempos mais ingênuos, mas quem não tem um pouco de saudade de quando era mais ingênuo? Tempos de menos cobranças, e de menos...saudades.

“E foi então que apareceu a raposa:
- Boa dia, disse a raposa.
- Bom dia, respondeu o principezinho, que se voltou, mas não viu nada.
- Eu estou aqui, disse a voz, debaixo da macieira...
- Quem és tu? perguntou o principezinho. Tu és bem bonita...
- Sou uma raposa, disse a raposa.

- Vem brincar comigo, propôs o principezinho. Estou tão triste...
- Eu não posso brincar contigo, disse a raposa. Não me cativaram ainda.
- Ah! desculpa, disse o principezinho.
Após uma reflexão, acrescentou:

- Que quer dizer "cativar"?
- Tu não és daqui, disse a raposa. Que procuras?
- Procuro os homens, disse o principezinho. Que quer dizer "cativar"?
- Os homens, disse a raposa, têm fuzis e caçam. É bem incômodo! Criam galinhas também. É a única coisa interessante que fazem. Tu procuras galinhas?
- Não, disse o principezinho. Eu procuro amigos. Que quer dizer "cativar"?
- É uma coisa muito esquecida, disse a raposa. Significa "criar laços...”
- Criar laços?
- Exatamente, disse a raposa. Tu não és para mim senão um garoto inteiramente igual a cem mil outros garotos. Não passo a teus olhos de uma raposa igual a cem mil outras raposas. Mas, se tu me cativas, nós teremos necessidade um do outro. Serás para mim único no mundo. E eu serei para ti única no mundo...
- Começo a compreender, disse o principezinho. Existe uma flor... eu creio que ela me cativou...
- É possível, disse a raposa. Vê-se tanta coisa na Terra...
- Oh! não foi na Terra, disse o principezinho.
A raposa pareceu intrigada:
- Num outro planeta?
- Sim.
- Há caçadores nesse planeta?
- Não.
- Que bom! E galinhas?
- Também não.
- Nada é perfeito, suspirou a raposa.
Mas a raposa voltou à sua idéia.
- Minha vida é monótona. Eu caço as galinhas e os homens me caçam.
Mas se tu me cativas, minha vida será como que cheia de sol. Conhecerei um barulho de passos que será diferente dos outros. Os outros passos me fazem entrar debaixo da terra.
O teu me chamará para fora da toca, como se fosse música. E depois, olha! Vês, lá longe, os campos de trigo? Eu não como pão. O trigo para mim é inútil. Os campos de trigo não me lembram coisa alguma. Mas tu tens cabelos cor de ouro. Então será maravilhoso quando me tiveres cativado. O trigo, que é dourado, fará lembrar-me de ti. E eu amarei o barulho do vento no trigo...
A raposa calou-se e considerou por muito tempo o príncipe:
- Por favor... cativa-me! disse ela.
- Bem quisera, disse o principezinho, mas eu não tenho muito tempo. Tenho amigos a descobrir e muitas coisas a conhecer.
- A gente só conhece bem as coisas que cativou, disse a raposa. Os homens não têm mais tempo de conhecer alguma coisa. Compram tudo prontinho nas lojas. Mas como não existem lojas de amigos, os homens não têm mais amigos. Se tu queres um amigo, cativa-me!
- Que é preciso fazer? perguntou o principezinho.
- É preciso ser paciente, respondeu a raposa. Tu te sentarás primeiro um pouco longe de mim, assim, na relva. Eu te olharei com o canto do olho e tu não dirás nada. A linguagem é uma fonte de mal-entendidos. Mas, cada dia, te sentarás mais perto...
No dia seguinte o principezinho voltou.
- Teria sido melhor voltares à mesma hora, disse a raposa. Se tu vens, por exemplo, às quatro da tarde, desde as três eu começarei a ser feliz. Às quatro horas, então, estarei inquieta e agitada: descobrirei o preço da felicidade! Mas se tu vens a qualquer momento, nunca saberei a hora de preparar o coração... É preciso ritos.
- Que é um rito? perguntou o principezinho.
- É uma coisa muito esquecida também, disse a raposa. É o que faz com que um dia seja diferente dos outros dias; uma hora, das outras horas.
Assim o principezinho cativou a raposa. Mas, quando chegou a hora da partida, a raposa disse:
- Ah! Eu vou chorar.
- A culpa é tua, disse o principezinho, eu não queria te fazer mal; mas tu quiseste que eu te cativasse...
- Quis, disse a raposa.
- Mas tu vais chorar! disse o principezinho.
- Vou, disse a raposa.
- Então, não sais lucrando nada!
- Eu lucro, disse a raposa, por causa da cor do trigo."

terça-feira, 9 de junho de 2009

Apetite por Paixão


“Pessoas comuns, no mundo inteiro, usam ditos populares para expressar sua sabedoria. Frequentemente faço uso deles porque encerram grandes verdades universais. Um que ficou muito conhecido, é “Como água para chocolate”. Outro dos meus favoritos é “Amor com amor se paga”. Nada mais verdadeiro. A única medida de valor para o amor é o próprio amor, nem o ouro, nem plumas de quetzal, nem pedras preciosas. O valor do amor está acima de todos os outros, e tudo que vale a pena é realizado com amor.
Desde que foi concebido, Como Água para Chocolate esteve rodeado de amor. Sua gestação começou muito antes da idéia central me ocorrer, começou quando recebi meu primeiro alimento, dado com amor.
Foi com a intenção de dar ao amor transmitido no ato de cozinhar a apreciação que ele merece que escrevi meu primeiro romance. Como Tita em meu livro, estou convencida de que podemos impregnar a comida com emoção, assim como qualquer outra coisa a que nos dediquemos. Quando esta carga afetiva é poderosa, é impossível que passe desapercebida. Os outros podem sentir, podem tocar, podem apreciar. Confirmo isso a cada dia que passa. Escrevi meu romance com amor. Meus agentes, meus editores, meus tradutores, distribuidores sentiram isso, partilharam isso comigo e contagiaram os outros. Este livro é o último elo desta corrente de amor. E estou mais do que satisfeita com o “pagamento”que o meu trabalho tem recebido.
So posso agradecer a todos, presentes e os ausentes, vivos e mortos, que colaboraram com o seu ar, sua terra, seu fogo e sua água para o cozimento deste “apetite por paixão”. Este livro me reconcilia com a crença de que, em se tratando de amor e de cozinha, não existem fronteiras. Cada refeição que eu tive, as pessoas que me acompanharam e a maneira de comer tem determinado quem eu sou. Seguindo este curso, tenho que reconhecer que pelas minhas veias corre uma certa dose de Coca-cola.
Explico: a familia da minha mãe é de Piedras Negras, na fronteira setentrional do México. Para mim, Piedras Negras começava no estado de Coahuila e terminava em San Antonio, Texas. Eram limites bem extensos, pelo menos assim me pareciam. Sendo uma menina, eu não tinha nocão de geografia. Essa idéia de que desta árvore para lá é outro mundo, não me entrava na cabeça. Tudo o que eu sabia era que havia lugares em que eu me sentia em casa. Precisei passar vários anos na escola para aprender que existem coisas como fronteiras e rejeição entre dois povos. A cada ano, minha familia viajava da Cidade do México até San Antonio, no Texas, para visitar parentes. No caminho, sempre parávamos para ver uns amigos em Piedras Negras. Em cada lugar, a magia se repetia: alquimia na cozinha, o ritual da mesa, a poderosa transferência de amor através da comida. A única diferença que havia era que, se em Piedras Negras devorávamos tortillas de farinha, carne desfiada com ovos, e doce de leite com nozes, em San Antonio eu me regalava com roscas cobertas de açúcar e Milky Ways. Por outro lado, como Ariel Dorfman e Armand Matterlart ainda não tinham escrito “Como Ler o Pato Donald”, eu não tinha indigestão lendo as revistinhas de Walt Disney na viagem.
E assim, os anos foram passando e meus conhecimentos de geografia, aumentando. Fiz notáveis avanços. Em pouco tempo entendi que Piedras Negras não chegava até San Antonio. Que uma cidade estava nos Estados Unidos e a outra no México, havia uma fronteira entre elas, e mais, a cultura dos Estados Unidos pouco tinha a ver com a cultura mexicana. Não importava se a cada noite de sábado minha irmã e eu organizávamos festas onde servíamos sanduíches e Coca-colas, dançavamos rock and roll e mascavamos chicletes. Nós tinhamos explicação para tudo: os sanduíches eram uma variação das tortas e as tortas eram mexicanas - ponto final. Nosso gosto por chicletes vinha dos astecas. Muito antes da chegada dos espanhóis, os indios mascavam chapopote. O rock and roll não tinha nada de mal, além do mais, era um fenômeno mundial e Coca-cola...bom, se ela tinha sido criada para fins medicinais, bebê-la só poderia fazer muito bem para nós.
E os anos continuaram passando e meus conhecimentos de geografia, aumentando. Aprendi onde era o Vietnam e que estava dividido em dois. Soube que meu primo em San Antonio tinha sido convocado pelo exército. Foi quando a Coca-cola começou a parecer amarga para mim. Aprendi que ela destrói o esmalte dos dentes e faz mal à saúde. Passamos a chamá-la de “água negra do imperialismo ianque”. Parei de bebê-la, tinha medo que transmitisse o horror da guerra. Felizmente, os hippies apareceram no meu mapa geográfico. Aprendi onde ficava a Universidade da Califórnia em Berkeley e o que estava acontecendo lá. No México, nós jovens, também fomos para as ruas distribuindo flores, ouvindo Joan Baez, rindo e celebrando o amor livre e pensando que o nascimento do “Novo Homem” era possível. Nós acreditávamos que podíamos mudar o mundo, mas não mudamos. Passei muito tempo me perguntando qual teria sido o erro.
Por que foi que nenhuma das revoluções em que tomamos parte conseguiu favorecer o surgimento desse novo Novo Homem? Para onde teriam ido todos os hippies? Joan Baez ainda continuava cantando? Onde estavam os filhos de Woodstock?
O sucesso do meu romance me deu as respostas. Por causa dele eu viajei pelas Américas e concluí que não era a única pessoa preocupada em estabelecer uma nova relação com a terra, com o universo, com o sagrado. Muitas outras pessoas tinham descoberto que a nova revolução iria germinar nos corações, nos ritos, nas cerimônias. Muitas pessoas estavam tentando desesperadamente substituir os valores materiais pelos espirituais. Muitos mantiveram o poder de fogo em suas almas.
Não existem fronteiras! É mentira que uma linha divisória possa separar um povo de outro povo. É mentira dizer que os hippies cantaram em vão - eles deixaram a semente. É mentira que os norte-americanos não comem chili e feijão - eles adoram. É mentira que nós mexicanos não comemos hamburgers - nós comemos com gosto, só adicionamos um pouquinho de pimenta.
Agora eu sei que a esperança ainda existe, que o Novo Homem está a caminho, vai ser uma pessoa completamente ignorante em geografia, não vai se importar em saber de que lado da linha está o chão que ele pisa, vai ter tanto prazer comendo uma tortilla quanto bebendo uma Coca-cola, porque vai saber que não é o que está ingerindo que importa, mas sim que está participando de uma cerimônia que o remeterá à sua origem cósmica, que vai muito além do étnico. Porque se considerarmos as origens, nós mexicanos somos filhos do milho, e os norte-americanos têm comido pipoca o suficiente para serem considerados nossos parentes."

Este prefácio (abreviado aqui) foi escrito por Laura Esquivel para o livro Apetite por Paixão, traduzido por mim do inglês para o português e editado pela L&PM Editores em 1995.

sábado, 6 de junho de 2009

Viajar


Do escritor holandês Cees Noteboom, perguntado se acredita que, hoje em dia, com a globalização, as viagens se tornam muitas vezes previsíveis, com pessoas que se parecem cada vez mais:

“Viajar, o jeito que cada um viaja, depende do indivíduo. Eu não ligo para turismo de massa. Se você realmente quer viajar, tome seu tempo, vá para um determinado lugar neste globo, vá ao ponto de ônibus, pegue qualquer ônibus – você verá que as pessoas NÃO são todas iguais, que o mundo é um lugar muito maior do que imaginou. Viajei por caminhos de peregrinação no Japão – a peregrinação de Saigoku – e nas fronteiras do Saara: são lugares que não têm muito em comum. O previsível de que fala é um conto de fadas inventado por jornalistas que não saem de casa. Tudo depende de si mesmo, e nem se trata de uma questão de dinheiro, como se pode ver pelos mochileiros que enfrentam dificuldades em viagens pela América Latina.
(em entrevista a Rachel Bertol para o caderno Prosa e Verso, do jornal O Globo, publicada em 28 de junho de 2008.)

terça-feira, 2 de junho de 2009

Revelações


A historinha abaixo me foi mandada pela amiga Jussara num momento curioso em que ando empenhada em descobrir não a história, coisa que pessoas mais habilitadas já fizeram, mas o espírito da minha família. Estou atrás da minha herança genética, na falta de outra, que se houvesse, talvez eu não estivesse aqui, estaria gastando por aí... pelo menos até agora não descobri nenhum ladrão de cavalos.

Judy Wallman é uma pesquisadora na área de genealogia nos Estados Unidos.Durante pesquisa da árvore genealógica de sua família deu de cara com uma informação interessante. Um tio-bisavô, Remus Reid, era ladrão de cavalos e assaltante de trens. No verso da única foto existente de Remus (em que ele aparece ao pé de uma forca) está escrito: "Remus Reid, ladrão de cavalos, mandado para a Prisão Territorial de Montana em 1885, escapou em 1887, assaltou o trem Montana Flyer por seis vezes. Foi preso novamente, desta vez pelos agentes da Pinkerton, condenado e enforcado em 1889."

Acontece que o ladrão Remus Reid é ancestral comum de Judy e do senador pelo estado de Nevada, Harry Reid. Então Judy enviou um email ao senador solicitando informações sobre o parente comum. Mas não mencionou que havia descoberto que o sujeito era um bandido.

A atenta assessoria do Senador respondeu desta forma:
"Remus Reid foi um famoso cowboy no Território de Montana. Seu império de negócios cresceu a ponto de incluir a aquisição de valiosos ativos eqüestres, além de um íntimo relacionamento com a Ferrovia de Montana. A partir de 1883 dedicou vários anos de sua vida a serviço do governo, atividade que interrompeu para reiniciar seu relacionamento com a Ferrovia.
Em 1887 foi o principal protagonista em uma importante investigação conduzida pela famosa Agência de Detetives Pinkerton. Em 1889, Remus faleceu durante uma importante cerimônia cívica realizada em sua homenagem, quando a plataforma sobre a qual ele estava, cedeu."

sábado, 30 de maio de 2009

O grou


Pedi e ganhei no Dia das Mães um livro de contos japoneses lançado há um tempo, que minha filha foi encontrar numa livraria de crianças, era um livro infanto-juvenil, nem eu nem ela esperávamos uma leitura tão ligeira, mas era o presente que eu queria.
Às vezes lamento nunca ter dado muita bola para o Dia das Mães, mesmo com a devida aprovação da minha mãe, pelo comércio que envolve a data e pela tristeza que comemorações assim trazem para quem não pode comemorar, por falta de dinheiro ou de mãe.
Hoje, revista e atualizada, prefiro confraternizar a qualquer pretexto. Presente e filha são sinônimos, mãe deve ser um pouco também, culpa e tristeza é que merecem nossa dispensa. Mesmo sem minha aprovação, a data existe, o comércio gera empregos, e espero homenagear minha filha quando um dia ela for mãe.

No primeiro conto, a primeira surpresa: quem tem idade suficiente vai se lembrar do velho pescador Urashima Taro, nosso conhecido dos anúncios da Varig. No conto popular, ele realmente salvou uma tartaruga, que o levou numa viagem a um reino encantado no fundo do mar. Mas surpresa maior foi descobrir que os contos, populares e infantis, são tão dramáticos quanto um acidente aéreo. Tratam invariavelmente de uma vida muito dura, de uma impossibilidade, uma perda irreparável, um caminho sem volta.

O quinto conto - O grou - não foge à regra. Eu fui, mas não é preciso ir ao Japão para perceber como a geografia e uma vida sujeita a tantas intempéries é determinante na cultura de um povo. A religião também cumpre o seu papel. Para o xintoísmo, todos os elementos na natureza são divinos, não apenas os seres vivos, mas o vento, a água, as pedras, a montanha. Essa fusão entre os reinos naturais, um pouco estranha para nós, é muito presente lá, e eu acho que ela altera até as noções de preservação e destruição, que são tão contrastantes entre os japoneses.

Na minha segunda visita, a maior alegria que tive foi ver um único grou numa praia deserta, na ilha de Hokkaido. Os outros já tinham partido para as longas viagens que fazem. Só a paisagem já era poesia pura, e ficou mais misteriosa depois do conto. As asas dos aviões trazem o Oriente mais para perto, mas ele continua tão diferente quanto atraente.

Novos tempos


Estou mudada, e não é pouca mudança. Acostumada a ter opinião, e a expressá-la, de repente, do fundo da alma, resolvi guardá-las todas. Não que eu pretenda pensar diferente, mas ando mesmo empenhada em me desincumbir. E a ouvir. Como os japoneses, que quando balançam a cabeça e dizem "né", não estão concordando, estão apenas ouvindo. Aprendi que as pessoas ouvem cada vez mais apenas o que querem, e em vez de considerar a sua opinião divergente, tendem a procurar uma patologia onde possam te encaixar. E daí para a segregação, pode ser um passo. Na verdade, cada um ouve como pode e escolhe ouvir.
Hoje percebi que nem mais com o jornal me desentendo. E olha que eles não mudaram! O que acontece de sério e grave à minha volta não tem nenhuma graça, mas passei a achar graça neles quando leio. Zen. Mesmo nas manchetes difíceis para minha humilde compreensão.
Essa é uma das onze manchetes da primeira página, nenhuma delas positiva:
“Dólar fecha a R$1,97 e no ano perde 15%.” É perda ou é ganho?
Se vivemos em reais, não é bom que o dólar caia? Bom, eu não sou economista. Fui para a chamada do caderno feminino:
“Homens baixinhos e sequinhos viram moda e são novo objeto de desejo.” Achei engraçado pra caramba. Fui me informar melhor lá dentro: li que “o corpo masculino fica magro, mais seco e mais econômico, como exige a estética do futuro. O baixinho está na moda. Para os compactos, eles são a evolução da espécie: consomem pouco e não ocupam espaço.” Matéria de capa do caderno, e quase duas páginas! Será a vingança das gordinhas em marcha? Os de mais de um metro e setenta devem cortar um pedaço da canela ou os pulsos? A matéria não é humorística, é uma análise de novas tendências.
Se os homens usassem sutiã, acho que seria o caso de queimar agora. Se isso não é tratar homem como objeto, eu não sei ler. Gostaria que fosse para sempre, mas não sei por quanto tempo vou conseguir ser zen.

segunda-feira, 25 de maio de 2009

“Genocídio cultural”, na expressão de Pasolini


A educação e os comics: instantâneos brasileiros

As escolas públicas de São Paulo adotaram histórias em quadrinhos com conotação sexual, no ensino de crianças entre 8 e 9 anos. A escolha não foi circunstancial, pois expressa o núcleo da ideologia contemporânea, que considera que “a verdadeira cultura é inacessível à grande massa”.

Olgária Mattos

A imprensa divulgou a notícia de que as escolas públicas de São Paulo, a fim de “estimular a leitura e a escrita” no aprendizado da língua portuguesa, haviam adotado, para crianças entre oito e nove anos, histórias em quadrinhos. A publicação foi considerada imprópria por conter palavrões que, como se sabe, portam conotação sexual. Considere-se, também, além do estilo do desenho, a dificuldade de leitura de seus balões, que se deve ao traçado das letras, desenho e letras plenamente adequados ao gênero.

Assim, a questão não é a história em quadrinho, mas a adoção, pelas escolas, de uma expressão literária de distração “para adolescentes e adultos”, uma vez que a árdua tarefa da educação é introduzir a criança no universo do conhecimento, formando-lhe a sensibilidade e o pensamento, para que ela possa apropriar-se, progressivamente, de um repertório mais amplo e diverso daquele de que dispõe por sua inserção social e pela cultura de massa.

Confundindo educação e entretenimento, cedendo à adaptação da escola ao gosto das mídias, esta escolha não foi circunstancial, pois expressa o núcleo da ideologia contemporânea, que considera que “a verdadeira cultura é inacessível à grande massa”. Adorno escrevia nos anos 1940 que a mídia determinou uma cisão entre “cultura de elite” e “ cultura popular”, protagonizando a cultura média midática, que difunde um conhecimento medíocre para a grande massa. Para ele, a indústria cultural seria, então, produzida “para os ignorantes”. Em seguida, seria levada a cabo “pelos ignorantes”, por equipes técnicas que não estabelecem nenhum contato ou contato apenas episódico com o mundo da cultura. Acrescente-se o ideário de que a dificuldade em alfabetizar, bem como em despertar interesse pelos saberes escolares, devem-se ao pressuposto de a escola não estar adaptada ao universo do “ educando”. Na verdade, talvez a crise esteja em a escola ter-se adaptado à carência do status quo , que corresponde à indigência das próprias elites educacionais.

Em sua obra "A revolução da escrita e suas conseqüências culturais na Grécia Antiga" , Havelock indica a maneira pela qual o advento da educação formal e o ensino da gramática foram de grande eficácia, pois qualquer sistema de escrita que reproduzisse apenas a língua falada estaria sujeito a flutuações e variâncias que acabariam por comprometer sua função social de comunicação e clareza, e por isso exigia um alto grau de convenção. Também Adorno em suas "Minima Moralia" alertava para as dificuldades das relações humanas na sociedade industrial produtivista,uma vez que esta se encontra sob o domínio da razão instrumental, movida pelo culto da eficiência e dos resultados, por um lado, pelas razões econômicas, de outro. Na educação, trata-se, antes da pergunta sobre o que ensinar e seus métodos, de refletir sobre o “tipo de indivíduo que se procura formar com a educação.” Por visar o indivíduo compassivo com seus próximos e solidário na sociedade, a educação não se pautava pelas necessidades do mercado. Valia-se, pois, no ensino da língua, de narrativas exemplares em que a elaboração literária era essencial. Por isso,associava-se o ético ao prazer estético.

A adaptação da escola ao social é comandada pelo fetiche da facilidade que comanda, por sua vez, as transformações dos programas educacionais, definindo comportamentos intelectuais. Esta mutação do caráter civilizacional da educação escolar não é acontecimento isolado de São Paulo, mas se expande por todo o sistema de ensino. Que se pense na indústria dos livros para-didáticos e sua discutível qualidade, recomendados em estabelecimentos de ensino.

Desde suas origens gregas, a educação formal visava desenvolver saberes e habilidades a fim de reunir escola e vida. Diversamente daquelas aptidões que se aprendem sem necessidade de instrução, pela experiência e pelo hábito, a escola foi o lugar de adoção de uma identidade coletiva com valores e conhecimentos comuns e compartilhados. Lembre-se que “aluno”, em francês, se diz “ élève”, porque a educação eleva a criança e sublima o povo.

Independentemente de sua utilização, o fato de este material ter sido cogitado para as escolas públicas indica de que maneira o Estado produz intensivamente a exclusão, educando os mais pobres para permanecerem na pobreza.. Elitista, o Estado impede o acesso dos despossuídos à cultura formal, tornando-a privilégio de uma elite. “Genocídio cultural”, na expressão de Pasolini.

Olgária Mattos é filósofa, professora titular da Universidade de São Paulo.

segunda-feira, 18 de maio de 2009

Só a mulher peca


Outro dia vi um filme daqueles que deixam o ar meio pesado, mesmo não se tratando de um drama. Era só a vida mesmo.
Clash by Night (Fritz Lang, 1952). O título em português? “Só a Mulher Peca”, que de tão impróprio só se explicaria com um objetivo únicamente apelativo, isso sim, um pecado.
Dependendo dos olhos e do momento, pode ser visto em várias camadas de profundidade, que os filmes eram bem mais densos que os de agora, em que a maioria é voltada para o público adolescente, sem que isso signifique preocupação com a sua formação. Mesmo assim, achei surpreendente ver contada uma história – de uma época em que os filmes não eram cabeça - que tratava de desejos que uma vida aparentemente bem resolvida não resolvia, infidelidade sem machismo, comportamento feminino desajustado, fora dos padrões e sem condenação (apenas no varejo). Nada de final surpreendente, final mais para vida real mesmo, mas o jeito de conduzir a história conta um belo ponto para o cinema americano, que aqui só era tido em alta conta por quem lotava os cinema e deixava a pretensão do lado de fora. A pretensão e os louros ficavam mesmo com o cinema francês na época da “geração Paissandu”, em que eu via todos os filmes mas entendia muito pouco – e não me divertia nada. Bom, pelo menos tínhamos a adolescência...

quarta-feira, 13 de maio de 2009

Perto, longe, mais perto


Desde que soube do fim dos tiroteios, por conta da saída dos traficantes do Morro Santa Marta, tive vontade de ir lá. Não chegaria a sugerir uma visita ao morro, deixo o olhar estrangeiro para os turistas e seus jipes, que sobem e descem a favela da Rocinha querendo conhecer uma realidade que, lá no fundo, talvez tenha suas raízes mais próximas deles do que possam imaginar.
Antes da invasão do tráfico, os morros eram territórios pobres, mas livres. Cheguei a subir alguns, como jornalista, sem nenhum aparato de segurança. E antes da remoção de algumas favelas da Zona Sul, tudo era muito perto, e a cidade não parecia tão partida assim, apesar da desigualdade econômica.
Eu não teria a mesma visão do jovem articulista do Jornal do Brasil, que escreveu o que reproduzo abaixo, mas gostei das informações e da sinceridade que ele passa.
Tenho ainda saudades do velho JB... um jornal que tinha de Drummond a Clarice Lispector em seus quadros, não deveria chegar ao estado em que se encontra.
Mesmo assim, pela diversidade, ainda revela algumas surpresas quando leio, aos domingos.
Voltando ao Morro, faltou aqui falar do muro. As comunidades têm medo de protestar contra eles e perder os benefícios que estão finalmente conseguindo.
Os muros nas favelas cariocas subirão em silêncio? Se é impossível demarcar e fiscalizar, de que adiantará um muro? Construirão, com ou sem muro, como fazem e farão em qualquer outro morro da cidade, com favela ou não. Sem nenhum apreço pela Mata Atlântica.
Lamento, mas esses muros não resistem a nenhum argumento.



O artigo é do Jornal do Brasil de 10/05/2009. As fotos fiz a partir do Morro do Corcovado - o ponto de vista é bem próximo.

SUBIR O SANTA MARTA, UM PROGRAMA LEGAL
Rio Acima - Marcelo Migliaccio -

O melhor programa no Rio atualmente não está em nenhum guia turístico, nem nos suplementos de jornais e revistas dedicados ao lazer. A boa é rumar para o bairro de Botafogo e dar um passeio até o alto do morro Santa Marta (Dona Marta é o nome da comunidade), onde agora dez mil pessoas vivem em paz depois de anos espremidas entre o jugo do crime organizado e a truculência policial.
Ocupado pela PM desde novembro, o Santa Marta virou uma pacata cidade do interior. O bondinho que sobe vagarosamente - e precisa de uma ventilação melhor, é verdade - revela a cada uma das cinco estações um Rio que os cariocas dos asfalto não conhecem.
Por enquanto, quem está aproveitando mais o novo point são os turistas estrangeiros, sempre destemidos e dispostos a conhecer muito mais do que indicam os folhetos dos hotéis e albergues. Os cariocas da gema, doutrinados pelo preconceito que impede alguns até mesmo de olhar para as favelas, desconhecem, por exemplo, que do alto do Santa Marta tem-se uma vista incrível da Lagoa Rodrigo de Freitas, com o mar de Ipanema ao fundo, assim como da Enseada de Botafogo e do Pão de Açúcar, cartões-postais que a violência dos fuzis e metralhadoras nos sonegou até recentemente. Agora sim, nesse clima de paz, o Cristo Redentor parece realmente abençoar aquela comunidade. Do alto do Santa Marta, a estátua é apreciada bem de frente, grande como nunca foi imaginada pelos que vivem ao nível do mar.
Há, no entanto, algo ainda melhor do que a vista: conversar com os moradores, gente trabalhadora com a qual topamos diariamente nos servindo nos bares e restaurantes, cuidando da limpeza dos prédios em que moramos e dos nossos locais de trabalho, varrendo as ruas. Pessoas que trabalham duro para que ali também haja até alguns universitários. Numa incursão ao Santa Marta, descobrimos que essas pessoas têm muito a nos contar, e estão ávidas por ouvir o que temos a dizer. Só ali podemos conhecê-las sem as barreiras sociais e econômicas que nos separam no dia a dia. Que as tornam invisíveis ao nosso olhar elitizado. O gueto agora pacificado prova que esse abismo entre nós e eles é mais que um pecado. E um desperdício.
Encontrei no bondinho (veículos não sobem, o que só reforça o clima interiorano) José Carlos e Elmira, casal recém chegado do Piauí. Hospedados temporariamente na casa de parentes, trouxeram a pequena Cíntia, de um ano, que carrega no brilho dos olhos toda a esperança da família. José Carlos não conseguia disfarçar a angústia de quem procura desesperadamente trabalho. Com mais sorte, Elmira já havia conseguido vaga de doméstica lá embaixo, mas o marido, forjado no machismo nordestino, parecia sentir-se ainda pior com o fato de ela ser momentaneamente a mantenedora.
- Vou conseguir um emprego também, se Deus quiser - dizia ele, mais para si mesmo e para a mulher do que para mim.
Também conheci o pedreiro Cleiton dos Santos, 17 anos, que abandonou os estudos aos 14, primeiro por preguiça e depois para trabalhar e ajudar a família. Ele trazia numa gaiola enferrujada um passarinho verde todo estropiado.
- É uma saíra, caiu do ninho, e eu peguei para cuidar - contava o rapaz, contemplando aquela frágil metáfora viva de uma gente ao mesmo tempo bela e sofrida.
Crianças soltando pipa, jogando bola de gude e futebol; mulheres conversando, churrascos na laje; famílias aliviando-se do calor em piscinas de plástico. Domingo.
Na porta de seu barraco de madeira úmida, o biscateiro Edson do Carmo dos Santos, 36 anos (aparência de 50), cinco filhos e três netos, me falou de seu sonho: ter uma conta de luz.
- Para a gente poder chegar numa loja lá embaixo e comprar uma mercadoria.
Ele só lamentava não ter ainda coragem de sair à noite:
- Até agora não tenho nada do que reclamar dos PMs, mas ontem a cerveja acabou, e não fui comprar. Sabe como é...até provar que focinho de porco não é tomada...fica a palavra deles contra a minha e como morto não fala...
Claro, ainda há alguns constrangimentos. Depois de tantos anos entrando ali só para dar tiros, é natural que os 120 policiais que ocupam o morro despertam medo e desconfiança em muitos moradores, principalmente nos jovens e nas crianças. Alguns adolescentes lamentavam a ausência de bailes funk e a presença constante dos PMs próximos às suas rodinhas. Disse a eles que, se querem cidadania, terão de se acostumar.
Os idosos, porém, estão adorando. Não há mais no ar o silêncio nervoso que precede um tiroteio. Os traficantes fugiram, e a PM desfila o seu comando azul pelas vielas chefiada por uma mulher - tinha que ser - a capitã Priscila.
- Alguns já me dão bom-dia - comemora a policial.
O ar que se respira no Santa Marta hoje é leve. As pessoas andam de cabeça erguida, visivelmente felizes por receberem atenção do poder público, e não mais apenas os seus caveirões blindados. Depois de 70 anos de abandono, por todos os lados há operários do Plano de Aceleração do Crescimento (PAC)a construírem novas moradias, creches, escolas profissionalizantes. E a reconstruírem a autoestima de milhares de pessoas que, apesar de nunca terem cometido crime, haviam sido condenadas à indigência, à sujeira e ao abandono, como ainda ocorre em cerca de 600 favelas.
É hora de os cariocas bem nascidos conhecerem a hospitalidade do Santa Marta.
Vão se deparar, é verdade, com muitos valões a céu aberto, crianças com o nariz escorrendo e a barriga inchada de vermes, casas insalubres onde ser humano nenhum deveria viver. Sentir, no entanto, o calor humano, a simplicidade e a receptividade desarmada não tem preço. E cura qualquer depressão.
Por isso no proximo fim de semana, esqueça o shopping center, a praia sempre igual, a orla da Lagoa e as filas do cinema. Vá ver de perto como é linda a vida acontecendo num dia de sol e paz no alto do morro Santa Marta.