domingo, 4 de novembro de 2007

Anima


Li uma vez que o ser humano envelhece quando deixa de amar.
Pela alegria e energia geradas pela força do amor, ele deve ser mesmo fonte de juventude – pelo preparo físico e psicológico que ele exige, também.
Para sobreviver aos desamores, idem.
A paixão é naturalmente restritiva - tem suas razões para isso. Mas o amor é um sentimento abrangente – pode tratar de amor à vida e às coisas do mundo. Por isso eu acrescentaria curiosidade à fórmula da juventude. O dicionário explica: desejo de saber, ver, informar-se, desvendar, alcançar; interesse. Citações no verbete do Collins falam de “olhos bem abertos e cheios de curiosidade” e da “curiosidade do repórter”. Muitas vezes me decepciono vendo a maneira com que a minha profissão é exercida, mas acho que a curiosidade é a sua melhor característica, essencial e saudável. Não deixar que ela fique morna, que se venda, ou se reduza à bisbilhotice já é outro departamento, que trata de qualidade e ética. A curiosidade pode olhar para o lado sem perder qualidade, ou para trás sem ser retrógrada, se está à procura de uma nova maneira de ver as coisas. Pensando melhor, vou olhar sempre a minha profissão com bons olhos, e deixar os maus olhares para os maus profissionais.

sábado, 3 de novembro de 2007

Luz e Sombra


Contradição é o meu traço mais coerente, graças aos céus.
Não fui agraciada com a segurança de quem sabe o que quer, de quem não vive assaltada pelas dúvidas, de quem vai em frente sem pesar cada decisão que precisa tomar, de quem não vai para a cama acompanhada de alguma ilusão que o tempo tratou de adormecer, que o tempo trata mesmo é de adormecer ilusões, uma a uma, nas suas caminhas.
Trago sempre comigo o receio da insensatez, o temor dos maus passos, o desprezo pelos erros de cálculo - pelo ridículo do tombo, pelo orgulho ferido quando flagrados, pelo sofrimento que provocam. Tenho, de quebra, medo de voar. E ainda, como agravante, uma enorme compulsão por sair do chão que, essa sim, acompanha os naturalmente desacomodados, ao longo de toda a vida.
De pai insensato e mãe sonhadora - ou o contrário, não sei - essa foi a minha herança.
Uma cama quente, um teto, um braço amigo, é tudo o que o corpo de uma alma desassossegada pode querer. Já a alma desse corpo, do que é que precisa?
De uma filha sorridente por perto, de água salgada no corpo, de um cheiro de mato, um canteiro florido, e paz.
Mas a vida também traz sem ninguém pedir: um carnê do INSS, outro do IPTU, um boleto do IPVA e mais um do condomínio, nossos neurônios, nosso suor, e nosso tempo, engarrafados higienicamente, para ir entregando à prestação, de acordo com o calendário planetário regulamentar.
Nasci com a alma engessada, bem no meio desse mundo - que manda a gente ficar quieta, em prol da placidez das águas.

quarta-feira, 31 de outubro de 2007

Se a NET é contra nós, só Deus será por nós...


Andou chovendo muito no Rio. Chuvas fortes costumam desabrigar uma legião de pessoas quando caem por aqui, e dessa vez caiu também muita terra, fechando o Túnel Rebouças, a principal ligação entre as zonas norte e sul da cidade. É claro que o fechamento do túnel transtornou o trânsito e a vida da cidade, foi manchetes dos principais jornais do país por vários dias (as dezenas de centenas de desabrigados da Baixada e outros municípios fluminenses já estão acostumados a ficar na sombra nessas ocasiões – sem holofotes e sem água fresca).
Muitas perguntas foram feitas pela mídia, muitas autoridades trocaram acusações e juras de ir até os tribunais, mas de concreto mesmo, além do muro de contenção em cima do túnel, ficou a certeza de que não saberemos ao certo o que provocou o desmoronamento que fechou o túnel.
De resto, ficou flagrante, além da falta de administração, a falta hábito de pensar no povo e dar satisfação a quem paga o pato e a conta, já que as autoridades admitiram que erraram não alertando a população sobre os transtornos que ela enfrentaria ao sair de carro para trabalhar - o que poderia ter reduzido consideravelmente o caos.
Quando se fala em problema na cidade, a NET não pode ficar de fora. Depois de cinco dias sem internet, devo admitir que o serviço melhorou um pouquinho: da última vez foram dez dias. Agora, ela vai, ela vem... uns técnicos vão, outros vem... uns dizem que é o modem velho que precisa ser trocado...eu digo que não pode ser, porque o meu modem não pode ser culpado pela falta de internet no prédio inteiro...depois de trocado, dizem que é uma pecinha da conexão no prédio...depois da troca da pecinha, minha conexão continua mais indo do que vindo, e de tanto que me vejo forçada a ligar para eles, eu correria o risco de acabar noiva dos atendentes da NET, se não fosse o problema da ligação cair com freqüência - será de propósito?
Só as contas chegam em dia, o que eu considero misterioso, diante de tanta indigência administrativa.
Em meados dos anos noventa, passei dois anos morando em Nova York. Dizem que escapei de dois anos de buracos sendo abertos na cidade inteira, para instalarem os cabos da NET. Quando voltei, tratei de incorporar a novidade - do século passado – à minha vida. Depois de vários desencontros e desacertos, chegou à minha casa a equipe da NET. Logo discordaram da indicação do ponto onde estava instalado o telefone, insistiam que o ponto era outro. Existia realmente um outro ponto, onde havia uma extensão desativada. O fio saía de dentro de um armário no fundo do corredor. Não era o ponto original, mas era o que eles queriam. Avisaram que teriam que serrar o armário e perguntaram: “Vocês têm aí uma serra tico-tico?” Foram postos para fora. Dias depois, outra equipe veio e instalou o cabo no lugar que foi mostrado inicialmente para a primeira equipe. E com isso, instalaram também, com garantia vitalícia, ou enquanto eu insistir na NET/VIRTUA, muita chateação e o pior atendimento do planeta.

sexta-feira, 26 de outubro de 2007

Longa é a arte, breve é a vida*


O que melhor revela, traduz e documenta a vida, não é a ciência, é a arte.
Não sei se existe medida de valor para a arte, não o valor de mercado, mas uma avaliação possível para a criação. Não sei bem onde termina o artesanato e começa a arte, mas acho que essa medida tem a ver não só com a originalidade, mas com a emoção que a criação provoca.
Até mesmo quem só pensa em ganhar dinheiro na vida, acaba se rendendo a alguma manifestação artística quando quer usufruir do dinheiro que ganha, quando busca lazer e prazer: uma música, um filme, um livro, um quadro, um talento culinário, uma bela arquitetura, uma forma bonita. Pode ser esse o segredo do sucesso e da permanência da arte: exprimir com talento e precisão os sentimentos humanos.
Mas muitas vezes nem um atento consumidor de arte tem a idéia exata da distância e do contraste entre o processo de criação e o que resulta dele.
Uma ágil e leve bailarina voando no palco nem sempre revela o trabalho, as horas de dedicação diária e o sacrifício físico exigidos para chegar ao desempenho que admiramos. Os pés das bailarinas são testemunhas.
Vendo um quadro de formas simples, é difícil adivinhar os caminhos percorridos para alcançar a síntese e a harmonia de uma pincelada que pode até se parecer com um trabalho de criança.
O resultado pode ser lúdico, mas a realização não costuma ser. O esforço que a criação exige geralmente não é percebido. Tem mais restrição do que diversão o ofício da arte, ao contrário do que possa parecer para quem desconhece o processo. Vida de artista lembra muito mais boemia do que suor e seriedade, mas geralmente exige muito mais dedicação do que profissões exercidas dentro de um expediente de trabalho. Qualquer pessoa que põe talento e alma no que faz sabe disso, não é privilégio dos artistas.
Quando se tem um real talento, manifestá-lo e desenvolvê-lo nem sempre é uma escolha. Um dom pode ser quase um fardo. Isso explica porque muitos artistas nem gostam de falar do próprio trabalho, falam apenas para fins didáticos. E raramente se preocupam em parecer o que são, os verdadeiros são reconhecidos não pela aparência, mas pela obstinação: são compulsivos e focados. Sobre artistas de verdade, sei que não é a fama o que perseguem. Quem tem cabeça de artista traz na alma uma riqueza pessoal, mas além de talento, é preciso que tenham também vocação. Ao longo da história, muitos foram muito bem sucedidos, apesar da aura monástica e pouco abastada que julgamentos mais ligeiros associam à vida de artista. O sucesso financeiro em nada prejudica a sua arte mas quem tem alma de artista sabe que bom mesmo não é ganhar dinheiro como um fim, mas como um meio. Dinheiro é bom na medida do conforto e do prazer que nos permite ter. Ganhar dinheiro só para o cofre ou para o ego, aí sim, é o fim.
Não tem graça a vida sem arte. Também não é fácil entender a vida de quem vive para a arte. Férias, por exemplo, não costumam estar entre seus projetos prioritários, sob os mais variados pretextos – e em sociedades pouco civilizadas e menos desenvolvidas, sem política cultural, pretextos nunca faltarão para justificar um incessante expediente de trabalho.
Em países onde já se entende a arte como inerente à humanidade, sabem que ela não é um luxo, é vital como a agricultura.
A criação tem parte com o divino, e às vezes tira dos artistas seus pés do chão. A Pietá, de Michelangelo, é quase divina. Mesmo assim não fala, nem respira. Acho que é esse o nó na vida dos artistas. Uma roseira tem vida. Jardineiros não são artistas, mas lidam com a vida e por isso sabem que não se colhe sem plantar, que a colheita corresponde à dedicação recebida, e que até a terra precisa descansar.
Porque não os artistas? Não sei.
E não sei se existe equilíbrio possível entre a arte e a vida.
* primeiro aforismo de Hipócrates

domingo, 21 de outubro de 2007

O pecado da cor


Depois de muito ler sobre racismo e não racismo no Brasil, e só conseguir ficar de cabelo em pé, fui procurar a opinião de quem tem a pele como testemunha.

“A mudança fundamental é a gente poder falar. Os primeiros lutadores eram mais perseguidos do que membros do Partido Comunista. Houve um tempo no qual era muito difícil, para os militantes, falar do movimento. Outro tempo foi o de contestação. A luta hoje é por participação na sociedade. A estratégia de protestar é fácil, basta agredir. A de conquistar é mais difícil.”

Sobre mestiçagem:
“Isso é bom porque criamos a raça-Basil. Mas não saiu tão perfeito, porque na América do Norte o negro vive melhor e lá muito mais negros participam da administração, das universidades. Cheguei a um banco, vi aquele monte de negros trabalhando, olhei na gerência, só tinha negros! Uma coisa que não existe no Brasil. Aqui tratam você muito bem, tanto quanto qualquer cliente que tenha conta, não discriminam, tudo bem. Mas até naquelas funções mais simples, de recepcionar uma pessoa, você não tem negros trabalhando. A negrinha não tem vaga nesse banco. Falei banco mas podia ser outro lugar. Então a mestiçagem foi muito boa, mas contribuiu para manter essa diferença.”

Sobre cotas:
“Sou favorável. Subir na sociedade depende da convivência. Um conhece um, outro conhece outro. Tanto é que a pessoa, mesmo sem ter preconceito doentio, diz: - eu vou na escola de samba, eu vou no botequim, eu vou na casa do empregado, tudo certo. Mas na festa de batizado da filha ele não leva esse pessoal. De modo que isso dificulta a ascensão. Por isso sou a favor de cotas.”

Segregação social?
“Sem dúvida. Se tivermos um governo preocupado em diminuir a pobreza, ele estará lutando contra o preconceito racial. Quando se diminui a pobreza, diminui-se o problema social, diminui-se o preconceito.”

“Até 1988, centenário da Abolição, grande parte da sociedade tinha certeza de que o Brasil não tinha problema racial. Com o centenário se discutiu muito isso e a sociedade se convenceu de que realmente no Brasil tem preconceito.”

“Dentro da minha família, a gente evitava falar, era perigoso. Você era doutrinado a não falar da cultura negra, religião afro, para poder avançar, conseguir emprego, estudar. Tinha de renegar a origem. Aquilo fica por toda a vida. Para tirar, você tem que fazer uma revolução no seu interior.”

Negro que sobe, casa com branca:
“Primeiro, somos iguais a qualquer um, influenciáveis. Os padrões de beleza que nos venderam a vida inteira qual foi? A mulher branca. Isso fica no inconsciente, arquivado. O outro motivo: quando ele sobe, nos lugares onde anda só tem branca. Se ele não casar com branca, só se for racista.”

Trechos da entrevista de Martinho da Vila no Almanaque Brasil de Cultura Popular – Novembro de 1999.

sexta-feira, 19 de outubro de 2007

Ao sabor do vento


A gente pode viver muito tempo tendo a ilusão de que a nossa vida nos pertence, quando na verdade ela é assim uma espécie de concessão da prefeitura, que pode ser resgatada a qualquer momento.
Até tenta dirigir o barco na direção que quer que ele vá - isso ajuda, eu acho.
Já faz um tempo, estou deixando a vida me levar.
Dizer que assim é mais relaxante é mentira, não é.
Viver não é relaxante.
Mas, desincumbidos da obsessão de dirigir a vida, sobra mais tempo
para aprender e curtir.
Curtir as boas coisas – mesmo poucas ou pequenas – que nos aparecem no caminho.
E aprender que mesmo determinados a ir numa direção,
a vida às vezes nos leva para outra.
Deixar um pouco para os outros a decisão. E para nós, a escolha.
Viva a vida.

sexta-feira, 28 de setembro de 2007

O Pará, tucupi, tacacá, açaí, viagem com açúcar e com afeto


Não sei se isso aqui é sobre culinária, amizade, saudade, blogs em geral ou a casa da minha avó. Por enquanto está mais para casa da Mãe Joana, mas vou ver se juntando pé com cabeça essa salada dá um caldo.
Fui para a cozinha com um belo livro de receitas paraenses que me mandou a Regina, ex-colega de muitos anos, que reencontrei graças a esse blog.
Enquanto operava o mixer, pensei que melhor seria substituir o creme de leite e a ricota por queijo cottage. E deu certo o delicioso Patê de Parma com castanha-do-Pará. E aí lembrei do Acre, onde os acreanos me contaram que agora é Castanha da Amazônia, com a autoridade que eles têm por serem seus maiores exportadores – se algum paraense contestar, que brigue com os acreanos, não comigo, que paraense é gente brava e querida - acreanos também.
Operava o mixer, pensava em blogs, seu valor e suas gratas conexões, e pensei num jornalista que ouvi criticando blogs em geral. Ele, jornalista profissional (como eu, e como muito blogueiro bom), não escreveria de graça. Ok. Ele e suas convicções, melhor, muito melhor deixar de lado e voltar para o patê. Ou para o Pará.
Tucupi, cupuaçu, açaí, disso tudo ouvia falar desde pequena na casa da minha avó. Ela recebia o Pará em casa, no Rio, com o carinho de amigos paraenses. Mas fazia para nós um bife e um ovo “estalado” que não existem mais, porque eram fritos na manteiga no tempo que manteiga não era pecado. Abacate se comia com farinha d’água, lembro até hoje.
Morava num sobrado, numa rua sem saída em Botafogo, e não sairia do bairro para nada, como ela dizia, seria, com foi, dali para o cemitério São João Batista, também em Botafogo. Na verdade, já não saía de casa desde que me entendi por gente. Comprava tudo pelo telefone, era conhecida de todo o comércio do bairro, pude constatar depois. E era uma autoridade na rua porque fornecia a bola para a pelada da garotada. Subia e descia as escadas várias vezes por dia, "se não fosse por isso, já estaria entrevada". E não tinha empregada fixa nem ninguém dormindo lá. Vivia só, com cinco cachorros, todos vira-latas.
Num pequeno quintal, uma barra, um cesto de basquete, que ela jogou com os netos até morrer, aos oitenta e dois anos. Um ano exato depois da morte do meu pai, ela desistiu de viver.
Era talentosa, independente e geniosa, a Vó Mindinha, e uma sogra muito difícil para minha mãe. Teria sido mais difícil ainda se tivesse que discutir política hoje, coisa que interessava a ela tanto quanto futebol. Mesmo assim, tenho dela e daquela casa a melhor lembrança que poderia ter, pela enorme ternura com os filhos e com os netos, mas não gosto de passar por lá. O passado deve ficar no passado, acho.
Lembranças. Todo dia 28 de agosto, aniversário dela, os oito filhos, noras, genros e trinta netos se reuniam na casa da rua Alfredo Chaves. Hoje é 28 de setembro, nome de rua, lembro de descobrir que foi assinada nesse dia a Lei do Ventre Livre, daí a rua, e como o pensamento viaja, pensando em política lembrei que esse foi o dia do debate presidencial no ano passado – porque cabeça da gente é território livre, pode ser a casa da Mãe Joana, e nela a gente não precisa nem juntar pé com cabeça, graças a deus. Aliás, quem será que foi Alfredo Chaves?

domingo, 16 de setembro de 2007


O amor? Pássaro que põe ovos de ferro.
*
Despedir dá febre.
*
Viver é muito perigoso.
*
Homem foi feito para o sozinho?
*
Ciúme é mais custoso de se sopitar do que amor. Coração da gente – o escuro, escuros.
*
Coração mistura amores - tudo cabe.
*
Desespero quieto às vezes é o melhor remédio, põe a criatura solta. Medo agarra a gente.
*
O sertão é do tamanho do mundo.
*
Digo: o real não está na saída nem na chegada: ele se dispõe para a gente é no meio da travessia.
*
Amizade dada é amor.
*
A colheita é comum, mas o capinar é sozinho.
*
Esquecer para mim é quase igual a perder dinheiro.
*
Um sentir é do sentente, mas outro é do sentidor.
*
O sertão está em toda a parte.
*
Sertão é o sozinho.
*
Sertão: é dentro da gente.
*
Sei de mim?
Cumpro.

Grande Sertão: Veredas João Guimarães Rosa 1956


(rosas em um quintal no Assentamento São Francisco, sertão de Minas)
Fui rever a exposição, agora no MAM, para levar a tia Dedé, colega do Guimarães Rosa no Itamaraty, onde ele trabalhou por vários anos no Departamento de Fronteiras. Costumavam tomar juntos o mesmo lotação para Copacabana, em tempos mais singelos e mais tranquilos no Rio.
Fui premiada: Rosa e sertão fazem tão bem à alma quanto um banho numa vereda, e ainda deixam a necessidade urgente de uma nova visita - ao Rosa e ao sertão.

sexta-feira, 14 de setembro de 2007

I’m tired, je suis fatigué


Além de cair no ridículo, e nos assombrar com aquelas
caras de dragões andróides, o natimorto movimento Cansei
ainda conseguiu tirar de nós, pobres e honestos mortais,
o direito de cansar sossegado, e de dizer:
cansei, sem perturbar com sua nefasta lembrança
o simples e justo direito que temos,
em algum momento da vida, de cansar.
Às vezes a gente cansa. Não para de trabalhar, não pode. Mas cansa.
Não deixa de comer, não vai cortar os pulsos, mas cansa.
Tipo pare o mundo que eu quero descer.
A pior coisa de não ter mais vinte anos não são algumas rugas e
alguns quilos a mais que a gente acumula: é não ter mais o direito
de fazer bobagem e isso ser engraçadinho – para os outros e para nós mesmos.
A idade nos obriga a um pouco de compostura e sabedoria.
I´m so tired, I can´t stop my brain, my mind is on the blink,
I’d give everything I’ve got for a little peace of mind.
Eu e o John Lennon.
Tem (muitas) pessoas e coisas que atrapalham o mundo.
De idéias de jerico, como minha avó dizia, a instalações esdrúxulas,
má arquitetura, má música. Tudo tem seu lugar ao sol,
mas cabe a nós o esforço para não deixar que ocupem muito espaço.
E isso cansa.