quarta-feira, 23 de maio de 2007

O Diabo no Telhado


Todo mundo que trabalha com documentário tem o programa ou filme dos seus sonhos guardado na manga, esperando que um dia ele deixe de ser sonho e se realize.
Vi, e nunca mais esqueci, um documentário surpreendente, de 1925, contando a saga de um povo nômade que, vivendo entre o leste europeu e o Oriente Médio passava a vida cruzando rios, montanhas nevadas no inverno, descalços, sempre à procura de pastagens para o seu gado. Um filme de ficção não poderia ser mais ágil e eletrizante. Um épico, narrando uma vida de luta e heroísmo sem trégua, mas com diversão e alegria também. Sempre quis tentar descobrir que destino teve aquele povo.
Muitos anos depois, em um mercado de documentários de que participei, um nome curioso me chamou a atenção: em inglês, “The Devil on the Roof ”.
O filme começava em um consultório médico, em que várias mulheres relatavam seus problemas de pele, manifestações que, com muita freqüência, são provocadas unicamente por estresse.
E então passava a contar a história daquele povo, perdido num deserto, estabelecido ali por força de uma conjuntura político-geográfica, sem muitas opções de trabalho e sem tradição de vida sedentária. Era um povo que durante séculos tinha sido nômade até que se estabeleceu em volta da rede elétrica ali instalada, perdendo a ligação com sua cultura e sem conseguir criar outros laços. Mariposas em volta da lâmpada, atraídas mas tontas, foi a imagem que me veio à cabeça. O diabo no telhado? As antenas de televisão, que, trazendo o mundo para dentro de suas casas, acabavam restringindo ainda mais seus limites, agora demarcados pelas quatro paredes da sala.

Dizer que a televisão é uma janela para o mundo, pelo menos quem trabalha na tv já ouviu várias vezes, é um clichê clássico. Só que esse povo TINHA o mundo.

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